Regresso do Travis é destaque de festival

No auge, banda resolveu parar para criar filhos, mas britpop falou mais alto

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h13

Desde 2008, o Travis andava sumido. E olha que não falamos aqui do personagem misantropo de Wim Wenders no filme Paris, Texas, mas da banda de britpop escocesa Travis, que deu régua e compasso para outros grupos posteriores como Coldplay, Snow Patrol e Keane.

Subitamente, o grupo britânico ressurge no festival Planeta Terra esta tarde com um disco quente na bagagem, Where You Stand (sétimo da carreira do quarteto de Glasgow, que se juntou em 1990) e resgata o pop das aclamadas composições do início da carreira. Com 16 anos de estrada, já venderam mais de 11 milhões de cópias.

Fran Healy (voz), Douglas Payne (baixo), Neil Primrose (bateria) e Andy Dunlop (guitarrista) fizeram o mundo inteiro cantar hits como Sing, Why Does It Always Rain On Me? e Departed. Uma sonoridade apurada, um grande senso de humor, uma postura de flanêur: muita coisa sutil os tornava distintos.

Para cuidar do filho recém-nascido, Clay, o vocalista Healy entrou num período sabático que parecia não ter fim. "Em nosso mundo, há um rastro de viúvas e órfãos do rock. Os caras vão para a estrada e nunca mais voltam para casa", afirmou Healy quando largou tudo. Agora, reunidos e em sua primeira visita ao Brasil, é como se estivessem voltando de uma viagem à Lua.

"Até 5 anos atrás, ainda era diferente. Os velhos jeitos de vender coisas mudaram. O mercado é agora muito menor, as bandas estão com menos dinheiro, é irreconhecível. Nós criamos nosso próprio selo, o que nos leva a um contato direto com os fãs, e isso é estimulante. O triste, para mim, é que uma das boas coisas da música era procurar discos, vasculhar lojas, explorar um álbum até a exaustão, ouvir e ter uma perspectiva histórica. Agora, não há mais referências", disse ao Estado, por telefone, o baixista Douglas Payne, torcedor ferrenho do Celtic Football Club e amante do esporte bretão.

Segundo ele, quando o cantor do Coldplay, Chris Martin, disse que se sentia "uma versão pobre de Fran Healy (cantor do Travis)", todo mundo passou a superestimar sua influência. "O que aconteceu é o que acontece o tempo todo: uma banda se torna sucesso e todo mundo passa a apontar semelhanças em seus contemporâneos, como se fosse uma onda de 'vamos todos perseguir a mesma sonoridade'. Eu acho todos diferentes, e ninguém sabe a fonte de todos nós. Nem mesmo a gente. Eu acho que, se uma banda faz sucesso, é uma boa banda, tem sua peculiaridade."

Where You Stand, o novíssimo disco do Travis, não vai recuperar sua reputação instantaneamente. Mas tem bons achados pop, como Reminder e Mother, com boas texturas desenvolvidas sob a produção de Michael Ilbert (que trabalhou com o Radiohead no celebrado álbum OK Computer). Até com um toque extra de melancolia. "Há canções que podem soar tristes, mas acho que têm mais um sentimento filosófico do que de tristeza. Há outras de alegria real, um balanço equilibrado entre positivo e negativo. O que buscamos é que o ouvinte reconheça o sentimento e se sinta confortável com ele", afirma o baixista.

"Glasgow é uma cidade muito pequena, chuvosa. É estranho, porque, por alguma razão que não sei explicar, cria grandes bandas, como Franz Ferdinand, Belle and Sebastian, Teenage Fanclub, grupos de grande contemporaneidade e alegria. Conheço todos os caras, é tudo parte de um mesmo fenômeno. Às vezes, acho que há ali uma herança musical até maior do que na Inglaterra", afirma Payne.

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