TV Globo/Divulgação
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Regra não é regra

Inovação no folhetim pede sensibilidade e dispensa fórmulas prontas, defendem Carrasco e Linhares

Cristina Padiglione - O Estado de S. Paulo,

08 de dezembro de 2013 | 09h54

Regra número 1 para alcançar êxito em uma novela: não ter regras. Mal ou bem, escritores e diretores sabem há muito tempo o que pode afastar o público da frente da tela, mas as supostas receitas de sucesso dependem de tantos fatores externos, que é imponderável oferecer garantias de audiência. O que há em comum, por exemplo, entre O Cravo e a Rosa, atualmente reprisada pela terceira vez no Vale a Pena Ver de Novo, e a inédita Amor à Vida, na faixa nobre, além da boa audiência de ambas? São do mesmo autor, Walcyr Carrasco, para quem o ideal é dispensar fórmulas.

Ao lançar Félix (Mateus Solano) na fogueira que trouxe à tona a atrocidade cometida pelo vilão com a sobrinha recém-nascida na novela das 9, Carrasco atraiu a audiência para recordes no Ibope, mas queimou o que seria seu principal cartucho dois meses antes do fim da trama. "Eu já havia feito isso em Caras & Bocas e também, em Xica da Silva", disse ele ao Estado.

"Acho que o autor tem uma antena para captar o que está acontecendo, assim como todo criador. Mas, não vejo isso de maneira técnica, porque pessoalmente não me apoio em nada que se pareça com fórmulas", continua. Vale mais, para ele, "a sensibilidade dos autores, que também entram na velocidade do mundo em que vivem".

Autor do remake de Saramandaia, novela de Dias Gomes, de 1976 que teve o realismo fantástico recriado para o contexto de 2013, Ricardo Linhares concorda que receita não há. "Não existe fórmula nem receita", afirma. "Novela não é ciência exata. Só dá para saber o que vai pegar quando a novela está no ar." Defende que cada escritor tenha seu estilo, mas sem essa de "certo ou errado". "Uma novela pode ter um ritmo frenético e não cativar, outra trama pode ser mais lenta e cair nas graças do público."

Dar agilidade ao ritmo do folhetim foi estratégia que se mostrou acertiva em Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro. Mas esse foi apenas um dos fatores que fez a felicidade de um folhetim com direção igualmente sensível e um elenco raramente tão afinado. Afinal, quais são as demandas desse público hoje dividido entre tantas telas?

"Não sou estudioso de demandas de audiência para saber dar uma resposta", admite Carrasco. "Acho que a novela em essência continua a mesma, um triângulo amoroso, um bom vilão ou vilã. Ou seja, a essência da novela não mudou."

De modo geral, emenda Linhares, "tanto na TV quanto no cinema, vivemos uma fase de mais agilidade", o que não é obra da narrativa seriada, como gostariam os fãs de séries. "A vida hoje tem um ritmo frenético e a ficção reflete isso. Não há tempo a perder. A novela precisa dizer logo a que veio."

Regime. Linhares concorda com Manoel Carlos e Lauro César Muniz no que diz respeito à necessidade de se reduzir o número de capítulos. "Acredito que a tendência é a diminuição, como já acontece às 18 h e às 19h." Já a dificuldade de se reduzir a novela das 21 h esbarra na sua condição de refém do Ibope, explica. "São novelas mais longas e os capítulos são mais extensos. Mas é o produto que segura a audiência do horário nobre. A impressão que dá é que parte do público assiste à novela e depois vai se preparar para dormir. Os números caem após a exibição, os televisores são desligados, não há uma parcela substancial que migre para outras emissoras." Daí novelas e capítulos tão grandes.

A estratégia de espichar o capítulo da novela das 9 tem funcionado instantaneamente. Ninguém nega que hoje Amor à Vida carregue os melhores números da faixa nobre. "Mas, na minha opinião, a longo prazo, pode causar desgaste no gênero, desinteressando as novas gerações", arrisca Linhares.

"Tramas mais curtas, em número de capítulos e tempo de duração de cada capítulo, podem ter mais ritmo. E o espectador ganha em novidade, pois uma novela acaba mais rápido e estreia a seguinte, abordando outro universo temático."

MARCARAM ÉPOCA:

Beto Rockfeller (1968): As interpretações menos dramáticas e o protagonista anti-herói, vivido por Luis Gustavo, deram novo rumo à teledramaturgia.

Irmãos Coragem (1970): Inaugurou a ideia de novela a ter trilha e abertura planejadas. Escrita originalmente por Janete Clair, ganhou remake em 1995.

O Bem-Amado (1973): Primeira novela em cores na TV brasileira, teve como trunfo as críticas à ditadura militar por meio dos personagens.

O Rebu (1974): Assinada por Bráulio Pedroso, a novela policial ousou ao ter uma trama ambientada em apenas 24 horas e pelos flashbacks.

O Casarão (1976): Além das histórias que se passavam em três décadas diferentes, os atores tinham papéis em cada uma das épocas.

Espelho Mágico (1977): Chamou atenção pelo uso da metalinguagem. A trama de Lauro César Muniz mostrava os bastidores de uma peça teatral e de uma novela fictícia.

Pantanal (1990): Com imagens de uma paisagem pouco mostrada na TV, a novela tinha também tomadas sensuais da protagonista Juma (Cristiana Oliveira) cem cenas lentas.

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