REGRA Nº1: SER O MELHOR

Um ensaio do maestro inglês Frank Shipway à frente de jovens músicos mostra como artistas podem chegar aos seus limites

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h10

"Não, não, não." O maestro interrompe um grupo de músicos da orquestra; com as mãos, começa a desenhar no ar o andamento correto, mas desiste - e cruza os braços. "Não vou mais guiá-los, não desta vez. Eu insisto que vocês façam por contra própria, insisto!" O tom de voz é severo. "Pelo amor de Deus!", exclama, após mais uma tentativa equivocada. O olhar, penetrante, intimida. Mas a música volta a soar, desta vez no tempo correto. "Aplausos para eles", diz o maestro para o restante do grupo, antes de interromper o ensaio.

O britânico Frank Shipway trabalha com os músicos principiantes da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo no fim da tarde de quarta no auditório de uma escola na Aclimação, onde dois ventiladores mal dão conta do calor e um andaime no fundo do palco relembra a todo instante o caráter improvisado das instalações. Uma semana antes, poderia ser encontrado no palco da Sala São Paulo, gravando com a Osesp, para o selo sueco BIS, a Sinfonia Alpina de Richard Strauss. Nos dois casos, a cobrança parece ser a mesma. "E o que você queria?", ele pergunta durante a conversa com o Estado. "Não levaria a nada tratá-los como jovens. Eu os trato como profissionais. É uma forma de respeito."

Aos 77 anos, Shipway já foi diretor da Royal Philharmonic, de Londres, e como convidado regeu as principais orquestras europeias e norte-americanas. Comandou a Osesp pela primeira vez em 2005. Depois da demissão de John Neschling, chegou a ser cotado para assumir a orquestra. Prefere não falar do assunto - assim como evita comentários sobre o suposto desentendimento com o diretor artístico do grupo, Artur Nestrovski, que quase teria levado ao cancelamento da gravação do Strauss. Diz apenas que se sentiu "tocado" pelo profissionalismo da orquestra durante as sessões da semana passada. "Eu não poderia ter imaginado algo melhor." Os músicos, por sua vez, o adoram. Um deles diz que a Osesp, sob seu comando, "é uma outra orquestra". Mas Shipway evita qualquer comparação. "John Neschling tinha sua maneira de trabalhar e, após o tirarem de lá, é natural que as coisas mudem. Para mim, a Osesp continua a ser uma grande orquestra, capaz de criar sonoridades belíssimas. Cada novo maestro vai se concentrar naquilo que lhe interessa. Marin Alsop é uma senhora experiente e estou certo de que fará coisas interessantes. Será bom acompanhar seu trabalho."

Shipway volta a reger a Osesp no fim de maio. Antes, a convite do diretor do grupo, Cláudio Cruz, comandará a Sinfônica Jovem em concerto na noite de segunda, na Sala São Paulo. É a estreia da orquestra, reformulada após 21 anos sob direção de João Maurício Galindo. No programa, o prelúdio do terceiro ato de Lohengrin, de Wagner, a Inacabada de Schubert e a Sinfonia n.º 8 de Dvorak. "Eu trabalho sempre a partir do conceito de que a orquestra merece o melhor. É direito deles. E um dever também. Isso é como uma religião para mim. Já me disseram que sou elitista, e não como elogio. Parece que o termo ganhou ares pejorativos nos últimos tempos. Então, quando alguém me acusa de ser elitista, eu respondo: você está errado, não sou elitista. Sou superelitista. Quando subir ao palco, essa orquestra precisa aspirar a ser a melhor. Ela tem que ser a melhor. É para isso que estou aqui."

Liberdade. Depois do intervalo, maestro e músicos retomam o ensaio com a Sinfonia Inacabada de Schubert. Shipway não dá orientações prévias, apenas acena para que contrabaixos iniciem o primeiro movimento. Poucos compassos depois, os interrompe. "Sejam mais gentis, cantem com o instrumento, acariciem ele, mas não berrem: isto é Schubert, não Tchaikovski." Mais adiante, desce do pódio, pega a partitura de um dos violinistas, e a observa durante alguns instantes. "Sei que está escrito que vocês e as madeiras devem tocar ao mesmo tempo nessa passagem. Mas só vai funcionar se vocês tocarem um pouco atrasados. Sim, eu sei, parece não fazer sentido algum. Mas, acreditem, precisa ser assim. Não estou maluco."

Os músicos sorriem, o maestro se diverte - e a gente compreende o que fez a fama de Shipway como regente. Ao ensaiar, ele revela um profundo conhecimento da orquestra e da partitura, o que dá a ele e seus músicos maior liberdade, que se revela seja na flexibilidade nos andamentos, seja na maneira como faz as diferentes seções da orquestra dialogarem. "Você pode questionar algumas das interpretações de Herbert Von Karajan, mas jamais o fato de que ninguém sabia ensaiar melhor do que ele. Foi uma lição que aprendi ao acompanhar seus ensaios: é preciso entender como as coisas funcionam em uma orquestra."

A preocupação técnica, nesse sentido, seria secundária? Não exatamente, diz Shipway. Ela é fundamental, mas há outras maneiras de atingi-la. "O que eu busco é a música, o som. O que é a música se não a qualidade do som? E é isso o mais importante para mim. Pode ser que em certo momento haja um desencontro, uma confusão durante uma interpretação, mas se o som tem qualidade, os músicos podem ouvir uns aos outros e isso fará com que se acertem aos poucos."

No mais, diz Shipway, questões técnicas não são um problema sério nos dias de hoje. "O jovem de hoje toca muito melhor que o jovem de 50 anos atrás. Isso tem um lado positivo, claro. Mas tem também um negativo: você consegue tudo mais rapidamente. E isso me faz sentir saudades do passado, quando havia tempo para mergulhar na interpretação de uma peça e, consequentemente, ela nos dizia mais coisas."

É isso, explica, que o interessa em especial no trabalho com grupos jovens - o tempo, além, claro, "do entusiasmo, do desejo de superação". "Depois de 60 anos de carreira, está mais do que na hora de dar algo de volta. E é gratificante ver o rosto deles se iluminando quando você consegue mostrar algo novo. Sabe, também já fui jovem."

O Schubert continua a soar e, em certo momento, mais sombrio, o maestro sugere: "Meninas, pensem que vocês estão sozinhas, caminhando em meio à noite escura, e de repente aparece um homem misterioso, desconhecido." A orquestra, marota, assobia. O clima é quase de descontração. "Sério? Vocês estão assobiando? Não ficariam assustadas? Deus, vocês são um grupo de pessoas estranhas... De novo, vamos!" Shipway esboça um sorriso. E a sisudez, ainda que apenas por um breve instante, desaparece.

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