International Center of Photography/Divulgação
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Registros raros da guerra civil espanhola

Mostra comprova pioneirismo de Capa, Gerda e Chim no fotojornalismo de guerra

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Setenta e um anos depois de levados de Paris para serem protegidos durante a 2.ª Guerra e desaparecerem por décadas até serem redescobertos no México em meio a tranqueiras de um general, 126 rolos de filmes de 35 mm, com quase 4.500 negativos em nitrato de celulose que se preservaram da oxidação ou combustão, revelam, finalmente, um panorama completo dos três anos da Guerra Civil Espanhola registrado por Robert Capa, Gerda Taro e Chim (David Szymin), pioneiros da fotografia moderna de guerra. Desaparecidos desde 1939, embrulhados numa história misteriosa e agora convertidos em imagens impressas por processos de computação, eles são vistos em The Mexican Suitcase, exibida em Nova York pelo International Center of Photography (ICP) até 9 de janeiro, e também nas 592 páginas do catálogo em dois volumes editado para mostra.

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Se existiu uma suitcase (maleta), como diz o título desse trabalho de recuperação, ela sumiu. Os negativos que documentam o conflito precedendo os 36 anos da ditadura franquista na Espanha chegaram ao ICP em três pequenas caixas de papelão. Eles não são todos os filmes que os três fotógrafos fizeram durante aquela guerra. Mas, além de conter centenas de imagens que nunca haviam sido ampliadas, também representam três anos da vida de três jovens europeus, expatriados e engajados contra o fascismo, que marcaram a história do fotojornalismo. Gerda, namorada de Capa, foi a primeira fotógrafa morta na cobertura de guerra; unidos por ideais na profissão, Capa e Chim juntaram-se a Cartier-Bresson e George Rodger em 1947 para fundar a agência Magnum Photos e acabaram morrendo da mesma forma que Gerda morreu.

Todos judeus, com pouco mais de 20 anos, o húngaro Capa conheceu o polonês Chim e a alemã Gerda, em 1933, no círculo de artistas, filósofos e socialistas vindos de outros países da Europa para refugiar suas ideias e perfis étnicos em Paris. O primeiro a ir à Espanha foi Chim, alguns meses antes do início da guerra. Como correspondente enviado pela revista francesa Regards, sua pauta era cobrir a tensão naquele país depois das eleições ganhas por uma coalizão de esquerda.

Um pedaço de filme com seis chapas traz o negativo original de uma das imagens mais famosas que ele registrou nesse período, a de uma mulher amamentando sua criança numa reunião sobre reforma agrária em Estremadura. Usada por diversas publicações, a cena chegou a ser identificada erroneamente, numa montagem com fotos de aviões, como se tivesse ocorrido durante um bombardeio. Ainda daquela primeira cobertura, há retratos feitos por Chim até agora desconhecidos de personagens como Dolores Ibárruri, a Pasionaria, e de Federico García Lorca, pouco antes de o poeta sair de Madri e ser morto em Granada.

Em agosto de 1936, apenas algumas semanas depois do início da guerra, Chim estava de volta à Espanha pela Regards, enquanto Capa e Gerda chegavam lá para fazer a cobertura pela revista Vu. Como usava óculos e, por isso, teria mais problemas para trabalhar no meio de bombas e tiros, o polonês se concentrou em registrar histórias exclusivas, obtidas em missões secretas ao lado dos republicanos. Assim ele fotografou a ação dos dinamiteros, fábricas catalãs, pesqueiros bascos, e a proteção dada por monges católicos aos que lutavam contra os nacionalistas, mesmo que na maioria eles fossem ateus. Mas também acompanhou combates como o do cerco de Alcázar, perto de Toledo, onde soldados leais à República atiravam das barricadas protegendo-se do sol com sombrinhas.

Nas frentes de batalha, Capa e Gerda às vezes fotografaram lado a lado, como ao acompanharem os republicanos na escavação de trincheiras para defender Madri das tropas de Franco e, depois, as ruínas da capital atacada pelos nacionalistas em aviões cedidos pelos alemães. Essas reportagens eram publicadas com o crédito Capa et Taro mas, pelos negativos, agora se sabe que foto foi feita por quem. Juntos também cobriram a fracassada ofensiva dos republicanos na Passagem de Navacerrada, que Ernest Hemingway transformou no livro Por Quem os Sinos Dobram.

Imagens. Há três anos o ICP produziu a primeira retrospectiva do trabalho de Gerda. Imagens impressionantes que ela registrou no hospital e no necrotério de Valência depois de um bombardeio, vistas naquela exposição, reaparecem em The Mexican Suitcase em muito mais fotogramas e na sequência em que foram tiradas. Como Chim, Gerda também mostrou a vida paralela na Espanha dividida pela guerra, em cenas como a de camponeses de Valsequillo, no front de Córdoba, sendo ajudados por soldados republicanos na colheita de trigo.

Na sua última cobertura, em julho de 1937, ela acompanhou uma das batalhas mais sangrentas daquela guerra, em Brunete. Os negativos desse episódio são tremidos ou borrados, talvez por causa da intensidade da luta. Na foto de um menino vestindo uniforme grande demais para o seu tamanho, Gerda demonstrou quanto os republicanos precisavam de mais soldados. Na tentativa de recuperar o controle de Madri, 25 mil deles foram mortos. Gerda morreu lá, quando tentava escapar dos nacionalistas.

Capa seguiu cobrindo a guerra na Espanha até janeiro de 1939. Em diversas batalhas ele tinha Hemingway como companheiro e a mostra exibe várias fotos do escritor feitas por ele. Os dois, mais o repórter do New York Times Herbert Matthews, entraram em Teruel, entre Madri e Valência, com as primeiras forças legalistas que a retomaram dos nacionalistas sob uma tempestade de neve, em janeiro de 1937. Em novembro de 1938, Capa também estava entre os republicanos numa das últimas vitórias deles, a batalha do Rio Segre, em Aragón. Mas nove dias após, com o Exército liderado por Franco na ofensiva para conquistar a Catalunha, eles tiveram de abandonar a posição. Nas fotos dessa batalha, que compõem o maior e mais dramático ensaio fotográfico feito na Espanha, entre corpos abandonados, crianças feridas ou velhos carregando o que podiam e deixando a cidade em busca de refúgio, Capa levou os leitores a um front de guerra de maneira que ninguém tinha visto antes.

Ele voltou a Paris em 28 de janeiro de 1939, quando ficou evidente que o Exército nacionalista tomaria o poder na Espanha. Mesmo após passar a fronteira, continuou cobrindo resultados da guerra, acompanhando a situação dos cerca de 400 mil espanhóis que fugiram para o sul da França. Em campos de confinamento, Capa fotografou o fim daqueles republicanos sob tendas improvisadas e olhares assustados diante de soldados senegaleses contratados para vigiá-los como prisioneiros.

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