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Registros da revolução

Nova York exibe até janeiro a exposição em preto e branco Cuba in Revolution

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

Estampado na nota de três pesos cubanos e provavelmente a fotografia mais reproduzida no mundo, Guerrilheiro Heroico, o retrato que Alberto Korda tirou meio que por acaso de Che Guevara num enterro, em 1960, é um símbolo universal de revolução. Cuba in Revolution, que o International Center of Photography (ICP) exibe em Nova York até 9 de janeiro, amplia dezenas de vezes o cenário histórico daquela imagem. Com 180 fotos em preto e branco feitas por 30 fotógrafos, cubanos e estrangeiros, a exposição retraça o panorama político e social da ilha desde meados da década de 1940 até o final dos primeiros dez anos do regime instalado lá por Fidel Castro em 1959.

Em meio a imagens captadas por fotógrafos como Cartier-Bresson, René Burri, Burt Glinn e Elliot Erwitt, salienta-se a perspectiva de cubanos como Korda e outros menos ou não conhecidos. As dos estrangeiros mostram a visão deles em passagens por Cuba para fazer suas reportagens, publicadas mundo afora; as dos locais testemunham o cotidiano de seus autores e muitas são vistas em público pela primeira vez.

A Cuba antes de Fidel Castro escorraçar Fulgêncio Batista no Ano-Novo de 1959 ressurge no contraste das fotos de Constantino Arias que abrem a exposição, montada em ordem cronológica. Nos anos 40, Arias ganhava a vida fotografando a elite de Havana e turistas ricos em férias na capital. Chegou a ter um pequeno laboratório num dos quartos do Hotel Nacional e dali fotografou a miséria de uma favela que crescia num terreno vizinho. Nos anos 50, ele se tornou membro do Partido Ortodoxo e do Movimento 26 de Julho, organizado por Fidel. Ao mesmo tempo em que cobria festas como a da etapa cubana do Miss Universo 1955, fotografava mendigos à mingua e protestos estudantis nas ruas de Havana. Numa foto dele, meio século antes de suceder o irmão na presidência do país, Raúl Castro empunha a bandeira cubana ao lado de Armando Hart, que viria a ser ministro da Cultura entre 1976 e 1991.

O 26 de Julho lembrava o dia de 1953 em que Fidel comandou uma insurreição contra o quartel general de Moncada, em Santiago de Cuba. Recém-formado em Direito, o ainda inexperiente comandante foi capturado e condenado a 13 anos de prisão. Anistiado dois anos depois, ele aparece com oito companheiros saindo do presídio de Isla de Pinos, em foto feita por Tirso Martinez, numa das raras vezes em que é visto ainda usando terno e não numa farda, como passaria o resto da vida. Martinez acompanhou muitos outros momentos marcantes na carreira de Fidel. Estava em Fomento, na província de Las Villas, em 18 de dezembro de 1958, fotografando o líder revolucionário diante de soldados e oficiais do exército de Batista derrotados no caminho para a tomada do governo. E foi no jipe de Martinez que Fidel foi buscar reforços para rechaçar a invasão em Playa Girón (Baía dos Porcos, para os americanos), em abril de 1961; na volta, o fotógrafo o pegou em pleno ar, saltando de um tanque.

Escondidas. Na década de 1950, enquanto a imprensa internacional acompanhava viagens de Fidel do seu exílio no México a fim de levantar fundos para o 26 de Julho, cubanos anônimos fotografavam, às escondidas, corpos de opositores do governo executados e dispostos de forma a parecer que foram mortos em ação. É de um fotógrafo não identificado a foto do corpo de José Antonio Echeverría, presidente da Federação dos Estudantes Universitários, assassinado a tiros quando ia para a escola, em Havana.

Em 25 de novembro de 1956, Fidel e 81 companheiros do 26 de Julho (entre eles o médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, o Che) partiram do México para Cuba no Granma, iate americano de segunda mão feito para acomodar 12 pessoas. Ainda se passariam dois anos de guerrilha em Sierra Maestra e na região central do país até Batista fugir de Havana e os revolucionários tomarem a capital cubana. O período foi documentado por fotógrafos da Magnum, por freelances como o espanhol Enrique Meneses, o americano Lee Lockwood e o húngaro Andrew Saint-George, que ficaram acampados com os guerrilheiros, e também por oficiais do próprio Exército Rebelde, como o antropólogo Antonio Nuñez Jimenez, que depois seria diretor do Instituto Nacional de Reforma Agrária.

Brian Wallis, curador da exposição, observa como o Alto Comando Revolucionário soube usar, no início instintivamente, o potencial da imagem fotográfica para propagar sua ideologia. Certas fotos têm estética visual cuidadosamente construída, como Fidel rodeado por livros numa cabana em Sierra Maestra, Guevara sozinho a cavalo ou a silhueta de um guerrilheiro contra a luz do incêndio numa guarnição. Às vezes a sorte trazia resultados ainda melhores do que se pretendia. No primeiro pronunciamento televisado de Fidel para o povo cubano, na noite de 8 de janeiro de 1959, uma pomba branca pousou sobre seu ombro direito, o que muita gente tomou como um bom presságio.

Desafiadores. Apesar de admitidos tanto por Fidel como por Guevara, não há registros de fuzilamentos de partidários do antigo regime. Depois da euforia da vitória e de viagens diplomáticas aos Estados Unidos e países da América do Sul, os líderes cubanos começam a parecer mais desafiadores do que gloriosos nas fotografias. Com a nacionalização dos ativos americanos na ilha e o embargo econômico que os EUA lhe deram de troco, Fidel aproveita a assembleia das Nações Unidas, em setembro de 1960, para mostrar onde ia buscar o apoio de que precisava. O encontro dele com o primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev num hotel do Harlem, em Nova York, ganhou primeira página em todo o mundo.

Korda, então fotógrafo oficial do novo governo, registraria nos anos 60 várias visitas de Fidel à Rússia, onde o comandante tinha longas conversas com Khrushchev durante caçadas em florestas nevadas, aprendia a esquiar e até tirava fotos, ele mesmo, em reuniões com a família do seu principal aliado político. O perfil do novo regime vai se concretizando naquela década e ecoa nos retratos oficiais dos líderes, nos desfiles comemorativos, ou em cenas montadas para reinterpretar a vitória da guerrilha.

Em fotos de Lee Lockwood e José Figueroa, nota-se uma tênue contracultura na rebeldia de adolescentes com discos dos Beatles, que eram proibidos, e de apresentações clandestinas de um grupo de rock com o significativo nome de Los Pacíficos. Cuba in Revolution termina com "Despedidas na Rua 17, Havana", parte de uma série sobre exílio feita entre 1965 e 1967 por Figueroa, mostrando a própria família em reuniões na varanda da casa do fotógrafo. Em cada foto o número de pessoas é menor e, na última, há uma mulher sozinha acenando para um avião que decola rumo a Miami.

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