Regionalismo com olhos para o mundo

Fábulas de Newton Moreno nascem no chão nordestino e abarcam as relações sociais e familiares

O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 03h10

Foi em 2004 que o nome de Newton Moreno despontou no panteão da dramaturgia. O autor recifense, residente em São Paulo havia pelo menos uma década, lançava então aquele que seria o seu quarto texto: Agreste, dirigido por Marcio Aurélio, ganhou naquele ano os prêmios Shell e Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor texto. A peça tratava de um amor puro, esmagado pela intolerância. E já trazia em seu bojo os elementos que Moreno iria desdobrar em seus sucessos seguintes: As Centenárias, Assombrações do Recife Velho, Memória da Cana e a atual Maria do Caritó, que estreou no Rio em 2010 e chega agora a São Paulo.

Em todos eles, as raízes nordestinas do autor não surgem apenas para delinear um pano de fundo. São antes o chão de onde brotam essas histórias. A lente pela qual Moreno vê o mundo. Lá estão a cultura popular, o autoritarismo que molda todas as relações sociais, inclusive (ou sobretudo) as familiares, um forte lastro de religiosidade.

Em As Centenárias, Marieta Severo e Andrea Beltrão deram vida a duas carpideiras. Mulheres que realizavam o seu afeto materno chorando e velando os mortos alheios. Com Memória da Cana tomou posse da obra de Nelson Rodrigues e transportou a sua trama de amores, incestos e assassinatos para dentro do canavial. Esteve sempre a rondar os mortos, os devotos, os santos.

Até onde se sabe, sua próxima obra também não deve fugir a essa toada. Terra de Santo, que tem estreia prometida para outubro, nasce sob a sombra da mesma árvore. "Terra de Santo nasceu de Memória da Cana. Assim como Memória é um desdobramento de Assombrações", considera Moreno.

Na futura peça, a insinuada aproximação com o sagrado se aprofunda. Parte-se da forte influência deixada pela obra de Gilberto Freyre junto ao criador e ao seu grupo, a Cia. Os Fofos Encenam. Ronda-se a infinidade de festas e rituais de fé que moldam a identidade do povo brasileiro. "Esse caldeirão de etnias que é o Brasil é também uma fusão de crenças", observa ele.

Outro traço que atravessa a dramaturgia de Moreno, não importa qual seja o tema, é o colorido de sua linguagem, a meio caminho entre o arcaico e o urbano. A gravitar entre o ancestral e o comezinho.

Cada uma de suas fábulas foi erguida em prosa densa. Uma escrita clara, sempre a serviço da história a ser contada no palco, mas ainda assim de rara qualidade poética. Convocada não raro para detratar os ficcionistas nacionais, a pecha de regionalista pode ser aqui usada como sinal de distinção. Regionalismo, sim. Mas de olhos abertos para o mundo./ M.E.M.

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