Jose Patricio/Estadão
Jose Patricio/Estadão

Regina Duarte vive nova fase em peça de suspense

Atriz interpreta mãe afetuosa e maquiavélica no espetáculo 'Bem-Vindo, Estranho'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2013 | 22h32

É melhor não falar muito sobre a trama de Bem-Vindo, Estranho, peça que estreia nesta sexta, 18, no Teatro Vivo. De uma forma geral, trata-se da história de Jaki e sua filha Elaine, que vivem sempre se estranhando em seu claustrofóbico apartamento em Londres. A situação piora quando Joseph, namorado de Elaine, vai morar com as duas, formando um triângulo amoroso que terminará em tragédia.

O que se pode afirmar com convicção é que a peça escrita por Angela Clerkin consolida uma nova fase na carreira de Regina Duarte – no papel de Jaki, que alterna momentos de carinho com egoísmo extremado, a atriz de 66 anos não apresenta mais vestígios da Namoradinha do Brasil (alcunha conquistada com o sucesso da novela Minha Doce Namorada, de 1971), tampouco da divorciada e independente que retratou a mudança de costumes no seriado Malu Mulher, de 1979. “Agora, já me sinto liberada para brincar, sem julgamentos”, disse ela ao Estado, convencida de que provavelmente vai surpreender quem se acostumou a vê-la sempre no mesmo papel – mas ciente de que fez a escolha certa.

O momento é de enfrentar novos desafios. Situação muito diferente dos três anos em que ficou longe da telinha, quando Regina descobriu-se sem espaço na televisão. “Passei minha vida toda na vitrine e, de repente, estava fora, nenhum diretor me chamava”, relembra. “Aquilo me incomodou mas, ao invés de me desesperar, passei a me ocupar com outras tarefas como ler, cuidar dos netos.”

Regina se refere ao ocaso iniciado depois de ter vivido Waldete Maria, mulher despachada e sem papas na língua na novela 3 Irmãs, em 2008. Fase em que ficou afastada das artes. A volta começou a se ensaiar em 2011, quando participou de um dos episódios da série As Cariocas. “Fiz um papel bem diferente do que o público estava acostumado a ver. Acredito que foi isso que despertou a atenção do (diretor) Roberto Talma, que me convidou para interpretar Clô Ayala, em O Astro.”

Ali, Regina preparou o terreno para a volta triunfal, vivendo uma mulher descompensada, que reagia de forma impulsa e escandalosa às desventuras que sofria. “Clô era uma mulher rica, mas sem vontade própria, manipulada pelo marido. Tudo muda quando o filho é internado pelo pai em um manicômio: aí, ela se liberta de forma explosiva”, conta.

O papel chamou a atenção da crítica para uma nova Regina Duarte. Também mostrou que a atriz estava aberta para novos desafios – jovem ator e autor, Rafael Primot também trabalhou em O Astro e acompanhou interessado a atuação de Regina. Ao vê-la, decidiu criar coragem e convidá-la para participar do longa Gata Velha Ainda Mia, em que a atriz viveria uma escritora decadente e envelhecida fisicamente. Regina leu o roteiro e, apesar da promessa de viver uma mulher feia e fracassada, topou a parada.

E, como um elo que forma uma cadeia produtiva, Primot foi consultado pelo ator Kiko Bertholini sobre a possibilidade de a atriz protagonizar uma peça que lhe reservaria o papel de uma paranoica. Ciente da disposição de Regina para novos desafios, Primot aconselhou o amigo a fazer o convite. “Li o texto em um dia e, já no outro, corri para aceitar, com medo de que eles oferecessem para outra atriz”, conta ela, referindo-se a Bem-Vindo, Estranho.

Assim, ela iniciou uma rápida e intensa criação de Jaki, mulher que vive em constante tensão com a filha, a advogada Elaine (Mariana Loureiro), agravada pela chegada de Joseph (Bertholini), que foi absolvido por Elaine da acusação de assassinato. “Minha opção foi criar um filme noir no palco”, conta o diretor Murilo Pasta, que, depois de experiência no cinema e na TV da Inglaterra, estreia como encenador de palco. “A luz, a trilha sonora especialmente composta, o uso do cigarro, tudo contribui para alimentar esse clima de suspense.”

Regina preparou-se com cuidado. “Li sobre casos patológicos, descobri como funciona a psicose. Também busquei inspirações em ficções como De Bar em Bar (livro de Judith Rossner sobre o declínio autodestrutivo de uma jovem professora) e reportagens sobre crime como A Sangue Frio, de Truman Capote”, conta. “Vivo agora uma fase maravilhosa.”

No cinema, atriz vive o papel de escritora ressentida

O filme foi exibido como hors-concours no Festival do Rio, no final de setembro, e foi um arraso – Gata Velha Ainda Mia fez sucesso e exibiu para o público cinematográfico a nova fase da carreira de Regina Duarte.

Com a direção de Rafael Primot, ela vive Gloria Polk, escritora decadente e amarga que resolve conceder uma entrevista para Carol (Bárbara Paz), jovem repórter que vive no mesmo edifício. A pauta é falar sobre sua volta à literatura depois de um longo período de jejum. Logo, descobre-se que Carol namora o ex-marido de Gloria. O encontro, portanto, desperta na autora uma necessidade de desabafo, traduzida em reclamações sobre ter ficado velha e de como seu feminismo caducou e aumentou o ressentimento pela solidão.

“Rafael quis me deixar o mais velha possível”, diverte-se Regina. “Tenho umas pequenas manchas no rosto e ele não deixou que eu cobrisse com maquiagem: queria que eu exibisse a cara lavada.”

Produzido com um baixo orçamento (apenas R$ 150 mil), o filme foi rodado em apenas uma semana. “Ensaiamos durante um mês para economizar tempo na locação”, conta a atriz, que se destaca em monólogos verborrágicos. O longa ainda não tem data de estreia.

BEM-VINDO, ESTRANHO

Teatro Vivo. Av. Dr. Chucri Zaidan, 860, Morumbi,tel.: 97420-1520. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18h. R$ 50/ R$ 60. Até 15/12.

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