Gabriela Biló/ Estadão
Regina Duarte diz sim a Bolsonaro e aceita chefiar a Secretaria Especial de Cultura. Gabriela Biló/ Estadão

Regina Duarte diz sim a Bolsonaro e é a nova secretária especial da Cultura

Aos 72 anos, a atriz substitui Roberto Alvim na Secretaria Especial da Cultura; Alvim foi demitido após usar trechos de discurso nazista em vídeo em que anunciava projeto do governo

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

29 de janeiro de 2020 | 17h58

BRASÍLIA - A atriz Regina Duarte disse o esperado "sim" para o presidente Jair Bolsonaro nesta quarta-feira, 29, e aceitou assumir a Secretaria Especial da Cultura. Ela se reuniu com o presidente no Palácio do Planalto à tarde.

O anúncio do "sim" ao presidente foi feito pela própria Regina, a jornalistas, após o encontro. O Estado antecipou que ela havia aceitado o convite.

"Sim, mas agora vão ocorrer os proclamas antes do casamento", disse Regina ao ser questionada se aceitou assumir a secretaria. O edital de Proclamas é um documento que o cartório emite quando os noivos dão entrada no casamento civil.

Pouco antes, ao chegar ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro também mencionou o trâmite para falar sobre a situação de Regina, que desde o convite falava que estava em fase de "noivado" com o presidente.

"Estamos na fase do proclamas", disse Bolsonaro no fim da tarde, ao chegar à residência oficial. “Está tudo certo, está caminhando. Ela está acertando as questões pessoais dela”, afirmou. Após se reunir com o presidente, Regina foi à Secretaria-Geral da Presidência para se informar sobre as formalidades para assumir o cargo público.

Regina Duarte vai ocupar a vaga de Roberto Alvim, demitido após divulgar um vídeo em que fazia referências ao nazismo. Ela será a quarta secretária da área no governo de Bolsonaro.



Além de Bolsonaro, participaram do encontro o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, a quem a secretaria da Cultura está subordinada, e o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Em nota, Álvaro Antônio comemorou o "sim" da atriz ao convite do governo.

“Trata-se de um reforço do mais alto nível para compor o time do governo federal. Turismo e Cultura são atividades com uma forte sinergia que mostram ao mundo o que o Brasil tem de melhor, além de terem um alto potencial de geração de emprego e renda em nosso país e é sob essa perspectiva que trabalharemos fortemente e tendo essa importante parceira em nossa equipe. Tenho certeza que ela será bem sucedida nesse novo desafio e que teremos excelentes resultados”, afirma, em nota, o ministro do Turismo.

Na terça-feira, 28, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que Regina terá liberdade para fazer as mudanças que quiser ao assumir a Secretaria Especial.

"Para mim seria excepcional; para ela, ela tem a oportunidade de mostrar realmente como é fazer cultura no Brasil. Ela tem experiência em tudo que vai fazer. Precisa de gente com gestão ao seu lado, tem cargo para isso, vai poder trocar quem ela quiser lá, sem problema nenhum. Então, tem tudo para dar certo a Regina Duarte", disse Bolsonaro. 

Para Entender

As idas e vindas da Cultura no governo Bolsonaro

Ministério foi extinto em janeiro para criação da Secretaria Especial de Cultura, que foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, depois, ao do Turismo; trocas nas lideranças dos órgãos geraram críticas ao governo

Nascida em Franca, no interior de São Paulo, em 5 de fevereiro de 1947, filha de um tenente reformado do Exército e de uma dona de casa, Regina Duarte se tornou um dos principais nomes da televisão brasileira.

Dona de uma carreira de mais de 50 anos, ela já esteve dos dois lados da política. Em 1975, quando a novela Roque Santeiro foi censurada pela ditadura militar às vésperas da estreia, a atriz, que não estava no elenco mas já era a "namoradinha do Brasil", foi a Brasília para protestar. Na versão de 1985, ela foi a Viúva Porcina. Em 2002, ao apoiar a campanha de José Serra à Presidência, disse a frase que viraria famosa: "Eu tenho medo". Seu medo era de que Lula ganhasse as eleições. 

Em 2018, ela se manifestou publicamente a favor da candidatura de Jair Bolsonaro em uma entrevista ao Estado. Segundo a atriz, Bolsonaro tem “humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada”. A última novela em que Regina atuou foi Tempo de Amar (2017), escrita por Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago./ COLABORARAM: JULIA LINDNER E EMILY BEHNKE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Sete desafios para Regina Duarte

O que a secretária de Cultura terá pela frente e o que pode fazer para destravar a pasta, ganhar apoio da sociedade e dar relevância a uma das secretarias mais turbulentas de Jair Bolsonaro

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 18h01

A atriz Regina Duarte tem uma das equações mais difíceis de se fechar no atual momento do governo de Jair Bolsonaro. Aqui vão sete pontos que poderiam ajudá-la a ganhar credibilidade em um meio machucado por ataques mútuos e voltar a dar relevância ao setor  

1. Nomear uma equipe nova, sem alinhamentos ideológicos ou indicados do antecessor Roberto Alvim. O rompimento denotará reprovação às práticas de um secretário que se inspirou no discurso de um publicitário nazista, Joseph Goebbels, e pode trazer aliados e renovar a esperança junto à opinião pública.

2. Acalmar os ânimos da classe artística e convencê-la de que suas propostas não serão necessariamente alinhadas aos valores pessoais do presidente Jair Bolsonaro, rompido com o setor.

3. Acalmar os ânimos do presidente com relação às políticas culturais convencendo-o de que é preciso ser maleável e incluir setores como o LGBT nos programas.

4. Avançar com os processos paralisados da Lei de Incentivo à Cultura, antiga Lei Rouanet, e anunciar publicamente os projetos que serão realizados a partir do próximo semestre. É preciso comunicar os avanços, por menores que sejam, de uma pasta paralisada há mais de um ano.

5. Avaliar cada área e levantar os projetos que valem a pena ser feitos e os que podem ser incluídos em um planejamento de três anos. Abrir rodadas de discussões pragmáticas com comissões de cada setor para que se entenda as demandas diferentes.

6. Além de irrigar a sociedade com canais de cultura propriamente dita – com espetáculos de música, teatro, dança, cinema, gastronomia...– entender a dimensão econômica que ela já provou ter. Uma região, como um bairro ou uma pequena cidade, pode ser eleita para receber um projeto piloto. Ela seria monitorada por um período para se verificar os índices de violência, desemprego e outros impactos sociais antes e depois da implementação dos projetos.

7. Se a orientação de Bolsonaro for seguir com a política de prêmios, como o Nacional de Cultura, oferecendo dinheiro direto da pasta para artistas em vez de viabilizar mecanismos de incentivo do mercado, essa estrutura de curadoria deve ser cuidadosa e transparente. Afinal, quem vai escolher os projetos vencedores? Haverá restrições?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Conheça a trajetória de Regina Duarte

Contratada da TV Globo desde 1969 e colega de Rita Lee na juventude, atriz participou de várias novelas de sucesso

Redação, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2020 | 15h23

Nascida em Franca em 5 de fevereiro de 1947, filha de um tenente reformado do Exército e de uma dona de casa, Regina Blois Duarte começou a carreira televisiva na extinta TV Excelsior. Colega de Rita Lee na faculdade de comunicação da USP, seu primeiro papel em novelas foi em A Deusa Vencida (1965), de Ivani Ribeiro. Ela ganhou destaque na trama interpretando Malu, que é apaixonada pelo personagem de Tarcísio Meira. Quatro anos depois, foi para a TV Globo ser protagonista da novela Véu de Noiva, escrita por Janete Clair.

 

 

A atriz participou de tramas que marcaram a história da emissora, como Selva de Pedra (1972) e Carinhoso (1973). Após participar de Minha Doce Namorada (1971), ganhou o apelido de "Namoradinha do Brasil". Uma das novelas em que atuaria, Despedida de Casado (1977), escrita por Walter George Durst, foi proibida pela Censura e jamais foi ao ar. Em 1971, ela se mostrou como cantora, gravando um compacto (disco de 4 músicas) com temas de novela.

Em 1979, Regina atuou em Malu Mulher. O seriado criado por Daniel Filho marcou época ao mostrar uma mulher que se divorcia do marido e busca independência financeira para criar a filha. 

Após uma breve passagem pela Rede Manchete, onde atuou no seriado Joana, Regina voltou à Globo para fazer um de seus papéis mais icônicos: a extravagante Viúva Porcina de Roque Santeiro (1985), novela que havia sido proibida pela Censura em 1975.  Outra personagem que marcou época foi Raquel Accioli, de Vale Tudo (1988), que vende sanduíches na praia enquanto sua filha e arquirrival, a vilã Maria de Fátima (Glória Pires), investe em um casamento arranjado.

Nas últimas décadas, Regina atuou em várias novelas de Manoel Carlos. A mais marcante delas foi Por Amor (1997), em que atuou ao lado da filha Gabriela Duarte. Mãe e filha interpretaram, respectivamente, Helena e Maria Eduarda. Uma troca de bebês no fim da trama comoveu o Brasil e garantiu boa audiência.

A última novela em que Regina atuou foi Tempo de Amar (2017), escrita por Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago.

Política. Na campanha presidencial de 2002, Regina apoiou o candidato José Serra (PSDB). Em um depoimento para o horário eleitoral de Serra, ela disse ter medo do que Lula, que estava na disputa, poderia fazer com o Brasil caso fosse vitorioso. Em 2018, ela se manifestou publicamente a favor da candidatura de Jair Bolsonaro em uma entrevista ao Estado. Segundo ela, Bolsonaro tem “humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Entenda quem entrou e quem já saiu das principais instituições federais na área de Cultura

Entre convites, demissões e transferências, fique por dentro da dança das cadeiras da Cultura do governo Bolsonaro, que tem agora Regina Duarte na chefia da pasta

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

29 de janeiro de 2020 | 17h59

O presidente Jair Bolsonaro tomou posse no dia 1.º de janeiro de 2019, e seu primeiro ano de governo foi marcado por muitas idas e vindas na área de Cultura - a começar pela extinção do Ministério da Cultura e a incorporação da pasta primeiro pelo Ministério da Cidadania e depois pelo do Turismo e passando pelo anúncio da transferência ‘contra ativismo’ da Ancine para Brasília.

Veja a seguir quem já passou, mesmo que brevemente, ou com mais ou menos polêmica, pela Secretaria Especial da Cultura e pelas principais instituições do governo, como Ancine, Fundação Biblioteca NacionalFunarte, Fundação Palmares, Fundação Casa de Rui Barbosa e Iphan.

 

Secretaria Especial de Cultura

O Ministério da Cultura foi extinto pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 28 de novembro de 2018. A área foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, um ano depois, em 7 de novembro de 2019, a Secretaria Especial de Cultura passou a integrar o Ministério do Turismo.

José Henrique Pires, o primeiro secretário quando a Cultura ainda estava no Ministério da Cidadania, foi demitido do cargo no dia 21 de agosto de 2019. José Paulo Soares Martins, secretário-adjunto e secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, assumiu - pouco depois, com a nomeação, em 4 de setembro, do economista Ricardo Braga, ele deixou o cargo. Braga foi exonerado no dia 6 de novembro para ir para a Educação e Roberto Alvim virou o novo secretário especial da Cultura. Depois de usar trechos de discurso nazista em um vídeo em que apresentava o que seria a nova cultura brasileira, ele foi demitido em 17 de janeiro. O nome da atriz Regina Duarte, que apoiou a campanha de Jair Bolsonaro à presidência, surgiu mais uma vez. Regina Duarte disse sim a Bolsonaro na tarde de quarta-feira, 29, e se tornou a quarta secretária especial da Cultura de seu governo.

 

Ancine

Ameaçada de extinção desde julho, e com sua transferência do Rio para Brasília já anunciada para evitar ‘ativismo’, a Ancine, que se viu envolvida em caso de censura a filmes LGBT, teve seu diretor-presidente Christian de Castro Oliveira afastado em 30 de agosto de 2019 em cumprimento de uma decisão judicial da 5.ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. A Justiça aceitou argumentos do Ministério Público Federal de que Castro e outras duas pessoas entraram no sistema da Ancine em 2017 e enviaram informações sigilosas a um sócio dele. Alex Braga Muniz ocupa o posto interinamente desde a saída de Castro. Nesse período, o colunista social e pastor Edilásio Barra foi convidado a assumir diretoria da Ancine responsável pelo Fundo Setorial do Audiovisual. Ainda nessa área, o ex-secretário municipal de Cultura André Sturm assumiu a chefia da Secretaria do Audiovisual no lugar de Katiane Gouvêa, exonerada no dia 11 de dezembro. Antes de assumir o cargo, Katiane assinou um documento que incentivava a extinção da Ancine. Sua exoneração teria sido por irregularidades em sua campanha a deputada federal.

 

Fundação Biblioteca Nacional

Funcionária de carreira da Fundação Biblioteca Nacional, Helena Severo, presidente da instituição desde agosto de 2016, depois de ter passado pela secretaria de Cultura do município e do estado do Rio, pela Fundação Theatro Municipal e Tribunal de Contas do Município, colocou o cargo à disposição no dia 29 de novembro de 2019. No dia 2 de dezembro, o então secretário especial de Cultura Roberto Alvim nomeou Rafael Nogueira como novo presidente da Biblioteca Nacional. Monarquista e olavista, Nogueira é formado em Direito e Filosofia, mas não tem mestrado - uma exigência do cargo. Em entrevista ao Estado, disse que foi escolhido por seu diálogo com os jovens e pelo “amor à pátria”.

 

Fundação Casa de Rui Barbosa

Importante centro de pesquisa brasileiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa passou a ser presidida em outubro de 2019 pela jornalista e roteirista de TV Letícia Dornelles. Ela, que não tem a formação acadêmica exigida e nem é especialista em estudos ruianos, assumiu o cargo no lugar de Lucia Maria Velloso de Oliveira, que ocupava o posto interinamente desde o afastamento, em 2018, por questões pessoais, de Marta de Senna. Menos de dois meses depois, Letícia dispensou a crítica literária Flora Süssekind, a jornalista Joelle Rouchou e o sociólogo José Almino de Alencar e Silva Neto da função de chefe do Centro de Pesquisa em Filologia, História e Ruiano, respectivamente. E exonerou Antonio Herculano Lopes, até então diretor do Centro de Pesquisa, e Charles Gomes, chefe do Centro de Pesquisa em Direito. Os dois tinham cargo em comissão. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União de 7 de janeiro e gerou uma forte reação da comunidade acadêmica nacional e internacional, além de protestos.

 

Funarte

A Funarte, berço da articulação política de Roberto Alvim, que era diretor do Centro de Artes Cênicas da instituição, foi presidida pelo pianista, ex-secretário de Cultura do Rio de Janeiro e diretor da sala Cecília Meireles Miguel Angelo Oronoz Proença entre fevereiro e novembro de 2019. Sua demissão foi atribuída ao fato de ter defendido publicamente a atriz Fernanda Montenegro, alvo de ataque de Alvim, que já começava a pavimentar seu caminho para Brasília. Antes de Proença, entre 2016 e 2019, o ator Stepan Nercessian esteve à frente da instituição. Depois do pianista, quem assumiu foi o maestro Dante Mantovani, de 35 anos, para quem “o rock induz às drogas, ao aborto e ao satanismo”. Em entrevista ao Estado, ele defendeu a lei Rouanet e disse que Bolsonaro valoriza a arte 'como nunca antes no País'. Dias depois, lançou um edital de incentivo a bandas que vetava a participação de grupos de rock, o que lhe rendeu novas críticas.

 

Iphan

Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2016, Kátia Bogéa foi exonerada no dia 11 de dezembro de 2019. Durou 24 horas a nomeação da arquiteta Luciana Feres, de perfil técnico, para o cargo. Ela foi escolhida pelo ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG) e derrubada pelo então secretário Roberto Alvim. Flavio de Paula Moura, formado em Arquitetura em 2011, foi especulado como um possível nome, mas até agora não foi anunciado quem será o novo presidente do órgão e Robson Antônio de Almeida segue como presidente substituto.

 

Fundação Palmares

Nomeado no dia 27 de novembro de 2019 para o cargo de presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo foi uma das escolhas mais polêmicas do governo Bolsonaro para a Cultura. Ele disse que o Brasil tem “racismo Nutella”, que a “escravidão foi benéfica para os descendentes e atacou a vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio. Sua nomeação foi suspensa em 11 de janeiro em “cumprimento à decisão proferida pelo Juízo da 18ª Vara Federal da Seção Judiciária do Ceará no âmbito da Ação Popular nº 0802019-41.2019.4.05.8103/CE”. De acordo com o magistrado Emanuel José Matias Guerra, a nomeação ‘contraria frontalmente os motivos determinantes para a criação’ da Fundação Palmares e põe a instituição ‘em sério risco’, visto que a gestão pode entrar em  ‘rota de colisão com os princípios constitucional da equidade, da valorização do negro e da proteção da cultura afro-brasileira’. No dia seguinte à suspensão da nomeação, Bolsonaro prometeu reconduzir Camargo ao cargo. Sionei Leão é o presidente substituto.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Regina Duarte se destacou nos últimos anos por manifestações pontuais, mas marcantes, na política

Alinhada à direita, a 'namoradinha do Brasil', como também ficou conhecida, recebeu de Bolsonaro o convite para cuidar da área cultural do País

DANIEL FERNANDES, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2020 | 12h00

Atriz marcada por personagens inesquecíveis da teledramaturgia brasileira, como a Raquel de Vale Tudo e a Viúva Porcina de Roque Santeiro, e sem atuar desde 2017, Regina Duarte se notabilizou nos últimos anos por manifestações pontuais, mas marcantes, na política nacional.

A secretária de Cultura em teste do governo Jair Bolsonaro ganhou notoriedade no debate político durante a campanha que elegeria Luiz Inácio Lula da Silva pela primeira vez, em 2002. A atriz gravou um vídeo em que admitia ter medo de um governo petista por temer a perda de estabilidade conquistada pelos governos tucanos. Lula venceria aquela eleição ao acenar, justamente, para aqueles que tinham medo. 

Mais recentemente, já com Lula preso, em 2018, a atriz voltou à cena em outra corrida presidencial ao afirmar que a “homofobia de Bolsonaro é da boca para fora”

 

Alinhada à direita, a “namoradinha do Brasil”, como também ficou conhecida, recebeu justamente de Bolsonaro o convite para cuidar da área cultural do País. Demonstrando uma habilidade política incomum para artistas, saiu-se com essa: vai testar Brasília e ver se o noivado com o poder engata um casamento duradouro.

Essa habilidade inicial será colocada à prova já nos primeiros dias, pelo menos a julgar pelos pedidos da classe artística. Se não há com Regina Duarte o medo despertado pelos atos e posturas do ex-secretário Roberto Alvim, existe a desconfiança, o pé atrás. Nelson Motta foi quem deu o tom: “Duvido que Bolsonaro lhe dê autonomia. Mas... vai que dá?”

 

Para Entender

Conheça a trajetória de Regina Duarte, nova secretária de Cultura

Contratada da TV Globo desde 1969 e colega de Rita Lee na juventude, atriz participou de várias novelas de sucesso

 

Com o virtual sim desta segunda-feira, a trajetória de 50 anos de Regina na TV Globo chegará ao fim– a emissora avisou que seu contrato será suspenso em caso de ida para o governo. Colega de Rita Lee na faculdade de Comunicação da USP, seu primeiro papel em novelas foi em A Deusa Vencida (1965), de Ivani Ribeiro, na extinta TV Excelsior. Depois, foi para a TV Globo ser protagonista da novela Véu de Noiva, escrita por Janete Clair. Em 1979, ganharia protagonismo nacional com Malu Mulher, uma série em que vivia uma mulher que acabara de se divorciar e, por isso, enfrentava os preconceitos da época.

Em 1985, fez um de seus papéis mais icônicos: a extravagante Viúva Porcina de Roque Santeiro. A novela fora proibida pela censura dez anos antes. Betty Faria, escalada para ser Porcina em 1975, não quis mais. Regina aceitou, e o papel lhe marcou a vida. O desafio agora parece substancialmente maior. Mas... vai que dá? 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Na cultura, Regina Duarte enfrentará orçamento reduzido e colapso na Ancine

Uma radiografia na pasta feita por atuais e ex-integrantes da secretaria aponta que uma das piores situações está na Ancine; Estudo interno da agência, obtido pelo 'Estado', afirma que unidades de fomento estão operando 'em estado crítico'

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2020 | 20h00

BRASÍLIA - Se aceitar o comando da Secretaria Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro, a atriz Regina Duarte enfrentará orçamentos reduzidos e um cenário que beira o colapso em alguns dos órgãos que ficarão sob o seu guarda-chuva. Uma radiografia na pasta feita por atuais e ex-integrantes da secretaria aponta que uma das piores situações está na Agência Nacional do Cinema (Ancine). Estudo interno da agência, obtido pelo Estado, afirma que as unidades de fomento estão operando “em estado crítico”.

 

 

No documento, enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU), o órgão argumenta que teria de contratar mais 184 servidores e reduzir drasticamente os recursos liberados, distribuindo 10% do fomento indireto (via Lei Rouanet e outros incentivos fiscais) e 20% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) em relação ao patamar atual. Estas medidas seriam necessárias para equilibrar em quatro anos a avaliação de novos processos de financiamento que chegam à Ancine e vencer uma fila superior a 4 mil análises de obras que já receberam recursos. O documento é de meados de 2019, mas segundo o Estado apurou, o cenário pouco se alterou desde então.

A dificuldade operacional da Ancine ainda faz com que o número de deliberações de processo por ano caia, mas a fila de análises pendentes cresça. Em 2017 havia 1816 casos a serem analisados -- e apenas 232 concluídos. Já em 2019, a fila subiu para 4164, mas apenas 23 processos foram conferidos pelos servidores.  Na cúpula do órgão, metade das quatro cadeiras de diretores está ocupada, sendo que um dos nomes é substituto. O presidente da agência, Alex Braga Muniz, também ocupa o cargo interinamente desde que Christian de Castro Oliveira foi afastado pela Justiça.

Para Henrique Pires, o primeiro secretário de Cultura no governo Bolsonaro, uma das primeiras medidas do novo chefe da pasta deve ser reestruturar a agência. 

"A estrutura da cultura, quando funciona, tem impacto econômico muito grande. Se trava, as pessoas não têm atividade econômica. É preciso calibrar a máquina", afirmou ex-secretário.

 

Orçamento reduzido

Os recursos reservados para a área de cultura no Orçamento deste ano também foram reduzidos. Serão R$ 320 milhões ao todo. Para fins de comparação, no Orçamento de 2019, elaborado quando a cultura ainda tinha status de ministério na estrutura do governo, o valor destinado foi de R$ 2 bilhões.

Apesar do aperto, a pasta trabalha para a liberação de R$ 438 milhões do Fundo Nacional da Cultura que estão contingenciados. A ideia é que os valores sejam usados para conseguir empréstimos com bancos, mas ainda exige que “seja criado um regramento e definido um ou mais agentes financeiros”, afirma a Secretaria Especial de Cultura.

Alguns órgãos, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), dependerão exclusivamente de emendas parlamentares para investimentos. O orçamento do órgão é 67% menor em 2020, de R$ 73 milhões, voltados para ações de preservação do patrimônio e obras, mas nada previsto para investimento.

O Estado apurou que a cúpula do instituto ainda está mapeando o que terá de ser revisto com orçamento mais baixo, mas já sabe que terá de interromper boa parte das cerca de 100 obras em andamento pelo País em prédios históricos e sítios arqueológicos.  Bolsonaro já indicou também que pode esvaziar as funções do Iphan pelo poder do órgão de embargar obras.

 

Para Entender

As idas e vindas da Cultura no governo Bolsonaro

Ministério foi extinto em janeiro para criação da Secretaria Especial de Cultura, que foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, depois, ao do Turismo; trocas nas lideranças dos órgãos geraram críticas ao governo

 

Na Fundação Cultural Palmares, a principal indefinição é sobre a escolha de novo presidente. Alvim tentou emplacar no cargo o jornalista Sérgio Camargo, mas a Justiça suspendeu a sua nomeação. Ele foi alvo de críticas ao afirmar, por exemplo, que existe um “racismo nutella” no Brasil e que não cortaria o apoio ao Dia da Consciência Negra.

Outra situação delicada está na Fundação Casa de Rui Barbosa. Pesquisadores têm protestado por exonerações e dispensas anunciadas pela presidente do órgão, a jornalista e roteirista de TV Letícia Dornelles. Ela nega o “desmonte do setor de pesquisa” e diz ainda que “quem espalha esse tipo de futrica só quer tumultuar”. Além da disputa de poder, a sede da fundação tem problemas estruturais com dutos de água e esgoto que podem estourar – o órgão chegou a entrar na Justiça para pedir o conserto.

Na Fundação Biblioteca Nacional, o acervo enfrenta a falta de investimentos de atualização e preservação. A fundação é presidida por Rafael Nogueira, escolhido por Alvim, olavista e simpatizante da monarquia.Recentemente, a casa passou por uma reforma orçada em R$ 10 milhões, valor inferior ao de muitos livros guardados em suas estantes de aço e jacarandá.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Regina Duarte atacou STF e defendeu nome com 'experiência em gestão pública' para a Cultura

Convidada por Bolsonaro para assumir a Secretaria Especial, atriz criticou a indicação de Roberto Alvim em 2019

Rafael Moraes Moura, Julia Lindner, O Estado de S. Paulo

18 de janeiro de 2020 | 10h40

BRASÍLIA – Convidada pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir a Secretaria Especial de Cultura, a atriz Regina Duarte criticou no ano passado a indicação do dramaturgo Roberto Alvim para o posto.  "Quem me conhece sabe que, se eu pudesse opinar, teria sugerido outro perfil. Alguém com mais experiência em gestão pública e mais agregadora da classe artística", publicou a artista em seu perfil pessoal no Instagram, em novembro do ano passado.

Agora, Regina está cotada para a vaga de Alvim, demitido do cargo após protagonizar um vídeo com referências ao nazismo. Segundo apurou o Estado/Broadcast, a ideia do Palácio do Planalto é levar um nome de peso, reconhecido no meio cultural, para assumir o posto, nos moldes da indicação de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura no governo Lula. Caso Regina não aceite o convite, uma das opções cotadas é o ator Carlos Vereza.

Esta não é a primeira vez que uma atriz que estrelou novelas da Globo é sondada para assumir a Cultura. No governo Sarney, Fernanda Montenegro recusou um convite para comandar a pasta, que tinha status de ministério na época. Fernanda acabou se tornando alvo de ataques disparados por Alvim, que chamou a atriz de "mentirosa".

LAVA JATO

Ao longo dos últimos meses, Regina utilizou o perfil no Instagram para manifestar apoio ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e ao coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, procurador Deltan Dallagnol. "Somos todos Sérgio Moro", publicou a atriz.

Se por um lado endossa as investigações de um esquema bilionário de corrupção na Petrobrás, Regina ataca o Supremo Tribunal Federal (STF) em suas redes sociais.  "STF. Guardião da Constituição ou da impunidade?" e "Lava Jato está correndo perigo nas mãos do STF" foram alguma das publicações no perfil da artista.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Tá bem claro ! Não...? ➡️

Uma publicação compartilhada por Regina (@reginaduarte) em

Ela também criticou os votos proferidos pelo presidente do STF, ministro Dias Toffoli, e pela ministra Rosa Weber contra a execução antecipada de pena, que permitiram que o tribunal derrubasse a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância - a medida foi considerada um dos pilares da Lava Jato no combate à impunidade. O resultado abriu caminho para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse colocado em liberdade.

"Votou contra o Brasil. Lástima" e "Rosa Weber vota contra o Brasil", escreveu Regina.

Em alinhamento com Bolsonaro, Regina já se mostrou favorável à flexibilização da posse de armas, uma das bandeiras eleitorais do presidente. "Se o registro de novas armas aumentou 50% em 2019, não deveria haver uma explosão de homicídios, como previam os 'especialistas' da extrema-imprensa? Ao invés disso, houve uma redução de 22% dos homicídios", diz a publicação compartilhada por Regina.

Em meio à polêmica com a retirada da divulgação de filmes brasileiros da sede e da página oficial da Ancine, a atriz usou o perfil para publicar cartazes de produções nacionais, como "Deus e o diabo na terra do sol", Tropa de Elite” e "Carlota Joaquina", marco da retomada do cinematografia nacional.

A atriz ainda criticou o documentário "Democracia em vertigem", de Petra Costa, indicado ao Oscar na última segunda-feira (13), que retrata a queda de Dilma Rousseff. "A verdadeira história sobre o impeachment foi feita por milhões de brasileiros nas ruas e Oscar nenhum vai reescrever nossa História", postou Regina.

Em 17 de dezembro, Regina publicou no Instagram um artigo da colunista Patricia Kogut, do jornal O Globo, que lamentava o fim da TV Escola. "O triste fim da TV Escola", era o título do texto da colunista.

FINANCIAMENTO

Em 2016, a peça "A visita da velha senhora", estrelada por Regina, tentou captar cerca de R$ 2 milhões via Lei Rouanet, dispositivo que tem sido alvo de duras críticas do presidente Jair Bolsonaro. Mas o sistema do Ministério da Cultura informa que nenhum valor foi efetivamente captado para financiar o projeto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ex-ministros da Cultura dão dicas a Regina Duarte

Demitir os dirigentes nomeados por Alvim, desarmar o espírito do presidente, elaborar um planejamento e dialogar com a sociedade são algumas das sugestões feitas por figuras que já se sentaram naquela cadeira

Julio Maria, O Estado de S Paulo

26 de janeiro de 2020 | 06h00

À frente da Secretaria Especial de Cultura, a atriz Regina Duarte terá uma missão difícil, das mais delicadas que o setor já enfrentou desde a criação da pasta, em 1985. Apaziguar um meio de espíritos ressentidos deve ser o primeiro requisito para que ela consiga se movimentar antes mesmo de anunciar seus projetos. De um lado, boa parte da classe artística precisa se convencer de que Regina, mesmo a serviço de um dirigente com restrições a quem o critica ou não aparenta ter valores em que acredita, pode fazer um trabalho relevante. Do outro, um presidente, mesmo diante de uma classe crítica a seus atos desde antes de sua gestão, precisa ser convencido de que, em um país com quase 220 milhões de pessoas, é preciso pensar em cultura sem restrições ideológicas.

Essas são algumas das reflexões feitas por ex-dirigentes da pasta cultural ouvidos pela reportagem do Estado. Em geral, há nas falas um tom de respeito a Regina por sua história como atriz, com um ponto de destaque na série da Globo Malu Mulher, quando Regina viveu o papel de Malu, uma mulher recém-divorciada derrubando tabus machistas em pleno início de anos 80. A vida real de Regina vai precisar de mais do que uma boa atuação, na opinião dos ex-ministros. “Ela já deu sinais de que discorda das posições de Roberto Alvim, mas não disse nada sobre as questões ligadas ao dirigismo cultural, à censura, às declarações homofóbicas, misóginas ou racistas. Como ela vai lidar com a diversidade cultural nesse cenário?”, pergunta Ana de Hollanda, ministra do governo Dilma Rousseff entre janeiro de 2011 e setembro de 2012.

“Em primeiro lugar, eu torço pela Regina Duarte para que ela consiga colocar ordem na casa”, diz Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura do governo de Michel Temer, em 2017, e atual secretário de Cultura do governo João Doria. “Há uma série de instituições importantes que precisam funcionar, o Iphan, o Ibram, a Biblioteca Nacional, a Funarte.” Sá Leitão, último ministro da Cultura antes que a pasta se transformasse em secretaria, diz que tem esperanças de que Regina consiga convencer o presidente Jair Bolsonaro de que a área volte a entender cultura não só como subsídio a espetáculos mas também como potencial econômico. “Essa ficha, infelizmente, ainda não caiu.” 

Ele sugere a Regina que ela não leve à mesa questões ligadas a segmentos específicos, como propostas a minorias, em um primeiro momento. “Ela precisa estabelecer um diálogo focado em política cultural mais geral para conseguir a maior unidade possível.” Mas como gerir democraticamente, por exemplo, os projetos cinematográficos viabilizados pela Ancine? Bolsonaro já manifestou que não autorizaria subsídios a filmes com “conteúdo pornográfico” como, segundo disse, o longa sobre Bruna Surfistinha.

Sá Leitão diz que, para isso, é preciso lembrar o presidente de que existe a Constituição. “Quando um presidente assume a Presidência do País, ele faz um juramento de respeito à Constituição. E a Constituição garante o respeito do poder público à liberdade de produção artística intelectual. Prefiro acreditar que Regina, com seu prestígio, vai fazê-lo entender isso.”

Juca Ferreira, ministro da Cultura por duas vezes, a primeira entre julho de 2008 e dezembro de 2010 no governo Lula e a segunda, entre janeiro de 2015 e maio de 2016, no de Dilma Rousseff, é menos otimista. “Regina vai ser mais do mesmo em um governo que monta mecanismos de censura na cultura. Ela possivelmente será menos desastrada do que o antecessor Alvim, mas não será o suficiente.” Ele cita o Prêmio Nacional das Artes, anunciado por Alvim no vídeo em que imitou o ministro nazista Joseph Goebbels e lhe valeu a demissão do cargo, como uma “tentativa de manipulação da produção cultural”. Segundo informações da secretaria, caberá ao novo secretário reavaliar a continuidade do prêmio. O Ministério Público Federal já recomendou a anulação do projeto que prometia distribuir mais de R$ 20 milhões para produtores culturais que seriam escolhidos pela pasta – uma prática vista como dirigismo cultural pelos opositores. Para Juca, os artistas devem “continuar a fazer o que vêm fazendo”. “Produzindo muito, mesmo nessas condições, e resistindo sempre aos ímpetos autoritários.”

“Regina Duarte é a última chance de Jair Bolsonaro na Cultura”, diz o cientista político Francisco Weffort, ministro da gestão cultural de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002. Seu pensamento é em respeito a uma provável tentativa do governo de apaziguar a área com um quadro que aceite um convite para fazer parte de seu governo ao mesmo tempo em que conte com algum respeito profissional da classe. “Se ele perder Regina, vai ficar sem nada. E, nesse momento, é importante para o Bolsonaro que ele reconquiste ao menos parte da classe artística. É a última chance que tem para fazer isso.”

Sua dica, então, é mais para Bolsonaro do que para Regina Duarte. “Ele deve dar liberdade para as ações de Regina, que o apoiou desde sempre. Regina, que tinha medo do Lula mas não tem de Bolsonaro, tem esse jogo difícil pela frente.” Uma briga de duração tão longa com o setor artístico, visto também como importante propagador político, pode trazer prejuízos na próxima eleição, diz Weffort. “E, nesse momento, a economia ainda vai mal, não é nada brilhante. Ele precisa então se aproximar dos setores culturais pelo menos até o momento em que as coisas melhorem na economia.”

Marcelo Calero passou pela pasta por pouco menos de seis meses em 2016, convidado por Michel Temer. Depois de denunciar pressões para rever um parecer técnico desfavorável a interesses pessoais do então ministro-chefe da Secretaria de Governo do Brasil, Geddel Vieira Lima, ele pediu demissão. Calero primeiro deseja “toda sorte do mundo” à atriz. “E que seja um trabalho em consonância com a enorme densidade de sua história artística.” “Agora”, segue Calero, “o que ela vai ter como desafio é, primeiro, o de marcar sua gestão dentro desse contexto Bolsonaro, um contexto de profundo antagonismo com a área cultural.”

Ele se alinha a Sá Leitão na dimensão econômica dos projetos culturais, uma visão que também norteou os projetos da equipe de Gilberto Gil, líder da pasta entre 1.º de janeiro de 2003 e 30 de julho de 2008 durante a gestão Lula. Gil não quis se pronunciar ao Estado. Ele apenas respondeu que o que tinha a dizer está na frase que distribuiu aos jornais há poucos dias: “Espero que a Regina veja a cultura do Brasil com os mesmos olhos com que eu e tantas outras pessoas vemos a bela figura dela”. Aposta no apaziguamento do setor e não dá palpites sobre política cultural, mesmo sendo algo que ajudou a transformar nos anos 2000. Marta Suplicy, ministra de Dilma entre 2012 e 2014, disse que não queria se pronunciar.

Calero diz: “Sempre falo que a cultura deve ser vista como vetor social e econômico principalmente em um País tão diverso e com tanta riqueza de manifestações culturais, como é o caso do Brasil”. Ele faz um panorama rápido sobre a pasta. “Acho que a gestão Bolsonaro começa com uma visão muito profissional que foi dada pelo (secretário) Henrique Pires e, depois, no entanto, foi para esse viés cada vez mais ideológico.” 

A dica que Calero deixa a Regina: reverter todas as nomeações da área feitas por Alvim. “Se não conseguir reverter essas nomeações, já começa sua gestão de maneira totalmente enviesada. Estou falando da Casa de Rui Barbosa, da Funarte, da Ancine, da Fundação Palmares, obviamente, e da Biblioteca Nacional. A revisão dessas nomeações é fundamental para que a gente saiba se, de fato, essa gestão vai conseguir trazer algo de novidade em termos de relacionamento com o setor.”

Sá Leitão, questionado sobre o que faria se fosse Regina Duarte, deixa um esquema que, mesmo básico, segundo ele, daria o recado de que as coisas voltaram a caminhar. Ela precisaria primeiro fazer diagnóstico dos projetos em andamento. Depois, uma avaliação do que deve ou não ser mantido e, por fim, um planejamento. “É importante envolver o maior número de representantes da sociedade nesse processo. Congresso, entidades do setor, secretarias estaduais. É fazer isso e estabelecer as metas.”

Frases:

Marcelo Calero

“Se ela não conseguir reverter as nomeações feitas pelo Alvim, já começa sua gestão de maneira totalmente enviesada”

Sá Leitão 

“Deve envolver a sociedade no processo de avaliar os projetos. Congresso, entidades, secretarias. É isso e estabelecer as metas” 

Francisco Weffort

“Regina é a última chance de Bolsonaro na Cultura. Se a perder, vai ficar sem nada para se reaproximar dos artistas. E é bom que faça isso”

Juca Ferreira

“Esse Prêmio Nacional das Artes precisa ser cancelado. Não passa de uma tentativa de manipular a produção cultural” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.