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Regina Casé

A TV Pirata marcou uma geração; era um programa ousado, debochado, à frente do seu tempo e reunia uma turma de gênios

Fábio Porchat, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2015 | 09h31

A TV Pirata marcou uma geração. Era um programa ousado, debochado, à frente do seu tempo e reunia uma turma de gênios. Tanto os que escreviam, como os que dirigiam e atuavam. Eu tinha 5 anos e me lembro de alguns esquetes. Passava tarde da noite, mas gravava no vídeo para mostrar para os meus pais no dia seguinte. 

A cena que mais me marcou foi a de uma socialite rica, que estava presa no banheiro de sua mansão (cópia exata das Termas de Caracala) porque uma pedra havia despencado sobre sua cobertura. Estava aflitíssima porque os víveres tinham acabado, a última lata de patê fora aberta e não tinha mais o que oferecer para a repórter, que a estava entrevistando através de uma fenda na rocha. 

Rio alto até hoje, quando revejo a cena. É brilhante. E muito por causa da interpretação da Regina. Os tipos que ela criava eram precisos e atingiam de forma cirúrgica o ponto que tinha que ser atingido. Meu primeiro contato com ela foi quando fui chamado para escrever para um, até então, novo programa, o Esquenta! Por três temporadas escrevi e participei do programa como ator. Foram três anos que me abriram os olhos. Ela me abriu os olhos. Ela e a turma dela. As pessoas que fazem parte da “família Esquenta”, digamos assim, que sempre acompanham Regina onde quer que ela vá. Porque, uma vez ao seu lado, é difícil largá-la. 

Regina fez uma coisa pelo Brasil que poucos se atreveram. Ela levou o preto para a TV. Levou o pobre pra televisão. E não da forma que, geralmente, os apresentadores levam, por pena ou caridade. Levou as pessoas para elas mostrarem que não são coitadinhas, são pessoas com talentos e valores e merecem destaque por isso. Quem está ali, está para mostrar serviço. E essa foi a lição que ela me ensinou e que vou levar pra vida. Dar uma casa para alguém, pode ser bom. Mas dar a oportunidade para a pessoa mostrar a que veio, para ela conseguir vencer na vida pelo seu esforço/dom/talento, isso é que é A coisa! 

A Regina se interessa profundamente por um mundo que historicamente é relegado à margem. Muita gente usa argumentos muito equivocados para criticá-la. Se ela gosta tanto de pobre, por que não doa tudo e vai morar na favela. Ou ainda: Gosta de pobre, mas mora no Leblon, falsa. 

As pessoas se abalam tanto pelo fato de elas mesmas não fazerem nada, que preferem atacar quem faz. A Regina exalta a favela não como objetivo de vida, mas, sim, como celeiro de uma porção de coisas boas. De lá, podem vir pessoas tão ou mais interessantes quanto as do “asfalto”, é só isso que ela quer dizer. 

Ela não acha o máximo morar na favela. Acha o máximo alguém que mora na favela, sob condições tão duras, conseguir ser quem é, fazer coisas tão incríveis, mesmo tomando porrada diariamente. Ela festeja o lado de lá porque o lado de cá já está atolado em festas. Ela mistura por fora, o que já é misturado por dentro, o brasileiro. 

Ela coloca o FHC pra sambar com o gari Sorriso e pra falar sobre maconha com o D2 e com ex-presidiários. É isso que o Brasil tinha que ser. É por isso que tínhamos que lutar, para todos se verem, se escutarem e poderem entender que, juntos, somos muito melhores do que separados em grupos que nós mesmos criamos. Obrigado, Regina! 

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