Regina Braga, guardiã da memória que se vai

Em 'Desarticulações', atriz leva para dentro de museu um texto autobiográfico da argentina Sylvia Mollo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h17

Convencionalmente, um museu é o lugar para guardar o que não queremos esquecer. Trata-se do espaço para exibir obras de arte. Mas não só. Serve - e não importa a que tipo de acervo se dedique - para eternizar os vestígios do que fomos um dia. Talvez por isso, fosse tão importante para Regina Braga encenar Desarticulações fora de uma sala convencional de teatro. "Foi uma escolha intencional. Nos parecia essencial para o espetáculo que ele acontecesse em um museu", diz a atriz.

A peça, que ela apresenta a partir de hoje no MIS - Museu da Imagem e do Som, dedica-se a tratar da memória. Ou, melhor dizendo, da perda dela. Versão do livro homônimo de Sylvia Molloy, o texto registra o embate da autora com uma amiga que, gradativamente, esquece tudo o que é e tudo o que conhece.

Ainda que Regina esteja sozinha em cena, o que o público acompanha também pode ser definido como embate. Confronto consigo mesma, com as figuras que pretende evocar, com o espaço que a expõe sem proteção diante dos espectadores.

Cercada pela plateia, confinada em um quadrado de 4 metros x 4 metros, a atriz encontra-se dentro de uma instalação. Obra que poderá ser vista mesmo fora dos horários do espetáculo. "Existe uma exposição em curso", comenta Isabel Teixeira, que assina a direção. "Primeiro, no sentido de que há uma atriz sendo exposta. Mas, também, de que há uma exposição de artes plásticas. A pessoa que entra ali, com os resquícios do que foi a presença de uma atriz, consegue refazer uma historia."

A criação cenográfica coube ao diretor de arte Marcos Pedroso, reconhecido por seu trabalho com o Teatro da Vertigem, com quem ambientou espetáculos em lugares como um presídio (Apocalipse 1,11), um hospital (O Livro de Jó) e uma igreja (O Paraíso Perdido). Para esta montagem, a concepção é limpa. Poucos objetos - uma cadeira e um abajur - delimitam um universo em que todas as coisas, as ideias e as lembranças estão indo embora.

Molloy é reconhecida pelo caráter autobiográfico de seus textos. A autora argentina, que vive nos Estados Unidos há 40 anos, também já escreveu sobre o traço memorialista em obras de outros escritores latino-americanos. Desarticulações foi escrito sob a forma de diário, contudo, chamou a atenção de Regina ao transcender a simples curiosidade pela intimidade do outro. Convidada pelo Instituto Moreia Salles a realizar uma leitura do título, a intérprete surpreendeu-se com seu potencial para o palco. "Percebi que as pessoas se interessavam pelo que eu estava dizendo. E isso é precioso, a ideia de que algo que você diz é capaz de mobilizar."

Na versão teatral, Regina empresta voz tanto à escritora como ao seu objeto de observação, Maria Luiza, que padece do mal de Alzheimer. Um mundo inteiro se vai com o apagar da memória dessa amiga, ela não se lembra do que disse há cinco minutos, o tempo vai borrando a imagem das pessoas que conheceu. Mas algo de estranho subsiste. E, nesse processo, um universo novo também se abre.

A história que Sylvia relata é triste. Existe o pesar pelo que morre. Mas isso não exclui um encantamento pelo processo mental que presencia, pelo mistério do que não pode entender ou explicar.

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