Regida por Isaac Karabtchevsky, Osesp ressurge com Villa-Lobos

Villa-Lobos é hoje tão popular que empresta seu nome até a um shopping center e a um parque em São Paulo. No primeiro, há um enorme painel com cenas de sua vida no teto da praça de alimentação; no segundo, 15 alto-falantes tocam diariamente as Bachianas n.ºs. 2, 4, 5 e 7, sete choros e a sinfonia nº 4 num espaço em que os frequentadores podem relaxar em um dos 12 bancos ou, com sorte, numa das 12 espreguiçadeiras.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Apesar disso, é inacreditável que o imponente conjunto de suas 11 sinfonias (no total, seriam 12, compostas entre 1916 e 1957, mas a quinta perdeu-se) só possua uma gravação integral feita na Alemanha entre 1999 e 2008, pela Orquestra da Rádio de Stuttgart, regida por Carl St. Clair (selo CPO). Felizmente, já podemos pôr o lamento no passado, pois hoje às 19h30 o maestro Isaac Karabtchevsky dá a largada na primeira gravação integral por uma orquestra brasileira, regendo a Osesp em concerto popular na Sala São Paulo na 6.ª e 7.ª sinfonias.

Não será apenas a segunda integral, mas a referência quando estiver completa, em 2016. A versão da orquestra de Stuttgart usou os manuscritos em péssimo estado e com notas erradas. Uma equipe de musicólogos do Centro de Documentação Musical da Osesp, em parceria com a Academia Brasileira de Música, debruçou-se sobre as partituras e temos uma edição crítica (a editora da Osesp já editou quatro e publicará todas até 2016).

Assim como os cinco concertos para piano, as 11 sinfonias constituem um dos grupos de obras menos conhecidas e sobre as quais já se colocou apressadamente o rótulo de conjunto desigual, cheio de altos e baixos, prolixas demais. Não é o melhor Villa-Lobos. Será? Como julgar se sequer dispomos de partituras e gravações confiáveis? Teremos condições para avaliá-las melhor quando as partituras e as gravações estiverem completas, em 2016 (os seis CDs da integral sairão no Brasil pela Biscoito Fino e no mercado internacional pela BIS sueca).

Passaporte. Os poucos pesquisadores e maestros que as conhecem e regeram lhes atribuem, no entanto, muita importância. As primeiras quatro, escritas entre 1916 e 1919, foram uma espécie de passaporte conservador para o jovem Villa afirmar-se como compositor e ter espaço para fazer tocar sua produção ainda no Brasil. A 5.ª, de 1920, perdeu-se. Seguiu-se um longo silêncio, até a 6.ª sinfonia, de 1944. Dali em diante, até 1957, foram oito, incluindo a 10.ª, Sumé Pater Patrium, composta por encomenda da Prefeitura de São Paulo em 1954 para o 4.º centenário da cidade, um monumento que inclui coro misto, solistas, grande orquestra e vastíssima percussão, sobre letras em tupi-guarani, latim e português (para muitos, a obra-prima entre as 11).

Não há melhor projeto do que este para divulgar a imagem da Osesp no mercado internacional, vitaminada com a contratação de Marin Alsop para dez semanas anuais a partir de 2012. Aproveito para retificar informação por mim publicada esta semana, quando comparei seus 10 programas num horizonte de 58.

Estes 58 incluem concertos camerísticos, corais e recitais; os sinfônicos serão 32. Portanto, a proporção correta da participação de Marin é de pouco mais de 30%, e não 20%, sobre a temporada sinfônica.

Mas a Osesp está apostando firme na conquista do planeta. Contratou, a partir desta temporada, duas assessorias de imprensa internacionais - uma em Nova York, outra em Londres - para transformá-la num fenômeno de mídia já em 2011. Marketing ajuda, mas é efêmero. Musicalmente, o caminho de qualquer orquestra brasileira para a afirmação internacional sempre passou pelo nosso maior compositor.

Foi assim com John Neschling e a própria Osesp, conquistando prêmios importantes por gravações de Villa-Lobos (Bachianas e Choros). Foi assim antes, com Isaac Karabtchevsky provando pioneiramente o gosto do êxito internacional nos anos 70, com a Orquestra Sinfônica Brasileira em gravações das Bachianas e turnês europeias fazendo... Villa-Lobos. E tem tudo para se repetir agora. A ideia de gravar CDs dedicados a obras de Gilberto Mendes e Almeida Prado também é estratégica para divulgar a música brasileira contemporânea, excelente mas desconhecida nos mercados internacionais em registros de alto nível.

Pena que Marin Alsop esteja presa a contrato com a Naxos, para a qual grava extensivamente com a Orquestra de Baltimore, e até agora esteja impedida de gravar com a Osesp para a BIS. O senão incompreensível é o mimo de consolação para Tortelier, que está saindo: ele vai gravar um CD com obras de Florent Schmitt. A iniciativa só engorda seu prestígio como divulgador da música francesa (no caso, de segunda classe), e nada acrescenta à Osesp.

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