Região do Cariri pode se tornar Patrimônio Imaterial

O Cariri é uma das mais peculiares, originais e ricas regiões culturais do País. Em apenas três cidades (Crato, Barbalha e Juazeiro), é possível encontrar 16 grupos de pífanos e 13 grupos de reisados, além de orquestras de rabecas e tradições artesanais familiares de mais de um século. Para expressar o reconhecimento dessa especificidade cultural do Cariri, e de sua resistência sertaneja, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) iniciou no mês passado o processo de registro de toda a área no Livro dos Lugares do Patrimônio Imaterial. Será a primeira região do País incluída nesse tipo de tombamento, até então um livro em branco no Iphan. São dali, daqueles poucos quilômetros quadrados rodeados pela Chapada do Araripe (que os populares costumam chamar de "umbigo do mundo"), na confluência entre os sertões do Ceará, do Piauí, da Paraíba e de Pernambuco, que vieram a poesia de Patativa do Assaré; a música da Banda Cabaçal de Mestre Aniceto e os pífanos de Zabé da Loca; o artesanato de Mestre Noza e das irmãs Cândido."O tombamento significará o reconhecimento de uma pluralidade cultural de extrema riqueza", diz Olga Paiva, chefe de divisão da 4.ª Superintendência Regional do Iphan no Nordeste do País. "O Cariri é uma área de confluência de culturas que lhe dá uma característica multicultural indiscutível", alega Olga. A idéia do primeiro tombamento de toda uma região como patrimônio imaterial do País também é inédita no mundo inteiro. Tudo começou quando o Iphan iniciou os estudos para a proteção da obra de Patativa do Assaré (livros, discos, fotos, manuscritos inventários e recortes de imprensa), da Festa do Pau da Bandeira e o tombamento do acervo do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri - a maior reserva de fósseis do período cretáceo (entre 140 e 65 milhões de anos atrás). "Vimos que a região é tão rica que era necessário proteger não só uma ou outra manifestação isolada, mas todas elas. Tudo está conectado, como se fosse um ecossistema", explica André Herzog, reitor da Universidade Regional do Cariri, que também pretende reivindicar o reconhecimento da Unesco de todo o sertão do Cariri como Patrimônio da Humanidade. Herzog diz que o pedido da universidade à Unesco baseia-se na própria conferência das Nações Unidas, de 1992, subscrita por 156 países, que definem o conhecimento popular e o etnoconhecimento como elementos integrantes da biodiversidade. Atualmente, a Unesco tem 48 manifestações protegidas como Patrimônio Intangível no mundo todo (no Brasil, inclui só as expressões gráficas e orais dos índios Wajapi). São coisas como a dança dos pigmeus da África Central e a festa indígena dos Mortos no México. No Cariri, além de tudo, a cultura também assume um importante caráter socioeconômico. No Centro de Artesanato Mestre Noza, inaugurado em 1985, os artistas mais destacados da região escoam sua produção para galerias de arte dos grandes centros, como Fortaleza, Recife, Rio e São Paulo. Maria de Lourdes Batista, diretora do centro, diz que são produzidas cerca de 30 mil peças por mês pelos 125 artistas cadastrados (eles podem ser mais de 300, ela salienta, já que famílias inteiras trabalham na produção). "Aqui é muito difícil andar 100 metros sem topar com um artesão na rua", diz Maria de Lourdes. Há casos de grupos familiares especializados num tipo de produção, como as Irmãs Cândido (as Cândidas, como são chamadas), que trabalham barro em alto-relevo.

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