Reggae: entre o novo e o atemporal

Cameron Stallones, do Sun Araw, fala sobre seu disco com o lendário grupo jamaicano The Congos

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h09

"O tempo não tem começo nem fim. O tempo é um espaço dentro de si, dentro do antes e do depois, dentro dos elementos que duram para sempre", observa Ashanti Roy, um dos fundadores do lendário grupo vocal jamaicano The Congos, em um trecho do DVD que acompanha seu novo disco, Icon Give Thank, colaboração com os produtores e instrumentistas Sun Araw e M. Geddes Gengras. O transcendente devaneio de Roy pode soar vago e pouco embasado para a mente cética; lampejos filosóficos adquiridos em uma viagem psicotrópica, mas intraduzíveis (ou óbvios demais) para o mundo exterior. Nada mais.

No entanto, o pensamento liga dois mundos aparentemente díspares: a cidade de Portmore, na Jamaica, onde, a 45 minutos de Kingston, os Congos residem em uma comuna rastafári, com a Los Angeles de Sun Araw, codinome de Cameron Stallones, o magricelo à esquerda, na foto acima, cujo trabalho explora uma exuberante selva de rock experimental. Esta noção de tempo como algo flexível, que pode ser delimitado, esticado e alterado por nossa percepção, é um elemento chave em diversos níveis de seu trabalho. Em Icon Give Thank, ela toma a forma de uma conversa com os Congos, que, em vez de lidar apenas com referências estéticas do dub jamaicano, consegue, através da manipulação de efeitos e da diretriz improvisada de sua música, dialogar com o passado de uma forma em que o hoje e o ontem musical se fundem em algo atemporal.

"Isso é algo que deve sair na minha música porque me interessa bastante. Mas não consigo representar isso conscientemente. Não saberia como fazer isso", explica Stallones, em entrevista ao Estado, por e-mail. "Tudo o que faço é com o cavalo na frente da carruagem. Aí é que as coisas começam a se movimentar. Aprendi isso depois de passar muito tempo sentado na carruagem e me perguntar por que ela não estava saindo do lugar", completa o músico, que é fixado na ideia de viagens pelo tempo, de um futuro distante a um passado.

Stallones se refere ao modo improvisado com que trabalha seus discos solos, feitos em um estúdio, a sós, empilhando camada sobre camada de efeitos, percussão e, quase sempre, uma guitarra tocada numa veia de jam band de rock psicodélico - com o uso indiscriminado daquela escala pentatônica que se aprende na segunda aula de violão, e que pode soar tão entediante nas mãos de profissionais. Vide o disco Heavy Deeds, em que Stallones presta homenagem a Bo Didley e Stevie Wonder de seu próprio modo: com longas jams guiadas por refrões-quase-mantras submergidos em eco e delay. Trata-se de um trabalho chave para a proposta do Sun Araw. Como o próprio já disse, ele não tenta, mas o que consegue fazer é brincar com o tempo de modo que sua linearidade é alterada pela repetição, pelo formato cíclico de improvisações - estas sempre apoiadas sobre um "drone", ou zumbido recorrente -, cujos elementos se desenvolvem como um caleidoscópio, invertendo ideias já presentes e dando novos significados a esses elementos sobre a constância da base.

O resultado é uma percepção quase meditativa de tempo, como se fosse a tradução musical desse espaço dentro do tempo a que se refere Ashanti Roy. Para a colaboração com os veteranos do reggae, disponível pelo iTunes ou pela site da gravadora RVNG INTL (igetrvng.com) Stallones viajou a Portmore no início de 2011. "Foi uma loucura. Não fazíamos ideia do que esperar. Quando chegamos lá, subimos as escadas, entramos e um homem nos disse, com uma voz mística, 'vocês estão agora na alcova do leão'", lembra Stallones.

No DVD que acompanha o disco, M. Geddes e o músico perambulam impressionados pelo domínio dos Congos. "Parece que estamos em uma utopia. É a coisa mais próxima do reino do céu", chega a comentar Geddes em determinado trecho, falando da forma com que se estabeleceu uma comunidade estável entre os músicos.

A viagem foi feita com alguns esboços compostos em Los Angeles por Stallones e Geddes, que também faz um notável trabalho experimental na Califórnia. "A maior parte do disco foi gravada nos primeiros dois dias. Só deixamos o estúdio para sentar em baixo da árvore do quintal por um pouco. Mas passamos muito tempo mixando o álbum. Chegamos a Los Angeles e começamos a passar tudo por vários efeitos de fita e outras coisas de mesas de som. Demorou seis meses para completar o disco", conta.

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