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Refúgios para quarentena

Mais um pouco e veremos pipocar anúncios de lugares onde passar a quarentena

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2020 | 03h00

No jeito e no ritmo em que vão as coisas – e, claro, se a cloroquina do capitão Talkey não liquidar de vez com a pandemia do coronavírus, como quer fazer crer o sexagenário garoto-propaganda –, não será surpresa se daqui a pouco pipocarem anúncios de “casas para quarentena”, a exemplo do que desde sempre acontece com residências para temporadas de férias. E haverá então de tudo nessa nova aba do mercado imobiliário, de quitinetes mal e mal providas de álcool em gel, a suntuosas mansões, no litoral ou na montanha, nas quais, na falta de anomalias pulmonares, será possível utilizar aparelhos de respiração ociosos para inflar boias ou balões de festa.

A crer no que venho constatando no modesto condomínio onde sobrevivo, o Cosme e Damião, mesmo sem anúncios o movimento já está em marcha. Dos 12 apartamentos que há nos dois predinhos, quatro estão vazios, praticamente desde o início da pandemia. Seus ocupantes, imagino, acharam pouso mais seguro e acolhedor, e, quem sabe, vizinhos melhores que certo condômino, de quem o ofício de cronista fez pouco menos que um bisbilhoteiro profissional, como sói acontecer aos praticantes desse depreciado gênero literário. Embora sem ressentimento, confesso que me bate inveja quando, da janela, vejo no pátio o pessoal atafulhar seus carros com provisões e roupas, e em seguida partir, com insultuosa alegria, rumo a algum canto menos entediante do que tem sido o nosso Cosme e Damião.

Já contei que, sem muita reclamação, aqui estou sozinho, ou, mais grave que isso, na minha solitária companhia, da qual por vezes me ocorre divorciar-me. Salvo diante do espelho, não tenho pois com quem planejar partida para outro canto, nem na garagem um carro que me leve para temporada em paragens aprazíveis. Ciclotímico, há momentos em que bendigo a sorte de dispor de meus 100 metros quadrados, e lá embaixo, como também já disse (não espere muita novidade da parte de um confinado), de um espaço no qual, num esforço de manutenção da vetusta carcaça, tenho girado, qual hamster em gaiola, durante uma hora por dia. Quantos de meus semelhantes desfrutarão de tais confortos? Em outros momentos, porém, quando, deteriorado, o panorama doméstico me obriga a empunhar vassoura, aspirador e material de limpeza, me bate a nostalgia da quitinete onde jamais morei, claustrofóbica, mas por isso mesmo limpável com um mínimo de esforço.

*

A bem da verdade, já habitei, sim, os poucos metros quadrados de uma quitinete, embora jamais tenha me ocorrido dar-lhe tal nome, pois em Paris, onde vivia, a referida minusculidade habitacional se chama studio, com imaginário acento circunflexo no “o”. Ainda jovem, casado, nunca me pesou a pequenez do cafofo, pendurado num 22.º andar, cuja cozinha só provava existência quando se abria um armário ao lado do guarda-roupa. Um dia lá esteve meu tio Renato e, tendo caminhado meros quatro passos desde a porta de entrada, percebeu que já tinha visto toda a moradia, cozinha inclusive; político habilidoso, tentou contornar a decepção impressa no rosto: “Ah, começo de vida é assim mesmo...”. 

A ampla janela não descortinava nenhuma torre Eiffel, mas a paisagem era indubitavelmente parisiense. No dia em que ali nos instalamos, o zelador, monsieur Dagois, um quase sósia do Gepetto, me puxou até o parapeito e, em baforadas de vinho ruim, cochichou informações sobre os horários e apartamentos nos quais, num prédio em frente, seria possível flagrar mulher pelada. Sem o saber, ele açulava o imaginário de um brasileiro da minha geração, rapaziada para a qual haveria ali o atrativo de algo mais que a nudez feminina: mulheres que, além de peladas, eram francesas... Não fiz tocaia, e se alguma coisa entrevi, não terá sido de molde a superar o desinibido e balouçante espetáculo no solário do edifício, onde quem não deixasse cair a parte de cima do biquíni correria o risco de parecer um corpo estranho.

Não sei como terá sido, como estará sendo fazer quarentena no studio 22i da rua Georges Pitard, 15, em Paris. Gostaria de saber, por exemplo, se no verão setentrional em curso é permitido aos confinados subir ao solário, e liberar ali as coxas e os melocotones, e quem sabe mais do que isso, neste 14 de julho em que a França comemora queda de outro tipo, a da Bastilha. 

Dá vontade de saber, também, se o pessoal (“le personnel”, dizia um compatriota com quem convivi naqueles tempos, dado a bizarras traduções ao pé da letra) continua tendo acesso ao pavimento logo abaixo do solário, o 29.º, para ali desfrutar da piscina aquecida, toda cercada de vidraças através das quais, num inverno brabo, eu podia ver, enquanto nadava, a neve a polvilhar Paris. 

Vinte anos depois de me mudar de lá, estando em férias na cidade, quis mostrar a um amigo o prédio, não exatamente charmoso, mas carregado de lembranças boas, onde morei durante 12 meses; mas não me deixaram passar da portaria, mesmo depois de declinar a condição de ex-residente. E quando perguntei por monsieur Dagois, o porteiro abriu sorriso de pouco-caso e poucos dentes, como se diante dele estivesse um contemporâneo de Napoleão Bonaparte: 

“Ah, então isso foi há muuuuuito tempo...”.

*

Em Paris, gostei bem mais de morar num prédio antigo, do ano de 1880, no boulevard Montparnasse, até mesmo porque o número do imóvel, 55 bis, para mim autorizava, esvaziadas algumas taças de vinho, a delirante fantasia de que ele fosse a qualquer momento decolar, e mais: equipado que era com numeração elevada, sua performance aérea por certo deixaria no chinelo a de Santos Dumont em seu 14 bis. 

Também ali passei um ano, numa altura da vida em que, ainda fumante, mesmo assim dava conta de galgar, não raro algumas vezes por dia, as escadas que me levavam ao 6.º andar. Lá em cima não havia, claro, solário nem piscina, nem as modernidades miúdas do studio da Georges Pitard, mas acredito que um confinamento, entre aquelas velhas paredes, resultaria para mim mais eficaz. Quando menos, por estar ciente de que a aventura de descer ao boulevard implicaria, na volta, a contrapartida de hoje inabordáveis 99 degraus. 

 

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