Reformado, Tuca abre hoje suas portas

Faz quase 13 anos que o porteiro Jonas Vieira, um simpático senhor de 73 anos, recepciona os espectadores do Tuca, Teatro da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Hoje à noite, ele vai trabalhar com mais gosto. Não por causa das autoridades e artistas convidados para a reabertura do Tuca. Com esses ele já se acostumou a conviver. Seu Jonas, como é chamado, finalmente vai mostrar ao público um teatro reformado - do jeito que deveria ser desde os incêndios de 1984. "Melhor não podia ficar."Seu Jonas começou a trabalhar no Tuca sete anos após o fogo ter consumido paredes e estruturas projetadas por Benedito Calixto, em 1965. O local era um dos focos da resistência contra a ditadura militar. A reforma demorou, mas finalmente ocorreu. Durante esse período, porém, o teatro continuou funcionando. O resultado de oito meses de obras salta aos olhos de quem conhece o Tuca. Tombada no ano passado, assim como o prédio velho e a capela da PUC, a fachada foi preservada. "Recuperamos a cor original", afirmou Adriana Nunes Machado, engenheira da Método, empresa responsável pelos trabalhos. Foram investidos R$ 6,5 milhões, financiados pelo Bradesco.Não seria estranho se algum observador detalhista achasse que o prédio ficou mais alto. "Eu subia um degrau para entrar, e agora são três?", indagaria. O gerente-administrativo Sergio Rezende conta o segredo. "Quando tiraram a terra, ´descobriram´ dois degraus do projeto original, soterrados há tempos", disse Rezende, que trabalha no teatro há 12 anos.Dentro estão as novidades mais marcantes. Começam com o amarelo vivo, como querem que o Tuca seja, no lugar do branco pálido das paredes. O Tucarena, teatro de arena no subsolo, parece ter dobrado de tamanho. Ganhou mais lugares e um tablado de madeira. O pequeno espaço ao lado, o Tuquinha, agora é o hall de entrada do Tucarena. O mezanino, antes inacessível a deficientes físicos, tem um elevador e duas novas salas: um auditório e uma sala de ensaio. No Tucão, o auditório propriamente dito, as quase 700 cadeiras de plástico foram trocadas por poltronas novas, iluminadas no corredor e equipadas com pranchetas. O palco ganhou acabamento arredondado na frente. As paredes atingidas pelo incêndio não foram esquecidas: vão ficar do jeito que estão, com as marcas dos dois incêndios criminosos de 1984.Essa preocupação não é à toa. O primeiro incêndio ocorreu em 22 de setembro de 1984, exatos sete anos depois da invasão do campus pelas tropas do coronel Erasmo Dias, então secretário da Segurança Pública. "Se for coincidência, é uma das mais absurdas da história", definiu o professor de pós-graduação em Educação e Currículo Mario Sergio Cortella, testemunha dos dois eventos."Espírito no ar" - Na festa de hoje, os convidados vão ver um documentário da TV PUC sobre o teatro e uma apresentação de Toquinho. O compositor tocou com Vinícius de Morais nos tempos de ditadura e levou crianças para assistirem a seus espetáculos infantis. Foi lá que Toquinho lançou Aquarela. No fim de semana, será a vez de funcionários, como Seu Jonas, alunos e professores assistirem ao show. "Qualquer pessoa que vem ao Tuca tem de voltar. Há um espírito no ar que te conquista", disse Seu Jonas.

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