Reforma no Teatro Bolshoi atormenta público e bailarinos

O Teatro Bolshoi, um dos marcos mais proeminentes de Moscou, virou um vasto canteiro de obras. Escoras de aço sustentam suas colunas gregas. Tubos de descarga de entulho descem de uma altura de 10 andares. Quase um ano depois de ser fechado para reformas, o Bolshoi parece a pique de vir abaixo.Na Teatralnaya Ploschad, a praça defronte o teatro, amores-perfeitos coloridos oscilam sob a brisa, mas a área toda - a dois minutos de caminhada da Praça Vermelha e do Kremlin - lembra uma cidade fantasma. A soberba fonte de mármore está desligada. O ar está empoeirado e sufocante. Cabines móveis azuis periclitantes despontam perto da entrada do Palco Novo, um segundo teatro aberto há seis anos como complemento ao original de 180 anos, e agora seus substituto de emergência. As produções de ópera e balé continuam no Palco Novo e também no Palácio do Kremlin, mas com capacidade muito reduzida: o segundo teatro acomoda 800 pessoas (o original, 2.000) e artistas reclamam de falta de ensaios e camarins.Dentro do próprio Teatro ("Grande") Bolshoi, o espaço todo foi esvaziado de cima a baixo, as luminárias de madeira do século 19, as cortinas de palco prateadas e os assentos de veludo vermelho franceses retirados para reparos em oficinas especializadas, cada item individualmente fotografado e catalogado. Abrindo caminho entre os detritos, Lyuba Bushueva, uma representante da Roscultura, a organização estatal responsável pela reforma, explica: "O trabalho dos especialistas é preservar tudo - interior e exterior. Tudo está sendo restaurado de acordo como foi feito no século 19."O Bolshoi está ameaçado de desintegração há anos. O teatro original foi construído entre 1821 e 1825, depois destruído pelo fogo e reconstruído em 1853. "Em 1920, o edifício começou a trepidar durante uma apresentação", diz Bushueva "Eles resolveram isso com uma base de concreto embaixo do piso - que afetou a acústica." Em 2002, uma bomba da 2.ª Guerra foi encontrada embaixo de uma das entradas do teatro.Mas foi só no fim do ano passado que alguém percebeu a gravidade da situação. As fundações tinham afundado 20 centímetros. Havia áreas de tijolos que, quando os restauradores tentaram separá-las, desmoronaram ao serem tocadas.A acústica continua sendo a principal preocupação, e é a razão por que o teatro não pode ser reconstruído a partir do zero. A madeira usada em palco, nos assentos, balcões e contornos - com cerca de 150 anos de idade - tem, dizem os russos, "uma ressonância excelente". Eles não permitirão se desfazer dela, apesar das dificuldades e perigos. "A reforma inteira é basicamente uma guerra entre segurança e acústica", suspira Bushueva.Um camarote, perto do "camarote do czar" (agora de Putin) central, foi restaurado como amostra. Depois de um ano apenas este trecho de um metro de largura está terminado: existe todo um edifício para fazer e menos de dois anos de prazo. A loucura disso é óbvia quando se olha os detalhes. Há milhares de metros de tecido para restaurar, e leva 24 horas de oficina, diz Bushueva, para aplicar um remendo de 50 centímetros quadrados.Moscou está repleta de rumores sobre o destino do teatro. O marido de uma amiga freqüentadora de teatro, um ex-agente da KGB que geralmente apóia cada medida de Vladimir Putin, diz: "O presidente é de São Petersburgo. Ele estará sempre protegendo o Mariinsky (o famoso rival do Bolshoi de São Petersburgo, antes conhecido como Kirov). O Bolshoi já está morto. Todo o mundo em Moscou sabe." Isso é parte hipérbole russa, parte teoria conspiratória (o próprio Mariinsky deverá ser fechado por três anos), mas no entendimento de todos, a estimativa de uma reabertura na primavera de 2008 é no mínimo otimista. Alguns acreditam que ela levará 10 anos. Para os dançarinos, mesmo o melhor cenário - três anos - é um longo tempo. Quando o Bolshoi reabrir, muitos de seus astros terão passado do auge de suas carreiras. Tradução de Celso M. Paciornik

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