Reforma da Estação da Luz é contestada no MP

O projeto da reforma da Estação da Luz, que vai custar R$ 30 milhões, tinha tudo para ser uma unanimidade: é de autoria do premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, é apadrinhado pela Fundação Roberto Marinho, tem apoio do governo federal e está no centro de um plano de recuperação do centro histórico de São Paulo. Mas, ao contrário, tornou-se pivô de uma controvérsia e foi recusado inicialmente pelas instâncias dos órgãos de preservação (Compresp, Condephaat e Iphan). Pior: a intervenção está sendo contestada por uma ação no Ministério Público Federal, atualmente a cargo da promotora Rosane Simas.Não são poucos os opositores à proposta. "Paulo Mendes da Rocha põe sua arquitetura goela abaixo do povo e todo mundo tem medo de falar", desabafa a arquiteta Helena Saia, curiosamente a autora do projeto de restauro da fachada da Estação da Luz (Mendes da Rocha é o autor do projeto para o interior da estação). Ela acusa o colega de elaborar um plano que prevê a derrubada da única parte da Estação da Luz que sobreviveu a um incêndio em 1946 e de demolir estruturas importantes de referência da arquitetura e da engenharia do prédio.As queixas de Helena estendem-se aos executores do projeto. "Eles querem fazer a política do fato consumado", afirmou, dizendo que as obras em progresso e a apresentação ao público de uma situação definida - o início do restauro foi anunciado com pompa, circunstância, quarteto de cordas e dupla de repentistas na semana passada, com a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil - visaria a enfraquecer a discussão preservacionista.O patrimônio histórico está dividido na questão. O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo) é favorável à liberação da obra de Mendes da Rocha. Os técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pedem alterações no projeto. E o Compresp (órgão municipal de preservação) está francamente contra.Mendes da Rocha e seu filho Pedro fizeram alterações no projeto e reencaminharam para exame. "Eu não vejo isso como um problema, é uma questão diante da qual eu estou solidário, porque aquele é um prédio sui generis", disse. "Nós estamos revendo o projeto, mas há umas posições básicas. Para pôr pessoas lá dentro, de um modo alegre e fluido, é preciso agir no espaço. Mas sem agredir."Casa Cor - Outra intervenção em patrimônio histórico que chegou ao Ministério Público é o caso da Casa Cor 2003. O local onde a Casa Cor está instalada, o hospital Umberto Primo, é um casario erguido em 1902 para a família Matarazzo e foi tombado pelo patrimônio histórico estadual em 1986. O nível de intervenção feito pelos diferentes espaços expositivos pode ter descaracterizado pisos e paredes do local, mas não foi ilegal - a instalação da Casa Cor foi autorizada pelo presidente do Condephaat, José Roberto Melhem."Não é ilegal, mas é imoral", diz o arquiteto Lúcio Machado, ex-curador da Bienal de Arquitetura de São Paulo. Segundo Machado, não houve discussão técnica no conselho em relação ao projeto de ocupação do casario. "A Casa Cor é cenário, ela transforma radicalmente um espaço, mas depois tudo aquilo é removível", afirmou o presidente do Condephaat, José Roberto Melhem, que atribui a grita a um mal-entendido. Ele disse que o estudo que serviu de base para a instalação da Casa Cor foi feito pelo serviço técnico do Condephaat. "É cenário puro."Melhem disse que autorizou a derrubada de algumas paredes no Umberto Primo, mas que os organizadores assumiram o compromisso de "repô-las iguaizinhas" e que suas funções eram apenas de divisórias. "Quando autorizamos a Casa Cor do ano passado no casarão da antiga unidade da Febem no Pacaembu, foi a mesma reação de escândalo", afirma. "Isso acontece porque a memória é fraca; e hoje o casarão está ótimo, eles deixaram benfeitorias, consertaram telhados e acabaram com os cupins que estavam atacando a madeira." O hospital pertence à Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil), que comprou o prédio do hospital em 1996 por R$ 42 milhões. Ao contrário da reforma da Luz, a ocupação da Casa Cor foi parar no Ministério Público estadual.

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