Reflexões sobre a traição de si mesmo

'Entre Nós', de Paulo e Pedro Morelli, parece convencional - mas não é

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2013 | 02h18

Depois de idas e vindas, o Festival do Rio encontrou uma nova casa para sediar as galas da Première Brasil, grande vitrine do cinema brasileiro. Alguns filmes foram penalizados, sendo exibidos em sessões improvisadas à meia-noite, e o festival ainda deve a seu público o novo Júlio Bressane, Educação Sentimental. Pode ser que as galas voltem hoje ao Odeon, em plena Cinelândia, que seria um palco de luxo para o documentário de Nelson Hoineff sobre Cauby Peixoto. Mas o Lagoon, na Lagoa Rodrigo de Freitas, fez as honras na quinta e na sexta-feira.

Com todo respeito pelo trabalho de Lina Chamie, que já mostrou seu longa na Première, Entre Nós é Os Amigos que deu certo. Parece mais convencional, até óbvio, mas não é. Paulo de Tarso Morelli, que se assina somente Paulo Morelli, não parecia tão interessante quando fez O Preço da Paz e Viva Voz. Já houve um upgrade em sua carreira quando fez Cidade dos Homens, o filme da série inspirada no êxito de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. O preconceito da crítica contra a Globo Filmes, que existe, não ajudou no reconhecimento de Cidade dos Homens. Talvez se crie certo preconceito contra Entre Nós, que é Globo (e O2) de novo. Pior para os preconceituosos.

Os melhores filmes brasileiros da Première Brasil de 2013 têm sido parcerias. O Homem das Multidões, livremente adaptado de Edgar Allan Poe, nasceu fora de eixo como uma coautoria entre o mineiro de Guimarães e o pernambucano Marcelo Gomes. Ambos praticam uma linguagem fora do eixo comercial que tem dado as cartas do mercado nacional - as comédias -, mas só louco para não reconhecer as qualidades de Minha Mãe É Uma Peça, de André Pellenz, com Paulo Gustavo, com seus quase 5 milhões de espectadores. O Homem das Multidões, no limite, radicalizou ao propor uma redução do quadro visual. Gomes e Guimarães propuseram uma tela quadrada para melhor expressar o sentimento de solidão que acomete seus personagens na cidade grande.

Paulo e Pedro Morelli tomam o caminho oposto. Paulo escreve e dirige. Pedro é seu filho, que ele chamou para codirigir. O garoto agradeceu, no palco do Lagoon, ao pai por sua generosidade, mas Paulo também deve agora a Pedro, porque o filme é tão melhor que seus precedentes que só a criação conjunta pode explicar o salto de qualidade. Em vez do quadrado, eles ampliam o retângulo para que nele caiba a paisagem. O filme passa-se numa casa localizada num platô nas montanhas de São Francisco Xavier. A grandeza da paisagem parece em contradição com o tom intimista do relato, mas, na verdade, os diretores e o fotógrafo Gustavo Hadba esmagam os personagens como o fazia David Lean em seus épicos. Não que Entre Nós tenha a ver, mas, como em Lean, quanto maior a paisagem - o deserto, o mar -, maior a dor dos personagens.

São amigos que, no começo do filme, em 1992, escrevem cartas endereçadas a eles mesmos, e que deverão ser abertas dez anos mais tarde, em 2002. Naquele mesmo dia, um dos integrantes do grupo morre num acidente. Há o mistério de um livro, que ele acabara de finalizar. No novo tempo, os jovens de 1992 formaram casais. Numa cena, as três mulheres (Martha Nowill, Maria Ribeiro e Carolina Dieckman) veem os parceiros jogar futebol e se perguntam como elas podiam aschar esses caras uns tesões? É um filme sobre a amizade, disseram os diretores. Não - é um filme sobre a traição.

Traição aos amigos, aos ideais, a nós mesmos. Os casais estão todos em crise, por motivos variados, e como diz Júlio Andrade, o 'crítico' do grupo, assim como Caio Blat faz o 'escritor', ele não sabe o que é pior - se abrir as cartas e descobrir que nada do que sonhamos se realizou ou se tudo se realizou e o vazio é o mesmo? O importante é que esse relato de traição termina se ampliando para refletir sobre o Brasil - a traição de nossos políticos. O elenco é ótimo, mas Martha Nowill e Paulo Vilhena têm uma cena de arrepiar.

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