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Reflexões sobre a obesidade

Historiador Georges Vigarello discute o seu novo trabalho, 'As Metamorfoses do Gordo'

Denise Bernuzzi de Sant'Anna,

20 Julho 2012 | 18h00

Gordura já rimou com formosura numa época em que o peso do corpo ainda não era um severo pesar. Mas seria errôneo supor que nossos antepassados acolhiam facilmente os obesos. Há séculos, repulsa e prestígio rondam os mais pesados e impõem regimes. Em seu último livro, agora traduzido e publicado no Brasil, o historiador francês Georges Vigarello esmiúça os elogios e críticas que, desde o fim da Idade Média, fizeram do gordo uma figura impressionante, objeto de reprovações morais e estudos científicos. É sobre o tema da obra que ele fala a seguir.

Seu livro mostra desde a condenação medieval da gula até a obsessão contemporânea com o excesso de peso. A partir de quando o obeso passou a ser visto como um doente?

Há várias histórias do gordo e dos muito gordos. As fronteiras entre eles nem sempre foram claras. Somente no século 18 surgem graus de gordura e a ideia de que os mais gordos não representam apenas um excesso quantitativo e sim uma desordem. Passa-se a falar mais em obesidade do que em corpulência. A palavra obesidade surgiu nos dicionários franceses daquele século, já relacionada à medicina. Embora venha do latim - obesitas -, eu raramente encontrei a palavra obesidade nos textos anteriores ao século 18. Mas o que me parece mais importante é a sua transformação numa ocorrência mórbida no século 19. É quando diversos problemas respiratórios, digestivos e circulatórios foram associados ao obeso. Desde então, os riscos se multiplicaram, assim como as patologias.

Existem, portanto, várias histórias na trajetória milenar do gordo e do obeso.

Sim, primeiramente existe a história moral, que atribui um comportamento transgressivo aos muito volumosos, como se sua gordura resultasse de uma gula incurável. Há ainda a suposição de que eles comeriam os alimentos que pertencem aos outros, transgredindo a ordem social. Em segundo lugar, existe a história estética do gordo, relacionada às categorias do belo e do feio. Em momentos de carestia, a saúde supõe barriga cheia e corpulência. Mas há ainda uma história do interesse médico. Para a medicina antiga, por exemplo, a saudável passagem dos humores entre as diversas partes do corpo podia ser obstruída pela gordura acumulada. Acreditava-se que seu excesso sufocava e enfraquecia.

Com o início da Idade Moderna, houve uma consciência mais apurada das formas físicas mas, mesmo assim, ainda não se distinguia bem o gordo do obeso?

Não era fácil situar onde começava o excesso, nem diferenciar o gordo do muito gordo. Mas quando o excesso de gordura era detectado ele já sugeria uma certa lerdeza, como se os muito gordos fossem necessariamente ineficazes, preguiçosos. No século 18, tudo se complica, pois o excesso de gordura passou a ser sinônimo de impotência.

Nessa época, quando se focaliza mais as fibras corporais do que os humores, já havia uma diferença nas maneiras de ver o obeso entre os sexos e as classes sociais?

Sim, a partir do Iluminismo, o olhar de todos se tornou mais sensível diante do obeso. Seu corpo deixou de ser apenas redondo para sugerir deformidades. No entanto, permitia-se ao homem a manutenção de um ventre proeminente, muito diferente da cintura fina exigida para a mulher.

O senhor mostra que uma das originalidades da década de 1920 foi o fato de muitos verem no obeso problemas até então imperceptíveis.

Sim, problemas acumulados no silêncio do corpo. O sentido da palavra obesidade ganhou em detalhamento e profundidade. A palavra passou a incluir fases avançadas do problema. Mas também houve uma dominação do critério estético. É este critério, sobretudo, que transformou a obesidade em algo recusado socialmente. O desenvolvimento do termalismo do século 20, em Vichy, por exemplo, acentuou a atenção perante os obesos. As revistas femininas, outro exemplo, começaram a mostrar com clareza que o corpo nos lazeres de verão podia trair as formas das roupas que o cobriam durante o inverno.

No Brasil, a banalização das balanças em farmácias ocorreu na década de 1960. Antes disso, nem todos sabiam o próprio peso, ele não fazia parte das identidades. Como o senhor vê essa história?

O mais importante era o volume do corpo e não o seu peso. Muitos se achavam gordos quando não conseguiam fechar seus cintos e quando as roupas ficavam justas. No começo do século 20, algumas balanças foram instaladas nas estações de trem e, nos anos 20, surgiu a valorização de uma magreza tonificada. Cresceram, desde então, os relatos sobre os problemas dos obesos assim como o desejo de modificar suas formas físicas, inventando uma nova anatomia.

 

DENISE BERNUZZI DE SANT’ANNA, AUTORA DA ORELHA DA OBRA DE VIGARELLO, É PROFESSORA LIVRE-DOCENTE DE HISTÓRIA DA PUC-SP E PREPARA O LIVRO UMA HISTÓRIA DE PESO, GORDOS E MAGROS NO BRASIL AO LONGO DE UM SÉCULO

 

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