Reflexões sobre a ciência histórica

Aula de 1970 - que discutiu as doutrinas de Fernand Braudel - rendeu ensaio no caderno em torno das ideias foucaultianas sobre o tema

MARIA BEATRIZ NIZZA DA SILVA, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ao proferir a lição inaugural do College France em dezembro de 1970, Michel Foucault, depois de expor as principais exigencias de seu metodo, fez um comentário sobre a ciência histórica, tal como é atualmente praticada em França, que se reveste de grande importancia para quem se preocupa com os caminhos abertos a esta ciência.

Em primeiro lugar, Foucault duvida que a direção indicada por Fernand Braudel seja a mais fecunda. É certo que o nome de Braudel não é expressamente referido, mas não pode haver duvidas quanto à alusão: "Atribui-se muitas vezes à história contemporânea a extinção dos privilégios outrora concedidos ao evento singular e o aparecimento de estruturas de longa duração" (L"ordre du discours, Paris Galimmard, 1971, pag 56). Basta falar em estruturas de longa duração, para o leitor se reportar imediatamente aos textos publicados por Braudel na década de 50, principalmente na revista Annales. Foucault acrescenta que não lhe parece ser este caminho o efetivamente seguido pelos historiadores nos ultimos anos, uma vez que a oposição entre evento e estrutura, tão acentuada nos textos metodológicos de Braudel, não se constata de modo algum nas pesquisas recentemente publicadas. Verificou-se como que uma recuperação do evento, através da substituição do evento isolado, válido por si só, graças a sua importância intrinseca, pelo evento em série, e inserido em séries cada vez mais variadas e abundantes: "... foi apertando ao extremo o grão do acontecimento, levando o poder de resolução da análise histórica até as mercuriais, aos atos notoriais, ao registros de paroquia, os arquivos pontuários seguidos ano após ano, semana após semana, que vimos desenharem-se, para além das batalhas, dos decretos, das dinastias ou das assembleias, fenômenos maciços de alcance secular ou plurisecular" (ibid., pag. 57).

(...) Certamente Foucault alude aqui, entre outros, ao trabalho de Pierre Chaunu, Sevelle et l"Atlantique (1550-1650), publicado em 1959, que pertence àquilo que hoje se denomina história serial, uma história que se interessa menos pelo fato individual que pelo elemento repetido, integral numa serie homogenea suscetivel de sofrer em seguida os processos matemáticos classicos da análise das séries. Evidentemente não é a quantificação - Foucault acentua -, mas sim que "a história, tal como hoje se pratica, não se afasta dos eventos". É que Foucault não pretende, de modo algum, cantonar o evento na curta duração como faz Braudel, e chama a atenção para o fato de os historiadores não considerarem atualmente um evento sem definir a série de que faz parte, sem especificar o modo de análise que esta exige. (...)

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