Reflexões sobre a arte em conflito

Dora Longo Bahia recria cenas de guerra na mostra Trash Metal

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

 

 

 

É a guerra, permeada pela ambiguidade, que se torna o centro explosivo da mostra Trash Metal, que Dora Longo Bahia exibe a partir de hoje para o público na Galeria Vermelho. O tema da violência, sempre intrínseco na produção da artista, ganha agora uma face mais direta nessa nova exposição: imagens de soldados em cenas de conflitos no Iraque, Afeganistão, Paquistão e Israel estão estampadas em pinturas sobre chapas encontradas em ferros velhos, ou ainda o som de um vídeo feito a partir de um game de guerra faz ecoar o barulho de metralhadoras pelo espaço expositivo. "O que é o mal? O que é o belo?", indaga e propõe Dora Longo Bahia, mais uma vez, com suas criações.

A artista faz sua estreia na Galeria Vermelho depois de pertencer, por 19 anos, ao time da galerista Luisa Strina. Para esta mostra, ela ocupa com suas obras quase que toda a Vermelho, desde a fachada do prédio, pintada de preto e com um desenho de uma caveira "grafitada". Dentro do espaço expositivo, apresenta instalações com pinturas, vídeo, fotografia e intervenções. "São várias maneiras de dizer a mesma coisa e acho importante que todos nós falemos do mundo em que a gente vive", afirma Dora.

Trash Metal une obras da artista realizadas entre 2009 e 2010, unindo elos entre o trabalho que Dora apresentou na 28ª Bienal de São Paulo, em 2008, e série que ela realizou no ano passado na Bienal do México.

Escalpos. Os chamados escalpos pertencem a uma vertente já identificada com a produção da artista. Trata-se de um tipo de pintura que ela realiza sobre suportes que não são "imaculados". Escalpo, pela definição simples, remete ao couro cabeludo tirado do crânio e que os índios usavam como troféu de guerra. Na criação da artista, ela se apropria de imagens e faz uma versão em tinta, com o verso sempre em vermelho, depois aplicando a pintura sobre um suporte. Por meio dessa ação, sempre áreas rubras - que, inevitavelmente, remetem ao sangue - surgem na composição.

Nos Escalpos Cariocas, que ela mostrou no Rio, imagens idílicas de paisagens eram o tema, mas agora, na nova série Escalpos Ferrados, estão sobre chapas de ferro cenas pintadas a partir de fotografias de jornais e de sites, em que aparecem militares nas zonas de guerra nas quais os Estados Unidos estão envolvidos. "Os soldados são sempre colocados como heróis", diz a artista. "É uma imagem pura, em que não há mortos, não há vítima, está sempre o herói. Mas quem é ele?", continua Dora, lembrando que o filme Guerra ao Terror acabou de ganhar o Oscar. Há já na entrada da galeria uma das pinturas dessa série, mas Escalpo Ferrado, na verdade, ganha sua potência no segundo piso da Vermelho.

Bunker. Dora revestiu todas as paredes da sala do andar superior da galeria com as chapas metálicas e grades trazidas de um ferro velho, o que confere ao espaço o aspecto de "bunker", como ela diz, de cores rebaixadas, de tons ferrosos. Nesse local, cinco pinturas de imagens dos soldados em ação, em cores artificiais (rosas, verdes luminososos, etc.) tornam-se cenas sobre aquele "corpo podre" de ferro - e pela chamada ação do "escalpo", as imagens parecem rasgadas, fazendo aparecer o vermelho que também está nelas.

Já no primeiro piso da galeria, Dora aplicou nas paredes a pintura em preto, cinza e vermelho inspirada nos padrões islâmicos e da mesma raiz dos "escalpos", que ela fez em todo o chão do terceiro andar do Pavilhão da Bienal, em 2008. Trazer a estampa geométrica islâmica já carrega em si o tema da violência, do conflito de não se poder fazer, nos países muçulmanos, a figuração. A obra, que antes era pisada na Bienal - e nessa ação fazia aparecer o vermelho -, agora, sobre a parede, se transforma em uma espécie de cenário. Mas é nessa sala que Dora extrapola o uso da ambiguidade ao colocar os vídeos Call of Dutty - Worl of War, com o game de guerra; e Tese IX, em que um menino está vestido de soldado e uma menina, em atmosfera em branco, lê texto de Walter Benjamin sobre tantos tempos de tempestade.

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