Reflexões de um cineasta

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2010 | 00h00

Klotzel. Inovação na estratégia de lançamento e maior proximidade com público nacional  

 

 

 

Reflexões de Um Liquidificador - já viu nome mais engraçado para um filme? Pois o título não é a única coisa diferente neste longa do diretor André Klotzel. Além de ser uma comédia de humor negro, gênero relativamente raro no cinema brasileiro recente, ele terá lançamento comercial diferenciado. Em vez de entrar em cartaz comportadinho, numa sexta-feira, chega às telas hoje, em plena segundona. "Chega às telas" talvez seja exagero - chega, na verdade, a uma única, porém nobre, tela, a da sala 3 do Espaço Unibanco, na Rua Augusta, um dos templos da cinefilia paulistana.

As novidades não param por aí. Antes do longa-metragem, será sempre exibido um curta-metragem. Serão oito no total, um para cada semana que Reflexões de Um Liquidificador deverá ficar no cinema da Augusta. O primeiro deles será o divertido Divino de Repente, de Fábio Yamagi, sobre o repentista Ubiraci Crispim de Freitas, o Divino, que conta a sua vida entre um verso e outro - ditos com graça e velocidade de metralhadora. A filmagem se vale também de técnicas de animação para contar a história do personagem. Nas semanas seguintes, outros curtas interessantes: Dossiê Rebordosa, Black-Out, Ernesto no País do Futebol, Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba e Avós. Além disso, nas sessões das 20 h e 22 h haverá shows de stand-up comedy, com quatro atores se revezando. No fim da sessão das 22 h, o diretor do curta discutirá seu filme com o público. Nas quartas, no mesmo horário, alguém do longa (o diretor ou uma pessoa do elenco ou roteirista) virá para conversar com o público. É muita coisa para um filme só, ou não é?

"Mas alguma coisa tinha mesmo de ser feita ou tentada", diz Klotzel, cansado de ver os filmes brasileiros entrarem e saírem de cartaz a toque de caixa. "Eu apresentei a proposta para o Adhemar Oliveira, do Espaço Unibanco, ele topou e ainda entrou com a ideia dos comediantes." A base é fazer do programa de ir ao cinema algo diferente, um evento, um acontecimento em si, algo único, que não pode ser feito em casa diante da TV. Criar atrativos adicionais, pois "os filmes não têm tempo de fazer sua carreira junto ao seu público potencial", diz Klotzel, lembrando-se de títulos recentes que poderiam ter ido muito mais longe do que de fato foram, como Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, e Olhos Azuis, de José Joffily.

Para encontrar esse nicho de mercado, o cineasta conta não apenas com essa inusitada estratégia de lançamento, mas também com um gênero que, acredita, tem seu público - uma comédia de humor negro que conta com trama sutil e bons atores para interpretá-la. Essa fábula paulistana tem como narrador um eletrodoméstico do tempo do onça, um liquidificador avariado que, depois de passar por um conserto, adquire consciência e passa a conversar com sua dona, Elvira. A voz do aparelho é de Selton Mello. Elvira (Ana Lúcia Torre) é uma dona de casa que vive com o marido já entrado em anos e de aparência pacata, Onofre, interpretado por Germano Haiut. Aramis Trindade (de Baile Perfumado) faz um sinuoso investigador de polícia, Fabíula Nascimento é a vizinha de Elvira, e o há pouco falecido Marcos Cesana faz papel de carteiro. Gorete Milagres entra numa participação especial. Tudo gira em torno do desaparecimento de uma pessoa, um possível crime e uma investigação.

 

Uma curiosidade adicional é que Reflexões de Um Liquidificador surge de um acidente de percurso na carreira de Klotzel. Ele estava preparando novo longa-metragem, inclusive com parte do dinheiro de produção já captado, quando entra em cartaz um título destinado a ser o grande sucesso do cinema brasileiro contemporâneo - Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho. "Quando vi o filme do Daniel, não acreditei e disse para mim mesmo: "Estou ferrado"." Por quê? O roteiro que ele iria começar a filmar, com o título De Corpo e Alma, era simplesmente a história de duas mulheres quer trocam de corpo, uma pela outra. Muito parecido com a trama do casal interpretado por Tony Ramos e Gloria Pires. "Não dava", admite Klotzel, "tive de abandonar o projeto e devolver o dinheiro." Surgiu então a ideia de adaptar o texto de José Antonio de Souza e Liquidificador tomou vida. Na voz e na malícia de Selton Mello.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.