Divulgação
Divulgação

Reflexões de um Almodóvar em crise

Em 'Os Amantes Passageiros', diretor usa avião como metáfora da Espanha

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2013 | 02h11

Você talvez se lembre de Quase Famosos, de Cameron Crowe. Havia uma cena muito sugestiva no filme inspirado nas memórias do jovem Cameron, quando ele, aspirante a repórter da revista Rolling Stone, acompanhou a turnê de uma banda de rock. Há um voo complicado, com direito a turbulência e despressurização. No auge do desespero, achando que vai morrer, um integrante da banda revela: "Sou gay". Mas o voo termina bem e o mal-estar da confissão está criado. Agora imagine um filme inteiro nesse clima. O novo longa de Pedro Almodóvar, Os Amantes Passageiros, passa-se num avião que não pode pousar por causa de um problema nos trens de aterrissagem. Acreditando que vão morrer, três integrantes da tripulação e os passageiros fazem confidências num clima de urgência, como se estivessem vivendo seu últimos momentos.

Javier Cámara, Carlos Areces e Raúl Arévalo integram a tripulação. Antonio Banderas e Penélope Cruz são alguns dos passageiros. De Almodóvar, o cinéfilo sempre espera o máximo, mas desta vez é bom refrear a expectativa. O grande autor espanhol apresenta seu filme talvez mais decepcionante, embora eventualmente divertido. Pode-se dar boas risadas com as indiscrições dos personagens de Os Amantes Passageiros, mas não muito mais que isso. Se a intenção do diretor era criar uma metáfora sobre a Espanha em crise, e tudo indica que sim, só com muita boa vontade o espectador vai viajar nessa dimensão mais "política" e "social" do filme.

É um Almodóvar menor, em crise de criatividade. Já houve momentos assim na trajetória do cineasta, valendo lembrar Kika, que mais parece ou oferece uma paródia das obsessões do autor. Anteriormente, Almodóvar superou essas más fases emergindo com grandes filmes como Carne Trêmula ou Tudo Sobre Minha Mãe. Não há por que duvidar que ele consiga se superar, mais uma vez. O começo até que é bom, ou melhor, ótimo. É impossível não rir com dois atores almodovarianos de carteirinha - Banderas e a bela Penélope. Os problemas começam a surgir em seguida, como se Almodóvar, grande roteirista - ganhou o Oscar da categoria -, tivesse perdido o rumo.

É como se ele voltasse ao humor de sua primeira fase, anterior a Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, quando praticava um cinema do escracho e do exagero. Os personagens compõem uma galeria um tanto insólita, na falta de adjetivo melhor - incluem a virgem com poderes premonitórios, os comissários de bordo gays, o ator que parte corações etc. O relato torna-se episódico, perdido no excesso de tramas paralelas. O bom é que Almodóvar nunca se permite ser sentimental - o melodrama só lhe interessa para exercitar a ironia. Rir da própria desgraça é sempre um mandamento do diretor.

Álcool e drogas começam a dar as cartas durante o voo. Contam-se histórias sobre o rei de Espanha e duas amantes e os passageiros da classe econômica são induzidos a um estado de torpor. Aliás, como Almodóvar, Marc Forster também critica as companhias de aviação em sua Guerras Mundial Z, que também estreia hoje. Numa cena da fantasia internacionalista com Brad Pitt, o astro olha pela cortina para a classe econômica e descobre que os zumbis estão devorando os passageiros. O filme de Almodóvar não tem zumbis, mas o inferno é parecido. Depois de Os Amantes Passageiros, tudo o que você não vai quer é viajar na econômica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.