Reflexo da crise de criatividade

Análise

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

A maior parte das pessoas pensa que um grande festival, como o de Veneza, é uma competição entre os melhores do mundo e que a nata do cinema de autor estará representada ali. Chato dizer, mas não é bem assim. Festivais se tornaram plataformas importantes de ressonância midiática e, portanto, sujeitos a pressões de todo o tipo, em especial as de ordem econômica. Cinema é dinheiro.

Basta lembrar que a Mostra Internazionale d"Arte Cinematografica (o nome completo do Festival de Veneza) teve este ano orçamento de 12 milhões de euros, dos quais sete vêm do governo italiano e cinco têm de ser buscados entre patrocinadores. Estes desejam ver suas marcas vinculadas aos astros e estrelas, segundo a lei da publicidade. Daí a necessidade de providenciar celebridades para dar entrevistas e brilho ao desfile pelo tapete vermelho. Elas são garimpadas entre os famosos locais e europeus mas, de preferência, entre norte-americanos, astros globais por força da indústria planetária de Hollywood. Isso vale para Veneza, Cannes e Berlim.

Se é preciso cortejar os americanos, também se faz necessário prestigiar a turma da casa, daí a quantidade de italianos em disputa, mesmo que a qualidade seja insuficiente. Essa necessidade ditou a criação de um segmento destinado unicamente a eles - o Contracampo Italiano - para garantir exibição e um prêmio certo. Mas há também o gosto pessoal do diretor da mostra, Marco Müller, romano e formado na cultura oriental, tem obsessão pela Ásia. Por isso não existe Veneza sem chineses, japoneses, asiáticos de maneira geral. Fora a questão pessoal, há aí uma jogada de ordem política, num período em que a geografia econômica mundial se inclina cada vez mais para a China. As mesmas razões explicam a sistemática ausência em Veneza de representantes da América do Sul, continente fraco na diplomacia cinematográfica mundial.

Bom nível. Mesmo com todos esses interesses agindo ora em sintonia ora em contradição, Veneza conseguiu realizar uma mostra de bom nível. Não ótimo. Apenas bom. Não se viu nenhum título excepcional, desses que dão a impressão de que vão mudar a história do cinema. Talvez eles não existam mais, como pontificou o espanhol Álex de la Iglesia, e estejamos condenados a repetir e misturar o que já conhecemos.

De qualquer forma, mesmo que com variações mínimas, alguma novidade e emoção surgiram em títulos como Post Mortem, Ovsyanki e Venus Negra, para citar como exemplos. Em seu processo de reciclagem desvairada, o próprio Balada Triste de Trompeta, de Iglesias, não deixa de ser bem interessante. O fato é que, mesmo com sua curadoria cheia de compromissos e em aparência estagnada, Veneza em 2010 não fez mais do que refletir a crise de criatividade do cinema mundial contemporâneo.

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