tiago Queiroz/AE
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Referências ao passado e contundência contemporânea estão na obra de Varejão

Museu de Arte Moderna de São Paulo realiza mostra panorâmica dedicada à trajetória da artista

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

30 de agosto de 2012 | 03h11

Mapa de Lopo Homem II (1992- 2004) é um óleo sobre madeira de Adriana Varejão em que uma cartografia utópica do século 17 está rasgada e tem uma região de sua entranha de carne suturada com linha. "Quando falo deste mapa, que propõe uma continuidade territorial entre China e Brasil, estou falando de uma comunicação entre o mundo no início da década de 1990, da ideia de multiculturalismo; estou pensando no presente, na verdade", explica a pintora. Adriana Varejão tem sempre um olho no passado, mas, como afirma, para "arejá-lo com ventos" contemporâneos. "Há uma frase que adoro, não sei onde li, que diz que os artistas são como minhocas que arejam a linguagem."

Se sua obra tem uma bandeira, é a da miscigenação, ela frisa. A "cartografia varejão" também busca nos livros de história iconografias sobre canibalismos, o academicismo dos pintores Nicolas-Antoine Taunay e Pedro Américo, por exemplo, seculares pinturas chinesas, a azulejaria (incluindo a de botequins) e a colonização portuguesa - e agora, em sua pesquisa recente, a "cerâmica exagerada" de Bordallo Pinheiro. "Como um tecido, sem hierarquias, meu trabalho fala de uma identidade que se molda. A ideia é que a história nunca é dada, é sempre algo que você pode retornar, reconstruir, refazer", diz Adriana, que abre na segunda-feira a mostra Histórias às Margens, no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Neste balanço panorâmico sobre sua trajetória nos últimos 21 anos, a exposição, com curadoria de Adriano Pedrosa, começa com um autorretrato, Chinesa (1992), óleo sobre tela em que a artista se representa com agulhas de acupuntura no rosto. A exposição termina também com uma obra do mesmo tipo, inédita e vermelha, em que Adriana se apresenta em meio a frutas e tem uma pintura corporal indígena sobre a face. Autorretratar-se em trabalhos é uma recorrência na produção da artista, segmento que tem como ponto alto o trabalho Testemunhas Oculares X, Y e Z (1997), exibido apenas uma vez no Brasil e que agora retorna ao público na mostra Histórias às Margens no MAM.

"Escolhemos as obras mais representativas de cada série de Adriana, não é uma leitura nova sobre o trabalho dela", observa Pedrosa. O esforço se deu, principalmente, em trazer peças de coleções particulares ou institucionais dos EUA, Espanha (como do acervo da Fundação La Caixa), Inglaterra e Argentina, por exemplo. Como conta Adriana, a mostra conseguiu o empréstimo, de Costa Rica, de um dos quadros da série de dois trabalhos Proposta para Uma Catequese (1993). "É um trabalho muito importante, insistimos para que estivesse aqui", diz a criadora.

A expografia dos designers Rodrigo Cerviño Lopez (arquiteto, inclusive, da galeria permanente da artista no Instituto Inhotim, em Minas Gerais) e Fernando Falcon fez com que a exposição se edificasse a partir de um grande corredor na Grande Sala do MAM, por onde se bifurcam salas com conjuntos de obras da pintora. O trabalho mais antigo é Milagre dos Peixes, óleo e gesso sobre tela de 1991, e há ainda um grande painel com 54 pinturas, de 1 m x 1 m cada uma, de motivo vegetal e craqueladas, pertencentes à série das Carnívoras, obra criada especialmente para a exposição - e poderá ser apreciada também pelo lado exterior do MAM através das paredes de vidro que dão para o Parque do Ibirapuera.

"Gosto de arte forte, da contundência", diz a artista, que quando traz a referência à carne e aos rasgos em suas obras resgata a "volúpia barroca", mas também a linhagem tradicional da história da arte da pintura de bodegón, "desde o século 15", e trabalhos de criadores como Goya, Rembrandt, Soutine, Francis Bacon, ela enumera. Mas, ressalta Adriana, a questão da paródia também é recorrente, pois por meio desse artifício é possível interferir na história "com o olhar crítico", "introduzir novos elementos". "Minha obra não é fácil, ela não tem certa exuberância relacionada ao Brasil."

Só que nem tudo são carnes na mostra de Adriana Varejão. A exposição ainda apresenta trabalhos da série das Saunas, como a grande e bela pintura azul O Sedutor (2004) , exercício pictórico puro da questão da perspectiva e representação de espaço arquitetônico, como exemplos de seus recentes trabalhos circulares, pintados sobre fibra de vidro e resina que fazem referência à maternidade e a lendas marítimas.

ADRIANA VAREJÃO

MAM. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3, Parque do Ibirapuera, tel. 5085-1300. 3ª a dom., 10 h/17h30. Grátis. Até 16/12. Abertura segunda-feira, 3 de setembro, às 20 horas

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