Robson Fernandjes/ Estadão
Robson Fernandjes/ Estadão

Referência da arte contemporânea, Christian Boltanski cria instalação para São Paulo

'Sou minimalista sentimental', diz o artista francês, que abre mostra no Sesc Pompeia

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2014 | 02h10

"Sou um minimalista sentimental", diz o artista francês Christian Boltanski. Em 2012, quando exibiu Chance na Casa França-Brasil do Rio, a obra, que o havia representado na Bienal de Veneza de 2011, tratava de uma engrenagem sobre destino e acaso. Agora, em São Paulo, ele coloca outra questão essencial de suas criações, o tema da vida e morte na instalação inédita 19.924.458 +/-, que será inaugurada hoje à noite no Sesc Pompeia.

No espaço de convivência da instituição, 950 torres feitas de papelão e listas telefônicas traduzem a metrópole e sua população. Entre os milhares de nomes impressos, já não sabemos quem vive e quem já deixou de existir. Mais ainda, um flash de luz a cada dois minutos e 40 segundos indica que uma pessoa nasceu na cidade e um apagão a cada seis minutos expressa que alguém morreu em São Paulo. Depoimentos de imigrantes, projetados de 25 das torres da instalação, como totens sonoros, completam a obra.

No sábado à tarde, com vista para o mar de prédios da metrópole, no Terraço Itália, o artista afirmou que não quis reproduzir São Paulo na instalação, mas criar um retrato da "fragilidade da vida". Abaixo, trechos da entrevista com o artista, que hoje, às 19 h, realiza palestra no Sesc Pompeia.

Quando o senhor teve as primeiras ideias para desenvolver esta obra?

Já estive em São Paulo tempos atrás, mas há dois anos passei um dia inteiro na cidade, o que me deu uma grande impressão, pensei: Quantas pessoas aqui. Sou um interessado pelas pessoas comuns. E em São Paulo, mais do que outro lugar, há tantas vidas. A beleza da cidade é essa diversidade de pessoas. Primeiro, foi importante para mim escolher o Sesc Pompeia porque essa peça seria totalmente diferente se apresentada em um museu. É um espaço público, com visitantes que, muitas vezes, não sabem nada sobre arte. Para mim, fazer arte é fazer perguntas e dar emoção. Quero tocar pessoas que não sabem nada de arte. Se uma pessoa sabe, cria um rótulo, e a obra deixa de ser tocante. Pode parecer uma brincadeira, mas se alguém vai a uma mostra minha e diz que Boltanski é um bom artista pós-conceitual do século 20, então penso que minha arte é muito ruim. Com esse trabalho, queria fazer algo minimalista e, ao mesmo tempo, sentimental. É ridículo dizer, mas sou um minimalista sentimental. É uma peça sobre as pessoas de São Paulo, mas também sobre como a vida é curta. E por isso a obra parece um cemitério.

A instalação parece uma espécie de monumento e faz lembrar, de certa forma, o Memorial do Holocausto, na Alemanha. O senhor concorda?

Sim. Quando disse que o trabalho se parece com um cemitério, é quase como dizer que é um monumento. Mas, ao mesmo tempo, é como uma cidade. São páginas de listas telefônicas - e não há mais delas em São Paulo -, tivemos de procurá-las em outro lugar (em Jundiaí, conta o curador Marcello Dantas). Algumas das pessoas cujos nomes estão na lista estão na cidade e outras, não mais. Há todos esses nomes, mas alguns já nos faltam. É uma peça minimalista. E você pode ficar perdido dentro dela. O Memorial do Holocausto é completamente sólido, e em meu trabalho, as torres não são de bronze ou pedra, são de papel, muito frágeis e, claro, falam da fragilidade da vida. Depois, serão destruídas indicando que nada é para sempre.

O senhor já disse não ser um artista político. Que seu trabalho é moral.

Não, isso seria muito pretensioso. Não sou um artista político. Faço perguntas como qualquer pessoa faz. E não acredito que exista um artista moderno. A arte faz as mesmas perguntas há anos. Na arte moderna, na Idade Média. E para algumas não há respostas. É uma obra sobre vida e morte, sobre estarmos só. São as mídias que mudam. Mas alguém poderia perguntar: Há progresso na arte? Não, não há. A arte não é melhor hoje do que há 20 anos. A pergunta é sempre a mesma, mas a linguagem é diferente. Não sou um artista político. Não sei nada sobre São Paulo ou sobre o Brasil. A instalação é uma obra sobre pessoas.

E como foi o processo criativo da obra, feita especialmente para São Paulo?

Foi lento. Primeiro, não queria usar papelão, mas apenas listas telefônicas. Não foi possível porque necessitaríamos de milhares de listas telefônicas. E, minha primeira ideia foi também colocar uma máquina para destruí-las. A peça ficaria vazia até o final da exposição. Construo obras grandes e já fiz criações para ópera, por exemplo, trabalhos para apenas uma semana. Já Chance, que estava na Bienal de Veneza, está sendo agora apresentada na Austrália numa versão muito maior. Penso, então, minha obra como uma partitura musical. Agora, toco minha própria música, mas quando estiver morto, gostaria que as pessoas tocassem a minha música. O trabalho vai mudar com o tempo. Agora, o que faço são grandes projetos ou projetos permanentes, como em Teshima (no Japão), na Tanzânia - vendi minha vida a um homem da Tanzânia.

Ao mesmo tempo, seu projeto 'Arquivos do Coração' também será realizado em São Paulo. Poderia contar algo sobre ele?

Criei esse projeto há mais ou menos sete anos. É uma máquina simples, com um estetoscópio e um computador para coletar batimentos cardíacos. No Japão, em minha fundação em uma ilha, Teshima, há um arquivo de batimentos cardíacos para qualquer um ouvir. A obra é o arquivo. Vamos capturar batimentos em São Paulo também. Por um dólar a pessoa tem seu batimento gravado e isso vai para o Japão.

Vendo esta vista da cidade, a sua obra pode até parecer um pouco claustrofóbica.

É tão populosa a cidade. Mas a obra não é uma cópia de São Paulo. Nem apenas relacionada a ela. Temos som, textos, tem depoimentos de imigrantes sobre seu primeiro contato com a cidade. É um retrato humano.

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