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Refeição de avião

Tentamos abrir a manteiga sem que nenhuma catástrofe ocorra naqueles traiçoeiros 60 cm²

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2018 | 02h00

Há, na vida, uma série de coisas que são praticamente sinônimos de desconforto. Cinta modeladora, encontro de 5, 10, 30 anos de formados, sapato de bico fino, banco de igreja, restaurantes com mesas muito próximas, nos quais se pode ouvir a conversa alheia. Todavia, acredito que poucas coisas consigam ser mais desconfortáveis do que comer no avião.

Nem vou entrar no mérito da qualidade das refeições. Entre melhores e piores, nos deparamos com aspargos que parecem dedos necrosados, sanduíches refrigerados que transpiram, deixando a parte de baixo do pão molhada, bem como com carnes que não conseguimos identificar como sendo frango, peru, porco, cavalo, hiena ou dromedário. 

Mas deixemos o foco na parte prática da refeição. Tudo começa com uma sutil, porém latente, ansiedade que se instala nos passageiros alguns instantes depois da decolagem que consiste basicamente na pergunta “quanto tempo falta para vir a comida?”. É preciso destacar que isso não tem a ver com fome. Tem a ver com o espírito que toma conta de todos nós quando estamos dentro de uma aeronave.

Num dado momento surge o carrinho. E aí vem a segunda parte da ansiedade que é “será que ele vai parar perto de mim ou será que serei dos últimos a comer?”. Algumas pessoas, já muito habituadas a viagens, já sabem qual a fileira certa para sentar e começar a comer logo. É uma dinâmica sinistra.

Cedo ou tarde chega o carrinho com a temida pergunta: carne ou peixe? Frango ou massa? Nesse momento somos inundados por uma angústia ímpar. Qual será a decisão correta? Nos daremos bem? Nos daremos mal? Alguns passageiros esticam seus pescoços tentando ver se os passageiros da fileira da frente já abriram suas quentinhas, para ter mais alguns elementos para tomar a temida decisão.

Uma vez decidido, recebemos a bandeja, frequentemente composta também por um pãozinho e uma manteiga e, por vezes – dependendo da duração do voo, do quão econômica é a tarifa e do quão espírito de porco é a companhia – uma saladinha e, eventualmente, uma sobremesa. 

Paralelamente a isso, perguntam-nos acerca da bebida. E as dúvidas também são muitas: vinho? Para ajudar a dormir? E se der dor de cabeça? E se inchar ainda mais os pés? Coca? A cafeína vai atrapalhar o sono. Cerveja? Vai dar vontade de fazer xixi. Suco? Só tem de laranja, pode dar azia. Talvez uma água mesmo. Na hora de pegar a bebida, um pequeno pânico: e se cair? E se a aeromoça tiver mão de alface? E se molhar o passageiro ao lado? E se ele derrubar a bebida dele em mim? E se for vinho tinto? Ai Deus.

Na sequência se inicia a fase mais crítica que consiste no uso de talheres. O espaço é pequeno, você não sabe onde colocar as tampas, outros cotovelos se movimentam ao lado, a pessoa do assento da frente se mexe e sua refeição treme, se você se mexer, tremerá a refeição do de trás. De brinde: senhores passageiros, estamos atravessando uma zona de turbulência, queiram por gentileza permanecer sentados e com o cinto de segurança afivelado. Só esquecem de dizer: e coloquem a mão por cima do copo porque sua bebida vai pular toda para fora.

Posicionando nossos braços como tiranossauros rex, tentamos cortar a carne, tentamos rasgar o pão, tentamos abrir a manteiga sem que nenhuma catástrofe ocorra naqueles traiçoeiros 60 centímetros quadrados. Se houver sachê de tempero para a salada, melhor nem tentar, vai por mim.

Com maiores ou menores danos, a refeição termina. Alívio. Tudo o que você quer é fechar a mesinha e movimentar suas pernas, que estão paralisadas há 40 minutos. Mas é exatamente nessa hora que a tripulação não aparece para tirar as bandejas. 5 minutos de demora parecem 3 horas. A fila do banheiro cresce. Cadê eles? Cadê? Tá doido, era melhor não ter comido nada. Nunca mais passo por isso. Mentira.

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