Refazendo a história

Vik Muniz recria em mostra obras célebres com 'décollages' que vão de Courbet a De Kooning

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h16

Primeira individual de Vik Muniz na Galeria Nara Roesler, Pictures of Magazine 2 começou, na verdade, no maior aterro sanitário da América Latina, no Jardim Gramacho, no município carioca de Duque de Caxias, onde eram despejadas diariamente 7 mil toneladas de lixo até maio do ano passado, quando foi fechado. Há três anos, o artista, em parceria com os catadores locais, realizou reproduções de obras de arte com fragmentos de objetos atirados ao aterro, que deu origem ao documentário Lixo Extraordinário, indicado para o Oscar em 2011. A experiência foi depois aprimorada com recortes de revistas para formar, como num quebra-cabeças, pinturas conhecidas do circuito de museus, entre elas duas relacionadas entre si, a polêmica tela A Origem do Mundo (1866), do francês Gustave Courbet, hoje no Museu d"Orsay, que escancara uma vagina em primeiro plano, e sua possível dona, a modelo irlandesa Joanna Hiffernan (ca.1843-1903), amante do pintor americano James Whistler - e provavelmente também de Courbet, o que explicaria a separação dos dois pouco tempo depois de concluída a pintura.

Quatro anos antes, em 1862, Whistler havia retratado Joanna numa tela (veja ao lado) hoje pertencente à National Gallery de Washington, chamada Symphony in White n.º 1 (The White Girl), para alguns críticos uma alegoria da inocência perdida - e para outros, uma representação da Virgem Maria. Seja como for, Vik Muniz estava menos interessado na alusão ao mundo metafísico e mais ao mundo físico quando realizou a série de fotografias em grande formato (mais de dois metros de largura por 1,80 m de altura). "Essa série começa com o uso do material em colagens feitas com imagens de revistas recortadas, não com a intenção de fazer paródia da história da arte, mas como uma tentativa sincera de criar novas imagens com telas históricas."

Entre esses ícones de museu, além dos quadros citados, estão uma releitura de um vaso de flores do impressionista francês Claude Monet (1840-1926), uma paisagem brasileira com uma orquídea e três colibris, feita pelo romântico norte-americano Martin Johnson Heade (1819- 1904), além de uma mulher ao espelho retratada em 1841 pelo neoclássico dinamarquês Christoffer Wilhelm Eckersberg (1783 -1853). "Tenho paixão pelos pintores escandinavos por causa das relações desses com a psicologia", justifica Muniz, lembrando que Eckersberg foi pioneiro na área antes de Charcot. Muniz também queria ser psicólogo e arranjou um jeito de não ficar frustrado também como pintor, induzindo o espectador a uma percepção gestáltica do seu trabalho de "décollages" recortadas e subtrativas.

Como assinala o crítico inglês Christopher Turner no texto do catálogo, elas lembram as obras de artistas do vanguardista grupo Fluxus, como Al Hansen, conhecido por ter recriado a Vênus de Willendorf com bitucas de cigarro e latas de Coca-Cola. Turner esqueceu de mencionar a principal influência de Vik Muniz nessas décollages: o artista calabrês Domenico "Mimmo" Rotella (1918-2006), que integrou o movimento francês Nouveau Réalisme, criado em 1960 pelo crítico Pierre Restany. Rotella costumava rasgar pôsteres e criar com esses fragmentos uma "décollage" pós-cubista com a matriz dadaísta do ready-made. Descobriu essa vocação depois de uma crise em que interrompeu sua produção pictórica, da mesma forma que Vik Muniz virou fotógrafo ao abandonar a pintura e retomá-la por via inversa por meio da fotografia.

"Ao mudar para Nova York, trabalhei como copista, pintando marinhas", conta o artista, que até nisso se identifica com a biografia de Eckersberg, igualmente um pintor associado a navios, tema favorito do dinamarquês. Muniz encontrou uma de suas réplicas, que vendia por US$ 250 e assinava com nome fantasia (holandês), por US$ 3.500, num antiquário de Nova York. Mas não comprou. Preferiu investir seu dinheiro num quadro original de Courbet de 1865 - "uma marinha triste com o mar esverdeado batendo nas pedras, que troquei com um colecionador por trabalhos meus". Vale lembrar que Muniz é o segundo mais valorizado artista brasileiro, atrás apenas de Beatriz Milhazes.

Copista, Muniz "venera" o que reproduz. Uma de suas fixações é o austríaco Gabriel Cornelius Ritter von Max (1840-1915), parapsicólogo que pintou o retrato de Anna Katharina Emmerich (1774-1824), mística alemã que recebeu os estigmas de Cristo aos 24 anos e foi canonizada pelo papa João Paulo II, há nove anos. "As pessoas me cobram novidades, mas não cedo a pressões e nem penso em fazer obras-primas, achando mesmo que a colagem pode servir como um grande instrumento de educação artística." O público terá até 11 de maio, quando termina sua exposição, para avaliar se ele é ou não um bom professor.

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