Reescrevendo a história

João Goulart foi deposto em 1964 para barrar o avanço vermelho sobre nossa terra

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

05 de outubro de 2019 | 03h00

Como chegamos a esse ponto? Viram no que deu? Não dava para prever? Política é complexa. Mas a história ajuda a descobrir decisões erradas, traições, expor a ingenuidade dos sujeitos que a fazem.

Numa fria segunda-feira, 20 de fevereiro em 1933, em Berlim, carros estacionaram diante do palácio da chancelaria. Deles descem Gustav Krupp, Wilhelm von Opel, Albert Vögler, Wolfgang Reuter, doutor Stein e outros. 

Vestiam casacos pesados, chapéus, e mergulharam pelas escadas e corredores da presidência do Reichstag que seria, em meses, incendiado pelos nazistas, num episódio infame em que culparam os comunistas, justificaram o fechamento do congresso e a instauração da ditadura. 

Como Getúlio fez anos depois no Brasil, no episódio conhecido como Intentona Comunista. João Goulart foi deposto em 1964, num golpe civil-militar, para barrar o avanço vermelho sobre nossa terra garrida, em que fulguras, ó Brasil, florão da América. Regime que também por conta de subversivos comunistas virou uma ditadura apenas militar em 1968.

Hermann Goering, presidente do Reichstag, veio acolhê-los, dar as palavras de boas-vindas. Logo evocou as próximas eleições de 5 de março. Queria o apoio financeiro das 24 figuras conhecidas pelo nome jurídico de Basf, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telefunken e outros.

Se o partido nazista conseguisse maioria, seriam as últimas eleições dos próximos dez anos, disse Goering. E corrigiu, com sua risada histriônica: Cem anos! Então, portas se abriram, e o novo chanceler, Hitler, apareceu descontraído, sorridente, até amável.

Todos ouviram Hitler falar por meia hora. A proposta era acabar com o regime fraco, fechar sindicatos e afastar a ameaça comunista. Para isso, precisavam de dinheiro para a campanha eleitoral. 

Krupp doou um milhão de marcos. São os homens por trás da produção de carros, máquinas de lavar, produtos de entretenimento, rádios, relógios, seguradores, baterias, aço, que fizeram parte do nosso cotidiano. E que mudaram a história, ajudaram a destroçar o mundo, a vida de milhões.

A cena está contada no livro A Ordem do Dia, de Éric Vuillard, que escreveu depois de vasta pesquisa. Com ele, venceu o Prêmio Goncourt

A história se repetia na sede da Fiesp, em que o empresário Henning Boilesen, da Ultragaz, um entusiasta dos métodos praticados nos porões da Oban para combater a subversão, o inimigo, passava o chapéu para financiar órgão da repressão brasileira durante a ditadura.

O que se passa na cabeça de alguns empresários? O que se passava na cabeça daqueles que financiaram a aventura do desconhecido e descontrolado Fernando Collor, em 1989, candidato que disputava uma eleição com os líderes da redemocratização: Ulisses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola e Lula.

História não é uma pedra sólida. Ela rola na correnteza do tempo e muda de formato. E, se observada, pode denotar algo visto de um lado, e outra coisa vista de outro. Assim como pode ser uma terceira coisa sob as lentes de um microscópio. História pulsa. Vive. Tem humores. Adapta-se. É surrada e acariciada por inimigos. Vira boi de piranha.

Para muitos, o que ocorreu entre 2014 e 2016 no Brasil foi um golpe de Estado. Especialmente para aqueles que viveram outros golpes. Temer usou recentemente a palavra golpe no programa Roda Viva. Duas vezes: “Jamais apoiei ou fiz empenho pelo golpe”.

Depois de falar com Lula, que tentou demover do PMDB a ideia do impeachment, disse: “Mas a essa altura, eu confesso que a movimentação popular era tão grande e tão intensa que os partidos já estavam vocacionados, digamos assim, pela ideia do impedimento (...). Esse telefonema do Lula revela que eu não era adepto do golpe”.

Aloysio Nunes Ferreira, embaixador de Marighella em Paris, embaixador e articulador do PSDB no impeachment e no governo Temer (ministro das Relações Exteriores), afirmou: “Não é possível, em um processo judicial, em um país civilizado, um juiz e os procuradores se comportarem da forma como se comportaram. Processo judicial exige um juiz independente, imparcial, que dê iguais oportunidades tanto à defesa quanto ao Estado provarem seus argumentos”.

Afirmou que Moro e o MP “manipularam o impeachment, venderam peixe podre para o Supremo Tribunal Federal. Isso é muito grave”.

Depois de criticar a Lava Jato e o vazamento do áudio da conversa entre Dilma e Lula, disse: “Lula, que dizem que foi um governo socialista, governou com a direita. Teria rapidamente condições de segurar a base política. Porque o impeachment é um processo jurídico – crime de responsabilidade –, e político. Ele, pelo menos em relação à questão política, talvez tivesse condição de recompor. Foi exatamente por isso que eles procuraram barrar, como conseguiram, a posse de Lula”.

Janaína Paschoal, autora do pedido de impeachment, admitiu que o impeachment da Dilma não foi por conta de pedaladas fiscais, mas por motivos políticos. Marta Suplicy, do time de fundadores do PT, mostra-se arrependida por ter trocado o partido pelo MDB, por ser “contra a corrupção”, e defende agora a liberdade de Lula. Então vem o procurador Rodrigo Janot, um dos pilares do golpe, dizer que foi chantageado por Eduardo Cunha.

O jornalista Kennedy Alencar resumiu a indignação de muitos: “O jornalismo não deveria defender métodos usados por Moro, Dallagnol e cia. na Lava Jato. Eu não consigo. Vejo ambição autoritária para chegar ao poder. Não vejo Justiça. Vejo manipulação da opinião pública e interferência ilegal na História do País. Passaram de todos os limites”.

Elio Gaspari citou uma frase do ministro do STF, Alexandre Moraes, que diziam ser um braço do PSDB na Corte: “Dizer que devido processo legal atrapalha o combate à corrupção seria semelhante a dizer que direitos humanos atrapalham o combate à criminalidade”.

Sob fogo cruzado da polarização insana que alimenta termos da Guerra Fria, encerrada há três décadas, porém sempre resgatada quando se precisa dela, estão nas primeiras linhas da fala de Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia da ONU: “Apresento aos senhores um novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo”. Socialismo? Que papo-furado, irmão...

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