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Humberto Werneck
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Reencontro marcado

Eu andava pelos 12 anos de idade quando, no Colégio Estadual de Minas Gerais, um colega me mostrou um livro e segredou: tem sacanagem! E não é que tinha? Além de excitado, fiquei pasmo: seria o mesmo Fernando Sabino das crônicas semanais na revista Manchete, irmão do nosso vizinho dr. Gerson, amigo e ex-técnico de basquete do meu pai no Minas Tênis? Era.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h10

Tratei de ter meu exemplar de O Encontro Marcado, em cujas páginas a sacanagem, aliás rala, não tardou a me interessar menos do que as estripulias com que três moços talentosos e irreverentes - um deles, Eduardo, inspirado no próprio Fernando - sacudiam a letargia da Belo Horizonte dos anos 30 e 40. Não havia como não me identificar com a rapaziada, ainda mais que era, também eu, 20 anos mais novo, um aspirante à literatura. Muitas de minhas erráticas leituras de adolescente foram guiadas pelos nomes - Drummond, García Lorca, Fitzgerald, Unamuno, Gide, Knut Hamsun - respigados nesse romance que boa parte de minha geração leu e releu quase como bíblia literária e existencial.

O Encontro Marcado foi para nós um alumbramento. A gente queria escrever daquele jeito, viver aquelas aventuras, subir nos arcos do viaduto de Santa Teresa, aprontar bagunças divertidas e inteligentes na pasmaceira belo-horizontina, a gente queria ser Fernando Sabino, que rimava intelectual com jovial, que tinha casado cedo e ido morar no Rio, que tinha passado dois anos em Nova York quando a meca era Paris. Um caso raro de escritor brasileiro que tinha matrizes também na literatura, na cultura americana. Seu grande romance (assim como tantas de suas crônicas) era, continua sendo, um fabuloso repositório de truques para narrar uma história, aqueles cortes bruscos, o vaivém no tempo, o passado insinuado no presente, a economia verbal, a velocidade... Nostalgia à parte, o encanto desse livro continua vivo para o leitor maduro - e ao mesmo tempo fala às gerações mais novas sem a rouquidão do velho. Envelheceu sem rugas.

Fui conhecer Fernando Sabino em 1962, quando, aos 39 anos, ele visitou nosso colégio - o mesmo de que, em outro prédio e com outro nome, Ginásio Mineiro, fora aluno. A visita foi assunto da edição de novembro de A Inúbia, jornal escolar que década e meia antes ele ajudara a criar. Para mim, aos 17, foi a glória fazer no mesmo número minha estreia tipográfica, com um texto gaiato, "Férias no Paraíso".

Fui reencontrar Sabino em 1967, quando, estando ele em Belo Horizonte, seu amigo Murilo Rubião (que, sete anos mais velho, o chamava de "Benjamin") no-lo apresentou, como diria Jânio Quadros. Fomos, uns tantos frangotes da literatura, tomar com os dois uma cerveja, nós muito empertigados nas nossas camisas esporte, ele super à vontade, cariocal a mais não poder, no seu terno e gravata.

Para um dos moços, que não gostaria de ver seu nome aqui, o encontro acabou mal. Ele havia publicado um livro de contos e, mesmo sem conhecê-lo, dedicou-o a Fernando Sabino. O homenageado mal folheou a obrinha de estreia, manifestando mais interesse pelo desenho da capa do que pelo conteúdo do volume mimeografado. Pior que isso, esqueceu-o no bar. O autor, orgulhoso, viu e deixou ficar. Anos mais tarde, contei a história a Fernando - e ele quis morrer. Agoniado, pediu o telefone do contista, que morava em São Paulo, e anunciou a intenção, não sei se realizada, de tomar um avião no Rio só para lhe pagar um uísque no aeroporto de Congonhas.

Em 1976, repórter da Veja, fiz com ele uma entrevista a propósito dos 20 anos de lançamento do O Encontro Marcado. Tenho ainda as fitas gravadas. Sabino estava enredado na espessa angústia de um escritor que, acossado por cobranças de um segundo romance, chegara a declarar a morte da literatura de ficção. Daria a volta por cima três anos depois, com o encorpado sucesso de O Grande Mentecapto.

Bom de crítica e melhor ainda de livraria, em 1991 Fernando Sabino teria a sua poupança literária confiscada por Zélia Cardoso de Mello - mais exatamente, por Zélia, Uma Paixão, biografia da ministra da Economia do governo Collor. Crucificaram-no. Perdeu amigos. Não exatamente por ter escrito um mau livro, mas pela escolha da, digamos, heroína. Quantos de seus detratores leram Zélia? Depois disso, fechou-se em copas, num dolorido encolhimento para o qual pesaram também o fim de um amor e a morte dos amigos fundamentais - Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Mas não abandonou a literatura. Consolidou a sua obra, que é de bom tamanho. Rasgou aquilo que já não queria ter sob o seu nome. Raros escritores terão sido tão fiéis à paixão literária, cultivada dos 12 anos, idade em que publicou o primeiro conto, aos 80, quando, cinco meses antes de morrer, desenganado, lançou o romance Os Movimentos Simulados. Foi, disse Silviano Santiago, um perseguidor do Santo Graal da literatura.

Nove anos se passaram desde a morte de Fernando Sabino, que no sábado que vem chegaria aos 90. É mais que hora de exorcizar musas de baixa extração e devolver a um mestre da moderna prosa brasileira o que lhe é devido.

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