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Ignácio de Loyola Brandão
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Reencontrei as mulheres de Ocara

Em 2006, fui a Ocara, cidade do sertão cearense, que produz castanha e mel. Pela primeira vez viam um escritor. No final, duas mulheres se aproximaram. Uma, emocionada, disse que era analfabeta, mas gostaria de ler, porque devia ser muito bonito saber tantas histórias. A outra fez duas perguntas: "Como o senhor escreve? Como coloca as letrinhas no papel. A segunda: o senhor compra suas palavras, assim como compro minhas sementes para plantar?".

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2014 | 02h06

Ao sair, a que não sabia ler, me deu um litro de mel, "feito pelas abelhas do seu quintal", disse. Escrevi uma crônica no Caderno 2, confessando: "Magnifico cachê. Nada me tocou tanto quanto aquele mel puro, vindo de uma mulher que não sabia ler". Saí de Ocara sem ter os nomes das mulheres. Quando escrevi o texto, juntei as falas em uma personagem só. Durante anos, pensei naquelas duas. Cada vez que passava pelo Ceará, imaginava revê-las. Como encontrá-las? Nem sequer sabia os nomes. Teria alguém contado a elas da crônica, também inserida no livro O Mel de Ocara?

Semanas atrás, aconteceu a segunda Flaq, Festa Literária de Aquiraz, cidade que foi a primeira capital do Estado. Durante cinco dias, 25 autores se revezaram em mesas, palestras, oficinas, contações de histórias, shows, batidos pela brisa que sopra constante, em um parque central, o Engenhoca, onde se produziu a mais tradicional pinga do Ceará, a Colonial, hoje lugar de eventos.

No café da manhã, no hotel Oceani, de frente para a praia e olhando um mar de verdes e azuis cambiantes, diante de tapiocas de queijo de coalho, rabanadas, bolos de coco, de milho e frutas, Rodrigo Lacerda, Carola Saavedra (que levou a filha Vitória, de 4 meses; mulher batalhadora), João Anzanello Carrascoza, Bernardo Kucinski, Socorro Acioli, Luciana Savaget, Liliane Prata, Ricardo Carvalho, entre outros, se preparavam para a intensa programação. Fundamental na organização da Flaq, foram a mão, os braços e a alma de Terezinha Holanda, secretária de Educação de Aquiraz, que deu suporte a Aurea Figueira, Marisa Moura e Cristina Saboia, organizadoras da festa, que teve ainda apoio da livraria Ler. Aquiraz está no calendário cultural do Brasil.

Certa manhã, fui a uma escola do Batoque, pequena cidade, recebido por alunos em polvorosa, rindo e aos gritos, contemplando um ser estranho, o escritor. Naquele instante, pensei: onde chegamos nós escritores com nossas palavras? Como mudou este Brasil! Crianças de 5, 6 anos, junto a adolescentes e jovens, que cantaram, disseram textos, representaram cenas baseadas no que escrevi. As paredes se viam cobertas por desenhos imensos, mostrando meus personagens, meu rosto, feitos por Marcilio Maia, que, no final, me deu um portrait: eu nas terras do Batoque. Os olhos claros da diretora Maria Edna Moreira da Silva e do coordenador Regimar Braga brilhavam dez vezes mais que minha alegria. Espero ter ganho para a literatura ao menos cinco leitores ali. Há gente lendo nas classes C, D, E, mas isso não se computa nas pesquisas. Há professoras guerreiras, anônimas, lutando para formar leitores, em suas regiões. A Banda Marcial Francisco Rodrigues da Silva, da escola, ganha todos os concursos onde vai. Afinada, ritmada, chega a vice, só não é campeã porque os músicos não têm botas, como manda o regimento das bandas. Eles precisam de apenas 40 botas e cada uma custa R$ 90. O que são R$ 3. 600, diante dos bilhões das bandalheiras dentro da Petrobrás? Para que dinheiro para a educação se era preciso reeleger Dilma?

Num final de tarde, sentei-me no palco com Luis Alves, meu editor há 30 anos na Global. Pela primeira vez em uma feira, festa, jornada, se viu editor e autor falando de suas relações, problemas, alegrias, esperanças. Aquiraz foi inédita nisto. Em seguida, querendo me fazer uma surpresa, me levaram para Fortaleza para um programa de tevê. Era importante para a divulgação da Flaq. O apresentador me abraçou, perguntou do meu livro, citou as mulheres de Ocara, minha busca por elas durante oito anos. Levou-me a uma sala nos bastidores, me colocou diante de duas senhoras, perguntando: Qual destas é personagem da sua crônica sobre Ocara?

Levei um susto. Depois de tanto tempo, ali estavam elas! Tive um momento de hesitação. Então, uma disse: "Dei o mel ao senhor!". Era ela, Madalena. E a outra: "Perguntei das letrinhas e das sementes!". Era Mazé Bandeira. O apresentador - sem perceber que tinha quebrado a surpresa, que seria o momento chave do programa - levou todo mundo para o palco, contou a história, como se ele tivesse descoberto as mulheres e trazido ao programa. Esqueceu Terezinha, esqueceu a Festa Literária. Pena que não teve senso de jornalismo, do ritmo de suspense, criação da surpresa. Atropelou tudo, nem sei se o público entendeu. Mas valeu!

Na verdade, não foi o apresentador da TV quem descobriu as mulheres de Ocara. Terezinha Holanda, em combinação com Aurea e Marisa engendraram o que seria a grande surpresa para mim. A secretária montou uma equipe e enviou para Ocara, onde, orientada pela professora Maria Auricélia Alves, chegou às personagens reais, Madalena e Mazé Bandeira.

Um carro da prefeitura de Aquiraz foi buscá-las e levou-as ao programa. Não imaginam a minha alegria ao rever as mulheres de minha crônica. Humildes e simples, cheias de júbilo (a palavra é essa), enfrentaram com a maior tranquilidade o estúdio, as luzes, as palmas do auditório. Abraçaram-me demoradamente e, vejam só, me deram mais mel puro (enviados por ocarenses agradecidos) e também rapaduras, alfenins e biscoitos caseiros. Um mel tinha uma etiqueta: Com o abraço do senhor Pipi. Quem será? Esperemos outros oito anos.

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