Reedições e filme trazem Maugham de volta

Três reedições e um filme podem nãoconfigurar um revival, mas W. Somerset Maugham com certeza estásaindo do limbo. Os livros são: Paixão em Florença, ODestino de Um Homem e agora O Fio da Navalha (EditoraGlobo, 418 págs., R$ 39). O filme, a adaptação do primeiro, trazno elenco Sean Penn e a linda e talentosa Kristin Scott Thomas.Foi sempre assim com o escritor: o cinema ajudou a popularizarseus romances e peças. O britânico (nascido em Paris) WilliamSomerset Maugham escreveu 70 livros. Ao longo de 60 anos decarreira literária, escreveu cerca de 20 romances, mais de umadúzia de coletâneas de textos, quase 30 peças de teatro e meiadúzia de ensaios e textos autobiográficos. Só Servidão Humana teve três versões para a tela,com Bette Davis, Eleanor Parker e Kim Novak no papel dadestrutiva Mildred. O Fio da Navalha teve duas,interpretadas por Tyrone Power e Bill Murray. A Carta tevesó uma, mas sua fama é a de ser a melhor de todas. Virou umsuntuoso melodrama de William Wyler, de novo com Bette Davis efotografado, em magnífico preto-e-branco, num Pacífico falsocomo nota de três dólares, que o mestre perfeccionista fezreconstituir em estúdio, em Hollywood. Escorado na popularidade que o cinema lhe conferiu, seuslivros vendiam além de toda expectativa e, no Brasil, ele nuncateve competidores na antiga Coleção Nobel, da Globo.Apesar do sucesso editorial, nunca foi uma unanimidade e amaioria da crítica preferia outro escritor inglês, seucontemporâneo e que também vendia com facilidade. O próprio OttoMaria Carpeaux, do alto de sua erudição, destacava a baseplatônica da filosofia que anima não apenas A Fonte, mastambém outros escritos de Charles Morgan, a quem consideravasuperior. Edmund Wilson chegava a ser inclemente com Maugham.Achava sua prosa banal e o ritmo desinteressante. Talvezexagerasse. Apesar dos críticos, Maugham nunca deixou de teradmiradores para seu naturalismo a princípio influenciado porÉmile Zola e Guy de Maupassant. Do primeiro, herdou a capacidadede observação que torna tão convincente a reprodução dos hábitos modismos e da própria psicologia dos ingleses que habitavam asilhas do Pacífico Sul, em pleno apogeu do império. Do segundo,admirável contista, a concisão que o transformou em especialistado relato curto e direto. Pode-se preferir, talvez, Servidão Humana, com acrueza de sua descrição da paixão destrutiva que uma garçonetevulgar desperta num jovem médico, ou O Destino de Um Homem,que discute aquilo que o apresentador do livro, Sérgio Augustode Andrade, define como a impostura do escritor. Maugham(pronuncia-se Móm) discute a função social da literatura etransforma os personagens Ashenden e Driffield em paradigmasdele mesmo e de Thomas Hardy. Mas convém não subestimar oencanto de O Fio da Navalha. O livro trata de um tema quetinha tudo a ver com os sentimentos da geração que sobreviveu aomassacre da 1.ª Grande Guerra. Mas esse tema não perdeu aatualidade e foi sendo renovado ao longo do século passado. É apossibilidade de uma paz religiosa interior. Larry Darnell é o personagem principal. De certa formaantecipa a insatisfação daqueles jovens que, nos anos 60,tomaram o caminho de Katmandu, buscando um sentido para a vidanas drogas e no misticismo. Dois temas maughamianos transparecemem sua experiência: o conflito cultural Ocidente-Oriente e aconvicção de que a vida, vivida sem plenitude ou em conformidadecom padrões sociais baseados na hipocrisia e na repressão, nãopassa de véu pintado (título de um dos romances mais famosos doautor). Abalado pela experiência na guerra, Darnell, um jovemnorte-americano, rico e esportista, regressa a Chicago, mas nãopermanece muito tempo nos EUA. Parte para a Europa e, depois,para o Oriente, onde toma lições de budismo com um grande mestremístico. Apreensão - Sua história é contada pelo próprio Maugham,que assume ser o narrador da trama. Ele começa dizendo que nuncateve tanta apreensão ao iniciar um romance. Em Um Gosto e SeisVinténs, baseou-se no pintor francês Paul Gauguin, masvaleu-se do privilégio de romancista para preencher,ficcionalmente, os vazios de uma vida que conhecia escassamente.O desafio de O Fio da Navalha é de outra ordem, esclarece oautor. Desta vez, ele fala sobre um homem que não é célebre (eadverte que nunca o será), mas acha sua experiência humana tãorica que considera imprescindível escrever sobre a vida queescolheu para si próprio e a extraordinária doçura do seucaráter. Darnell é esse homem e, em torno, dele gravitam asdemais personagens. Sua ex-noiva, Isabel, casou-se com outrohomem (e, na versão de Edmund Goulding com Tyrone Power, éinterpretada por Gene Tierney), a amiga de infância, Sophie,vive assolada pelo alcoolismo (e Anne Baxter ganhou o Oscar decoadjuvante pelo papel, também na versão de Goulding-Power) e hátambém o tio milionário e hedonista, Brian Templeton, em quem oscríticos vêem a influência de uma figura muito real: o escritorHenry James, que nunca deixou de adorar uma vida bem mundana. Por mais que exalte o exemplo de Darnell, que busca aanulação após atingir a plenitude do conhecimento, é comTempleton que Maugham mais se identifica. Claro, ele também erahedonista, além de cínico. Quase 40 anos depois de sua morte(aos 91 anos, em 1965), Maugham sai do limbo do esquecimento. Éo tipo do autor considerado demodê que ainda tem algo a dizer.

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