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Reduzindo danos

Em vez de perder tempo procurando as diferenças entre o HIV e o SARS-Cov-2, poderíamos tentar ganhar tempo antecipando a aplicação do conhecimento adquirido a tão duras penas

Daniel Martins de Barros, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2020 | 03h00

A humanidade estava no começo de uma pandemia. Um vírus de origem incerta causava uma doença nova, desconhecida para médicos e cientistas, matando as pessoas rapidamente. Com esforços internacionais reunidos de maneira até então inédita, algumas características da doença e de seu causador foram sendo identificadas. Claro que as informações disputavam espaço com boatos e falsas notícias, muitas vezes carregadas de preconceito.

Ao mesmo tempo, a identificação de pessoas mais vulneráveis à infecção servia como forma de direcionar esforços, tanto de pesquisas como de prevenção, mas se prestava também como instrumento de uma falsa tranquilidade para as pessoas “normais”, que não pertenciam a grupos de risco. Comportamentos associados à propagação da doença foram sendo identificados, mas, estranhamente, mesmo sabendo dos riscos, muita gente resistia a adotar práticas que aumentassem a segurança. Não adiantava os jornalistas divulgarem as informações; não bastava que os cientistas fossem à TV e ao rádio; não havia ameaça que fizesse alguns comportamentos mudarem.

Até que surgiu uma ideia alternativa. Já que algumas atitudes pareciam impossíveis de ser abandonadas, talvez fosse melhor admitir a derrota de uma vez e tentar minimizar suas consequências. Se não dava para convencer as pessoas a abandonar esses comportamentos, melhor ajudá-las a praticá-los com alguma segurança, diminuindo os riscos associados a eles.

Sim, estamos falando dos primórdios da pandemia de aids e do nascimento da estratégia de redução de danos. Mas o paralelo com nossos tempos é inevitável. Não se trata de uma analogia perfeita, claro. Mas, em vez de perder tempo procurando as diferenças entre o HIV de então e o SARS-Cov-2 de agora, poderíamos tentar ganhar tempo antecipando a aplicação do conhecimento adquirido a tão duras penas.

Exatamente como no início da pandemia de aids, nós temos enfrentado dificuldades no que diz respeito a mudanças de comportamentos desejáveis para evitar a propagação da covid-19. Os entusiastas da racionalidade humana poderiam acreditar que basta informar a população sobre os riscos que as pessoas passarão a agir de acordo – se elas ainda não estão agindo assim, é porque não foram informadas o bastante. Mas não sei se ainda há alguém que acredite nisso. Afinal, as pessoas também sabiam dos riscos envolvidos no sexo ou nas drogas.

Quando finalmente se percebeu que focar as campanhas em não usar drogas ou não fazer sexo era um desperdício de tempo e dinheiro, o esforço passou a ser em evitar o compartilhamento de seringas (por meio da sua distribuição para dependentes, por exemplo) e na conscientização do uso de preservativos. Alguns usariam drogas de qualquer jeito, independentemente do que falássemos. Então, que pelo menos não se contaminassem. Pessoas teriam relações sexuais sem saber se elas mesmas ou seus parceiros eram soropositivos. Então, que usassem camisinha.

Da mesma forma, a essa altura já deu para perceber que não adianta insistir no “fique em casa”. As pessoas irão sair, irão a festas, terão reuniões familiares. Passou da hora de deixar de tentar dissuadi-las disso e centrar energias em orientá-las a ao menos fazê-lo de forma segura.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’ 

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