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Redes sociais e homens

Um cara fica maluco se não tiver ninguém. Não faz diferença quem a pessoa é, contanto que esteja com você. (Ratos e Homens, de John Steinbeck).

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2012 | 03h08

Na sexta-feira, gastei o equivalente a três ações do Facebook investindo numa outra mídia e o retorno foi imediato. Se eu não tivesse desembolsado os US$ 132, teria tido o mesmo retorno rápido, mas considero este um investimento a longo prazo. Apostei meu dinheiro numa estação de rádio nova-iorquina sem fins lucrativos, 93.9 FM, minha janela para a cidade e o mundo. Com um time estelar de correspondentes, programas musicais deliciosos e um desfile contínuo de entrevistados que representam o píncaro de suas áreas, em arte ou economia, literatura ou política, não preciso pensar duas vezes em "curtir" com a minha carteira a equipe que acompanho pelo rádio, iPod e online. Se não posso considerar a rádio uma mídia social, posso garantir que ela me faz pertencer à sociedade com mais eficiência do que qualquer start-up que venha a cortejar a credulidade ou o exibicionismo.

A minha estação (a condição de contribuinte explica o pronome possessivo), apesar de pertencer à rede pública, recebe apenas 6% de seu orçamento do governo federal. Uma fatia expressiva de seu orçamento operacional vem de ouvintes engajados como eu. De modo que, quando eu ouço uma voz arfante narrando a violência em Kandahar, torço para que o dono da voz tenha um colete à prova de bala tão bom quanto o que trabalha para uma corporação privada. Noto que posso alocar US$ 12 da minha contribuição para a cobertura jornalística, já que entrevistar a soprano Renée Fleming no Carnegie Hall não requer o colete - no máximo, um metafórico, se o repórter criticou sua Scheherazade.

Quando assisti ao vídeo de Mark Zuckerberg acionando o pregão do Nasdaq para dar início à oferta inicial de ações, que elevou sua fortuna para US$ 19 bilhões, notei que ele vestia o habitual moletom de capuz, o mesmo usado por Trayvon Martin, o adolescente negro morto por um vigilante num condomínio da Flórida. A informalidade praticada pela pessoa errada, no momento errado, como sabemos, pode ser letal.

E aquela trilha sonora triunfal e inacreditavelmente kitsch? Com US$ 19 bilhões não dava para contratar o Trent Reznor?

Enquanto uma audiência planetária acompanhou a transformação do Facebook numa companhia pública, com o apetite e a crueldade do público de gladiadores romanos, nós, que ajudamos Zuckerbergs e Saverin a enriquecer graças à informação recolhida, com opacidade pusilânime, sobre nossos hábitos e desejos, somos meros espectadores.

A corporação Facebook tem um valor - no momento - mais alto do que a Boeing ou a General Motors, porque 12% da população do planeta tem conta nessa mídia social. Não posso resistir a lembrar que a AOL já valeu US$ 150 bilhões, hoje vale US$ 1 bilhão.

Mas a população disponível na Via Láctea não cresce com a rapidez com que os novos acionistas do Facebook esperam que sua receita cresça, nos próximos dez anos, para justificar a avaliação extraordinária de seus ativos, quer dizer, nossas vidas reveladas online. Um dos dilemas do Facebook é aumentar a intrusão da publicidade sem ofender os crédulos que ouviram Mark Zuckerberg dizer: "A nossa missão não é tornar a companhia pública. É tornar o mundo mais aberto e conectado".

Como apostei em outro cavalo, o problema não é meu. A minha estação local, que me conecta com Kandahar ou Berlim, já me torna diariamente uma cidadã do mundo, sem a piedade dos slogans.

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