Redes de TV digerem a crise de energia

Em tempos de se medir a vilania de cada eletrodoméstico, o televisor nem parece tão bandido assim. Mas não chega a ser inofensivo. É bem verdade que 6 horas diárias de TV consomem 14,4 kWh por mês, bem menos que 15 minutos diários de chuveiro elétrico (39 kWh) ou que uma geladeira de 310 litros (49 kWh) no mesmo período. Se uma TV não incomoda tanto, duas já são sinal de desperdício. Para o diretor-executivo do Ibope/mídia, Flávio Ferrari, o uso simultâneo de vários televisores num mesmo domicílio deve cair com o racionamento de energia imposto pelo governo. Quem, por exemplo, costuma deixar a TV ligada mais em busca de uma companhia do que para ver realmente as atrações, deve mudar esse hábito.O impacto no consumo da TV já é sentido pelas emissoras. O superintendente-artístico da Record, Marcos Vinícius Chisco, calcula que "no domingo passado, havia 13% a menos de aparelhos ligados em comparação com a média das duas semanas anteriores." Otimismo - Ferrari, do Ibope, acha que é cedo para prever o efeito de mudanças desse tipo. Segundo ele, no primeiro fim de semana após o anúncio das medidas de economia de energia não foi observada mudança de hábito "muito significativa". "Estamos esperando acumular uma semana de audiências para fazer uma avaliação de impacto", afirma. Mais otimista, o vice-presidente da agência Ogilvy, Luiz Kroess, diz que a situação da TV não é tão dramática assim. "Parece brincadeira, mas a família ficará mais unida com esse racionamento, provavelmente, diante da mesma televisão", diz Kroess. "As pessoas terão mais medo de sair na rua por causa da falta de energia em algumas regiões e a TV terá um número maior de espectadores em todos os horários", opina. "Creio que será o último eletrodoméstico da casa a ser desligado, até porque ela é a janela para o que está acontecendo. Apagaremos as luzes e a TV ficará lá, ligada, para toda a família." Prejuízo - Para quem está no comando das grandes redes, essa tese não é tão segura assim. As medidas adotadas pelo governo para reduzir o consumo de energia acabaram por respingar na programação - e portanto nos cofres - de cada emissora. Com a proibição da realização de partidas de futebol à noite no Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, houve uma corrida em busca de soluções que não afetassem compromissos já assumidos com anunciantes. Negociar a mudança dos locais dos jogos ou bancar o uso de geradores nos estádios são alternativas muito mais baratas do que rediscutir o gordo valor das cotas de patrocínio dos jogos. Globo, Bandeirantes e Rede TV! investiram, juntas, cerca de R$ 500 milhões na compra de direitos de transmissão de futebol este ano. O retorno de anunciantes compensa, mas depende da platéia: uma partida de futebol em horário nobre chega a 45 pontos de audiência na Globo; à tarde, atinge no máximo 25. Uma pesquisa de março do Ibope indica que a audiência da TV aberta entre 18 horas e meia-noite gira em torno de 63,4 pontos, ante 41,5 do meio-dia às 18 horas. Cada ponto corrresponde a 44 mil domicílios na Grande São Paulo.Já um gerador de 1.500 kWh custa R$ 45 mil por mês. O estádio do Maracanã, por exemplo, gasta 5.500 kWh, enquanto o Morumbi consome 2.500 kWh. "Vamos perder dinheiro, mas não será nada espetacular", afirma o dono da Traffic, J.Háwilla, empresa que detém os direitos da maioria dos campeonatos de futebol e é parceira da Band na exibição de parte deles.Na ponta do lápis - A Globo chegou a cogitar a antecipação do seriado Os Normais para tapar o buraco nas noites de quarta-feira, caso viesse a ficar sem jogo no horário. Não foi necesário, mas partidas que não são prioritárias poderão ficar mesmo para a tarde. Para o presidente do Comitê de Mídia da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), Amadeu Nogueira, será inevitável uma renegociação com anunciantes quando algum evento ou programa alterar seus horários em razão do racionamento. Segundo ele, um anunciante que pagou R$ 50 milhões por uma cota de patrocínio e espera, com isso, atingir 20 milhões de espectadores na faixa nobre, não pode ter o seu anúncio mudado para a tarde sem uma compensação."Os cotistas não vão querer o seu dinheiro de volta, a moeda de troca do anunciante é o consumidor. Eles vão querer renegociar para atingir o mesmo número de consumidores da noite", diz Nogueira. "A conta é simples: se minha marca não pode atingir 20 milhões de pessoas naquele horário, conforme eu comprei o anúncio, eu negocio para ter outras inserções em programas da emissora com público-alvo parecido e em proporção semelhante."Cotas pendentes - Está preocupada a direção da RedeTV!, que comprou da Globo os direitos de transmissão de vários campeonatos e, a muito custo, conseguiu vender suas cotas de patrocínio para honrar o pagamento devido à Globo. "Um anúncio à tarde é 40% mais barato que um noturno, mas o nosso investimento no evento é o mesmo", diz Dalton Machado, diretor-comercial da emissora. "Nossas cotas de patrocínio da Copa dos Campeões, por exemplo, só serão vendidas após definição do que irá ocorrer. Não podemos vender sem saber a que horas os jogos serão exibidos", completa Machado.Para o diretor-geral de Esportes da Band/Traffic, Juca Oliveira, uma solução é transferir os jogos para regiões isentas de racionamento, como Estados do Sul, por exemplo. O transtorno maior, diz, são as transmissões de outros esportes, como vôlei e basquete, que mesmo sendo realizados durante o dia precisam das luzes acesas nos ginásios.Energia a gás - A TV também obedece, nos corredores de cada canal, às regras impostas ao mercado industrial. A Globo adotou, na semana passada, medidas para reduzir em 20% seu consumo de energia. A mais significativa delas diz respeito ao Projac, o complexo de estúdios de Jacarepaguá. No início do ano, entrou em atividade a Central de Co-geração de Energia a Gás. Com ela, garante a Central Globo de Comunicação, será possível suprir toda demanda de energia elétrica e térmica do complexo, estimada em cerca de 5 mil kWh. Até então, a estação respondia só por 50% do consumo.Na sede da emissora, no Jardim Botânico, Rio, um gerador a diesel suprirá parte das necessidades. O mesmo se aplica à sede paulista, no bairro do Brooklin. O diesel também será usado para atender ao consumo de energia da torre de distribuição do sinal, no Sumaré, que representa 544 kWh. Luiz Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, afasta a possibilidade de outras mudanças na programação. "Só vamos estudar possíveis remanejamentos se o governo confirmar um calendário de apagões para os domicílios."Mesmo assim, a artilharia inimiga já busca nova munição. Se a Globo mantiver alguns jogos à tarde, a Record não hesitará em mudar os temas do feminino Note e Anote. "O programa passará a falar também com os homens, dependerá da concorrência", afirma o superintendente-artístico Marcus Vinícius Chisco. A Record opera com geradores no horário de pico há dois anos. Das 18 h às 22 h, os 11 estúdios e seis switchers são movidos a diesel. Mas o assunto vem rendendo conteúdo para a programação de todos os canais, dentro e fora da ficção. Na semana passada, por exemplo, Marcelo Tas apresentou parte do Vitrine, na Cultura, à luz de velas. O tema também estará em foco na novela das 8, Porto dos Milagres, e no humorístico Sai de Baixo, entre outros programas. A Rede Mulher anunciou semana passada a compra de um gerador de 360kW, por R$ 112 mil. "Já fazia parte de nossos planos usar um gerador para reduzir custos", diz o presidente João Baptista. Na TV Gazeta, até a iluminação da torre da Av. Paulista, tradicional referencial de São Paulo, foi desligada. TV paga - As operadoras de TV paga também estão se preparando para o racionamento. "Temos estrutura para ficar no ar 24 horas ao dia, mas se houver apagão, será o caos", afirma Alexandre Athayde, diretor de Marketing da TVA, que prevê uma fase de guerra para o setor. Assim como a Net, a TVA já vislumbra uma maneira de compensar o assinante caso realmente haja apagões e a temida queda na base de clientes. "Partiremos para promoções específicas e redução de preço", diz Athayde. "Oferecemos um serviço supérfluo, se as pessoas tiverem de economizar energia, é claro que começarão pela TV paga."

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