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Rédeas do tempo

Parte do cansaço da quarentena vem de encarar o desafio de passar da jornada dupla para a jornada simultânea

Daniel Martins de Barros, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2020 | 03h00

Aconteceu na terceira semana de quarentena. Cansamos. Pelo menos eu cansei – e vi mais gente reclamando que estava difícil convencer o cérebro que não eram férias, era preciso manter o ritmo. Até nas crianças percebi algo assim. 

Parte do cansaço vem de encarar o desafio de passar da jornada dupla para a jornada simultânea. Manter os vários pratos girando ao mesmo tempo, como aqueles os artistas de circo que equilibram ao mesmo tempo diversos pratos em varetas, traz por si só uma sobrecarga. Mas é mais do que isso. É um esforço extra que precisamos fazer para conciliar essas percepções conflitantes – estar em casa com os filhos, como se fossem férias, e estar trabalhando normalmente, como se estivéssemos no escritório. Nunca imaginei que isso gastasse tanta energia.

Se há algo que nos rouba energia é a gestão do tempo. Porque uma coisa é saber que há trabalho a fazer, outra coisa é conseguir se convencer de que não temos todo o tempo do mundo. Em casa, parece que o dia todo está disponível para cada uma das tarefas. Precisamos responder aqueles e-mails? Temos tempo. Checar as tarefas da escola? Ainda é cedo. Almoço? Já, já. E, conforme os ponteiros do relógio giram, as atividades incompletas se avolumam. Trata-se de um acúmulo que se dá no limiar da nossa percepção – como acreditamos ter muito tempo, não ficamos aflitos. No entanto, a força que fazemos para não nos preocuparmos com o avançar das horas nos coloca num estado de desconforto, leve mas contínuo. 

Nos anos 1950, o escritor Cyril Northcote Parkinson descreveu uma armadilha na gestão do tempo numa frase que posteriormente ficou conhecida como lei de Parkinson: “O trabalho se expande para preencher o tempo disponível para sua realização”. Não é por outra razão que temos a impressão de que pessoas ocupadas são mais produtivas. Nós mesmos, quando temos prazos apertados, surpreendemo-nos com nossa capacidade de foco. Muitas vezes, à custa de grande aflição, é verdade. 

Ao dificultar a organização das nossas atividades, esse momento estranho em que vivemos – uma espécie de trabalho em home office forçado e provisório – eleva a lei de Parkinson à sua expressão máxima. Parece que levamos o dia inteiro para fazer o que resolvíamos em minutos na empresa. Sentir que o tempo disponível para um trabalho é o dia inteiro, sua execução se estenderá de manhã até a noite. 

Some-se a isso a mania quase inconsciente que temos de nos ocupar com atividades dispensáveis e irrelevantes para nos livrar da sensação de ócio. Alguns pesquisadores chamam esse comportamento de “precrastinação”. Ao contrário da procrastinação, quando adiamos indefinidamente tarefas que sabemos não serem dispensáveis – ou seja, que teremos de realizar às pressas, no último minuto –, na precrastinação nós nos envolvemos com uma multidão de coisas que não precisaríamos fazer, apenas para ter a sensação de estarmos produtivos. O procrastinador deixa para amanhã o que precisaria fazer hoje. O precrastinador faz hoje o que talvez não precisasse fazer nunca.

A melhor solução para esses desafios são os cronogramas. Nem sempre precisamos deles no dia a dia, já que os compromissos vão se sucedendo e impondo limites de tempo uns aos outros. Mas agora, soltos no tempo, podemos criar prazos temporais por nossa própria conta. Nem que seja para saber quando estamos atrasados.

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