Rede TV!: pendengas trabalhistas podem sair caro

As pendengas trabalhistas da Rede TV! não se resumem, como os executivos da emissora têm sustentado até aqui, à dívida herdada da extinta TV Manchete. Há um ano no ar - e à espera da homologação de sua concessão pelo Senado Federal - a nova emissora já acumula mais de 200 processos de funcionários registrados pela empresa este ano. O número é fornecido pelo coordenador do Sindicato dos Radialistas de São Paulo, Nilton Martins."Eles não pagaram a rescisão de ninguém, não estão depositando fundo de garantia, nem horas extras. Nós já vimos esse filme antes", diz Martins. O "filme" a que ele se refere é o mesmo protagonizado por ex-funcionários da Manchete, problema que acabou virando jogo de peteca entre a família Bloch antiga proprietária da emissora, e o empresário Amílcare Dalevo dono da Rede TV!: a vendedora alega que, ao assumir a estação, a compradora se comprometeu a quitar a dívida trabalhista; a compradora tenta livrar-se de tal responsabilidade na Justiça.A novela foi parar nas mãos do senador Eduardo Suplicy (PT). Ele defende que a concessão da TV Ômega (razão social da Rede TV!) não seja homologada até que a dívida trabalhista com os ex-funcionários da Manchete seja totalmente paga.Para o vice-presidente da emissora, Marcelo Carvalho Fragali, isso não ameaça a concessão. "A Câmara já homologou e não encontraremos problemas no Senado", diz Fragali. Suplicy rebate: "Essa decisão cabe aos senadores, não ao diretor de uma empresa."O senador pretende convocar uma audiência pública antes que a concessão da Rede TV! seja votada no Senado. "Vamos propor uma audiência no fim de novembro, para tentar um acordo entre os dirigentes da TV Ômega e os trabalhadores da Manchete" afirma Suplicy.Rinha - Entre os mais de 200 processos movidos contra a TV Ômega - ou seja, da fase pós-Manchete - o que pode custar mais caro à emissora é movido por seu ex-superintendente-artístico, Rogério Gallo. Ele reivindica R$ 2 milhões só como pagamento da multa pela rescisão de seu contrato mais "indenização por danos morais". "O meu objetivo é fazer com que eles respondam em juízo pela campanha difamatória", diz Gallo.Segundo o vice-presidente da rede, Marcelo Fragali, quem "quebrou" o contrato com a emissora foi Gallo, quando omitiu da direção da empresa a saída de sua namorada, Adriane Galisteu. "Ele negou categoricamente a existência de negociações entre Galisteu e a Record. Ficamos sabendo por outras pessoas", diz Fragali. "Não é verdade", rebate Gallo. "Do momento em que ela me avisou até que eu contasse a notícia a eles, não se passaram cinco minutos. Eles (Fragali e Dalevo) tanto sabiam, que foram à Record para pedir à direção que recuasse da proposta e deixasse a Adriane acabar de cumprir o contrato com a Rede TV!."Fragali confirma a visita à Record, mas em outra data: após a saída de Galisteu. "Ele quer truncar as datas, mas não adianta: tenho testemunhas", responde Gallo. "Além disso, se eu quisesse, e isso seria um direito da minha privacidade, seria absolutamente lícito omitir essa informação, caso ela fosse uma confidência pessoal, mas eu avisei à empresa desde o início das negociações e insisti que agendássemos uma reunião para tentar mantê-la na Rede TV!."Gallo argumenta que o episódio de Galisteu foi apenas pretexto para dispensá-lo, porque, segundo ele, sua presença representava uma resistência à "popularização da programação". "Eles queriam trair o projeto original e eu sempre fui contra. Investimos em nosso trabalho na emissora acreditando no slogan ´Uma alternativa de qualidade na sua TV´. Não é isso que está acontecendo."Entre outros exemplos do que diz, Gallo cita os dramas hospitalares conduzidos por Celso Russomano nos últimos dias no Super Pop - programa que era apresentado por Galisteu e será agora comandado por Luciana Gimenez.O vice-presidente da emissora nega qualquer mudança na programação da Rede TV! e diz que as idéias de Rogério Gallo "nunca foram antagônicas" em relação às atrações exibidas na emissora. "Não estamos mudando a programação, nem buscando a popularização, buscamos a audiência e ponto", diz ele. Fragali afirma ainda que Gallo deveria ter-se desligado espontaneamente da casa ao saber da saída de sua namorada."Seria a conduta mais correta de quem quer omitir-se numa situação dessas", diz Fragali. "Gallo sempre esteve de acordo com a programação e a saída dele tem a ver com a saída de Galisteu, essas mudanças na programação nem existem."Gallo enumera as dificuldades enfrentadas neste primeiro ano, como problemas com fornecedores e precariedade material. Diz que não foi por ter sido dispensado que está agindo assim. "Só resolvi partir para processo depois de ler o que Marcelo (Fragali) vinha dizendo à imprensa a meu respeito. Fui avisado do meu desligamento pelos jornais."A briga judicial promete ser das melhores. Gallo contratou nada menos que três de alguns dos melhores escritórios de advocacia do País: Samuel Mac Dowell (área cível), José Carlos Dias (criminal) e Gilda Figueiredo Ferraz (trabalhista).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.