Recruta Zero completa 60 anos de anarquia

Insubordinado, folgado, trapalhão: soldado raso mais amado do mundo sai em 50 países e 1.800 jornais

06 de maio de 2010 | 04h00

JOTABÊ MEDEIROS - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Sua primeira historinha foi aprovada pessoalmente por William Randolph Hearst, o "Cidadão Kane". Está entre as séries mais antigas ainda desenhadas pelo próprio autor (Mort Walker, aos 86 anos, faz a tira há ininterruptos 60 anos).

 

Beetle Bailey, que no Brasil recebeu o nome de Recruta Zero, surgiu em 4 de setembro de 1950 e fez sua fama como uma denúncia do purgatório que é o Serviço Militar, com os seus sargentos sadomasoquistas, seus superiores hierárquicos distanciados (e "paus-mandados" de suas mulheres). E os recrutas ensaboados, cheios de truques para fugir dos trabalhos pesados e da rotina espartana.

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Nesta quinta, 6, o Sesc Vila Mariana abre uma mostra para celebrar a longevidade desse personagem (que é publicado pelo Estado) com originais inéditos, filmes, vídeos, palestras e debates. O autor não virá, por conta da idade avançada, mas enviou quatro desenhos assinados para o Brasil, para que a curadoria do evento possa utilizá-los com fins beneficentes.

 

Bonachão. De sua casa em Connecticut, Mort Walker, que completa 87 anos em setembro, falou por telefone ao Estado sobre seu personagem. Bonachão e workaholic (ele mesmo atende o telefone em seu escritório), falou de suas vitórias e de uma frustração: criador do International Museum of Cartoon Art, que teve sede em Boca Ratón, Flórida, durante alguns anos, ele teve de fechar a instituição por "problemas financeiros".

 

"Doei todo o acervo à Ohio State University, que já está reformando um prédio para receber tudo. Acho que, para pesquisadores dos quadrinhos, aquela será a melhor destinação", afirmou Walker.

 

Por se tratar de uma paródia debochada do militarismo, Recruta Zero pisou em ovos ao atravessar os anos mais bélicos da vida americana. Os soldados o adoravam, os generais deploravam-no. A revista Mad, em abril de 1969, "tirou" o lendário bonezinho que recobre eternamente os olhos do Zero e na sua testa estava escrito: "Caiam fora do Vietnã".

 

No dia 4 de março de 1981, o jornal Tribune, de Minneapolis, suspendeu a tira do Recruta Zero. No lugar onde ela era publicada, saiu um comunicado: "Beetle Bailey não aparece hoje na página de quadrinhos porque o tema foi considerado sexista pelos editores."

 

Por "sexista", entenda-se uma briga entre as feministas e o autor para que ele cessasse o assédio do General Dureza à sua secretária Dona Tetê, proprietária de um adorável guarda-roupas com minissaias, decotes, terninhos e um rebolado cobiçado por todo o Quartel Swampy, onde se passa a ação. "Isso é um insulto às mulheres que trabalham", escreveu uma entre as centenas de leitoras que protestavam. "É a fantasia de um homem velho!", escreveu outra.

 

 

Censura. Em 1990, uma outra tira do personagem, que mostrava todos os recrutas mostrando as nádegas ao Sargento Dureza, causou controvérsia e foi censurada em alguns jornais. Quando terminou a Guerra da Coreia, o Recruta Zero foi visitar a irmã e o cunhado. Isso originou outra tira escrita por Mort Walker: Zezé & Cia (Hi and Lois), com desenhos de Dick Browne, que viria a criar Haggar, o Horrível.

 

Mort Walker não considera o Recruta Zero um "loser", um perdedor clássico da tradição americana. "Acho que o Sargento Tainha, sim, é um perdedor. O Recruta Zero, com suas artimanhas, foge daquilo que o oprime. É um vencedor", considera.

 

Não há mais uma revista exclusiva para o Recruta Zero sendo publicada no Brasil. Isso já aconteceu no passado, primeiro com a Rio Gráfica Editora, depois Editora Globo, que editou gibis com histórias produzidas por roteiristas e desenhistas nacionais, sob aprovação do autor. O personagem ganhou aqui, no Brasil, o nome que pertence, na verdade, a outro personagem da tira, o Dentinho (Private Zero), mas que foi considerado mais adequado para os editores nacionais.

 

Influência. O estilo e a verve de Mort Walker influenciaram gerações ao redor do mundo. No Brasil, um humorista que confessa a influência é Reinaldo Figueiredo, da trupe Casseta & Planeta."O meu ‘estilo’, se é que posso dizer que tenho um, é uma mistura de Jaguar, Millôr, Nássara, Carlos Estêvão, Steinberg, Robert Crumb, Wolinski, Topor, B. Kliban, John Glashan, e uma pitada de Mort Walker, aquele cara do Recruta Zero...", disse Figueiredo recentemente.

 

O expert em quadrinhos Alvaro de Moya lembra que, quando conheceu Walker, ele folheava seu livro sobre HQs, Shazam!, e, ao ver que faltava o Recruta Zero, chamou a atenção do especialista, que corrigiu o deslize em seus outros livros.

 

Hugo Escalera, diretor internacional da empresa Creative Licensing (responsável pelos direitos do personagem no Brasil), diz que, como Betty Boop, o Recruta Zero não é um personagem que vá seduzir novos leitores jovens pelos mesmos motivos que seduzia no passado. "É um culto retrô", considera.

 

Recruta Zero - 60 Anos - Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel.: 5080-3000. De 3.ª a 6.ª, das 10h às 21h30; sáb. e dom., das 10h às 18h30. Grátis. Até 27/6

 

Mort Walker e seu personagem em formato de boneco. Foto: Divulgação

 

Sou como o Zero, sempre fujo daquilo que não quero

 

Mort Walker, aos 86 anos, não para. Acaba de finalizar seu primeiro romance, após vários livros técnicos sobre desenho e três livros para crianças. "Chama-se O Homem mais Alto da História. É sobre um cara baixinho, um comediante que faz piadas curtas. Ele decide abrir uma agência de publicidade cujo maior objetivo é vendê-lo como um homem alto. Nunca deixa que o vejam", conta o cartunista autor do mítico Recruta Zero.

 

Quando o sr. criou o Recruta Zero, em 1950, qual era o seu principal propósito? O que tinha mente?

Eu desenhava para revistas e um grande editor estava comprando alguns dos meus cartuns, e um editor me disse: você faz muitas gags sobre crianças, porque não faz algo para universitários? Eu disse OK, e comecei a fazer. Foi quando surgiu Beetle, que no começo eu chamei de Spider (Aranha), que bebia um pouco e as pessoas começaram a chamá-lo assim. Quando o vendi, pediram que trocassem porque já tinham outro personagem chamado Spider, e eu apenas escolhi um outro nome de inseto (besouro). Passei a ser o mais vendido cartunista dos Estados Unidos e senti que podia viver daquilo. Minha mulher disse: "Se você é o mais vendido e só consegue levantar US$ 1 mil, você está no ramo errado."

 

Quantos anos o sr. tinha na época que o criou?

Tinha uns 22, 23 anos.

 

O sr. pôs muita crítica em seu personagem contra o sistema militar. O sr. já tinha essa ideia quando começou?

Tentei desenhar minhas próprias experiências. Cada personagem vem de meu tempo no Exército ou na universidade. Tentei colocar isso na tira. Uma vez, tive uma licença no Exército para ir à Califórnia visitar minha irmã, e me dei conta que não queria voltar. Então, pedi a um colega para levar uma carta ao sargento dizendo que perdi o ônibus. Fiquei dois dias a mais. Quando voltei, o sargento leu a carta e não pareceu dar a menor importância. Eu usava esse sistema, e ainda uso: faço o que quero. Do que não quero eu fujo.

 

Quanto do seu personagem vem da experiência no quartel?

Tudo vem daquela experiência. Eu, como o Recruta Zero, não gostava das regras, tentava fugir de trabalho duro.

 

Quantos anos o sr. tinha?

Uns 22, 23. Tinha acabado de sair do quartel, fiquei lá 4 anos.

 

É verdade que a última tira foi aprovada pessoalmente por William Randolph Hearst?

Sim. Quando concluí, eles disseram que iam enviá-la para o chefão. A tira voltou com uma anotação em tinta vermelha que ele fez: OK!

 

Quais foram suas primeiras influências?

Antes mesmo de eu aprender a ler, meu pai lia histórias para mim e eu me lembro da risada muito alta dele. Quando comecei a emprestar livros da biblioteca, lia muito a Enciclopédia Britânica e tentava desenhar verbetes. Depois, fui muito amigo de Milton Caniff, especialmente quando fu-i para Nova York. Ele me ajudou, me deu conselhos, me indicou para editores e me acolheu na Cartoonist Society. Will Eisner, quando construí o Museu dos Quadrinhos na Flórida, me ajudou, almoçávamos juntos.

 

O que o sr. pretendia quando criou o Museu Internacional dos Quadrinhos?

Ninguém mais estava colecionando cartuns, quando eu comecei, em 1974. Eu o mantive por 35 anos, coloquei nele meu esforço, dinheiro. Mas tive problemas financeiros, faltou apoio, então tive de vender o prédio. Procurei o pessoal do Empire State Building, tinha uma ideia para que eles o instalassem no deck de observação. Não deu certo. Então, doei tudo para a Ohio State University.

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