Recriações carismáticas do baixista Scodanibbio

As últimas faixas do italiano Stefano Scodanibbio, o homem que criava como se estivesse tocando debaixo d'água

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2013 | 02h06

A ECM acaba de lançar em CD o testamento musical do contrabaixista italiano Stefano Scodanibbio, morto precocemente em 2012, aos 46 anos. Muito conhecido no circuito da música contemporânea, desenvolveu novas técnicas para seu instrumento e grandes criadores escreveram e lhe dedicaram peças: Nono, Xenakis, Scelsi, Bussotti, Donatoni, Ferneyhough, Globokar e Sciarrino, entre outros. Mas Scodanibbio também compunha, com um senso harmônico apuradíssimo, pesquisando o som de modo livre. Sua produção ultrapassa as 50 obras, sobretudo para cordas. Muitas delas acessíveis a todo tipo de ouvidos, porque ele gostava de retrabalhar, reinstrumentando-as, o repertório histórico da música, de Monteverdi a Bach, chegando até o minimalista Terry Riley. Se as melodias são conhecidas, o tratamento que ele lhes dá é inovador, seja pelas texturas, seja por uma escrita refinada de cordas.

Re-inventions contém seu derradeiro projeto. São novos arranjos para quarteto de cordas de partes da Arte da Fuga de Bach, intercaladas com canções populares mexicanas e quatro peças espanholas originais para violão, assinadas por Tarrega, Llobet, Aguado e Sor. Ele os chama de reinvenções porque de fato estas melodias, várias delas muito conhecidas, soam praticamente inéditas em sua escrita, graças a um dos recursos preferidos do contrabaixista: o alongamento harmônico das notas, de tal modo que elas vão deixando rastros, halos sonoros que se confundem com as notas seguintes. Tudo muito delicado, muito refinado. Ele era de fato um escultor sonoro. Desloca harmônicos e os joga uma oitava acima; retarda drasticamente os tempos. Um crítico europeu encontrou a metáfora certa para estes sons tão diferenciados: eles soam como se estivessem sendo tocados embaixo d'água.

Paixão mexicana. O estranhamento aplica-se a todas as faixas do CD. Tanto as de Bach (Contrapunctus I, IV e V) quanto as dos quatro expoentes do violão espanhol: Lagrima (Tarrega), El Testament d'Amelia (Llobet), Andante (Aguado) e Studio (Sor). As excelentes performances estão a cargo do Quarteto Prometeo, formado por Giulio Rovighi e Aldo Campagnari nos violinos; Massimo Piva na viola; e Francesco Dillon no violoncelo.

Além da música espanhola, Scodanibbio também era apaixonado pela mexicana. E esta talvez seja a maior surpresa desta gravação extraordinária. São quatro melodias muito conhecidas, especialmente a que fecha o CD. Pela ordem, Canción Mixteca, Cuando sale la luna, Sandunga e Besame Mucho. No conjunto, uma hora de música espantosamente contemporânea e ao mesmo tempo acessível aos ouvidos. Será esta a terceira via capaz de impactar positivamente as plateias da música de concerto convencional, entrevista por Stefano Scodanibbio?

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