Ricardo Labastier/ Divulgação
Ricardo Labastier/ Divulgação

Recortes da vida banal

Exposição traz imagens de cores fortes que Ricardo Labastier colecionou entre suas reportagens para jornais

Simonetta Persichetti/ Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 12h11

A Doc Galeria, especializada em fotojornalismo, traz para São Paulo o trabalho Abismo da Carne, fotos de Ricardo Labastier que, de forma intensa e contundente, apresenta uma maneira de absorver os detalhes e ver de forma profunda seu mundo onírico.

Sua formação é em comunicação e marketing, mas, desde 1995, o pernambucano Ricardo Labastier escolheu o fotojornalismo como sua forma de expressão. Porém, a pauta, o dia a dia foi pouco para seu espírito inquieto. Entre um trabalho e outro, fotografava pelo simples prazer de fotografar. E, com o tempo, seu arquivo foi ficando abarrotado de imagens, metáforas fortes, cortes, sensações, imagens oníricas.

Uma presença constante em suas fotografias é o vermelho, sanguíneo, feminino, paixão, Exu. Trabalhou para o Jornal do Comércio e o Diário de Pernambuco, em Recife. Em 2000, mudou-se para Brasília, onde trabalhou para o Correio Brasiliense até 2004, quando decidiu se tornar fotógrafo independente, colaborando para diversas revistas e jornais e desenvolvendo seu trabalho pessoal.

Nunca um tema específico, mas fotos fragmentadas que foram, aos poucos, enchendo seu arquivo de olhares preciosos. E foi neste universo que a pesquisadora e professora Geórgia Quintas resolveu mergulhar há 2 anos. Encontros, conversas e descobertas de um trabalho forte, profundo. O resultado de tantos encontros é a mostra Abismos da Carne, que abre amanhã, na Doc Galeria. Imagens desconcertantes que nos fazem parar e pensar. Fotografias transformadoras: “Conheci o Ricardo em 1995, no jornal. O mundo nos separou e, em 2010, nos reencontramos. Quis saber o que ele andava fazendo e me deparei com um trabalho lindo e intenso”, diz Geórgia Quintas, curadora da mostra.

Mergulhar num arquivo de um fotógrafo é sempre fascinante, mas também perigoso. O mundo do artista se desvela e segredos são desvendados. Não poderia ser diferente no arquivo de Ricardo Labastier, o Labá dos amigos: “Ricardo é um cronista, cada imagem tem uma história”, diz a curadora. “Seu arquivo caótico e não organizado me ajudou a entender seu processo criativo, que é tão rico.”

A partir destes encontros, curadora e artista tentaram criar um diálogo possível, um eixo narrativo: “Cada imagem é um conto”, diz Geórgia.

O resultado é uma exposição densa, onde cada imagem se sustenta por si só, onde cada fotografia tem sua história: “As minhas fotografias revelam sensações”, diz Ricardo, “para mim, são possibilidades de sonhos”.

Fortes, intensas, perturbadoras. Talvez daí o titulo da exposição Abismo da Carne. Fotos carnais, impregnadas em nós feito tatuagem indelével: “Gostei muito de ver como as minhas fotos foram vistas pela Geórgia, ela conseguiu sintetizar tudo o que eu sempre quis dizer e me mostrou uma nova forma de ver meu trabalho”, confessa Labastier.

São pequenos recortes, um pé, um dorso, uma flor, momentos fugidios, imagens desfocadas, tremidas, de certa forma roubadas, uma mão feminina apoiada na mesa de um bar, uma cicatriz, um abraço. Fragmentos e recortes de vida banal, mas que se transformam na fotografia de Ricardo Labastier.

 

ABISMO DA CARNE

Doc Galeria. Rua Aspicuelta, 662. Tel.: (11) 3938-0130.

De 2ª à 6ª, 11h às 19h. Sábado, 11h às 14h. Até 21/9

 

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