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Recordação, sofrimento e saudade

David Brooks é o colunista cultural do New York Times. Neste último dia 8, ele escreveu uma profunda e corajosa crônica intitulada What Suffering Does? ("os desdobramentos do sofrimento" numa tradução livre e, por isso mesmo, precisa).

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2014 | 03h49

Eu sou fascinado pelo modo direto usado pelos americanos para falar de assuntos complexos como a felicidade, o amor e o sofrimento. Ao contrário da pose brasileira em que o sujeito pensa que escrever complicado é sinônimo de competência, David Brooks inicia sua meditação invocando a dimensão fundamentalmente otimista da vida americana: a maximização da felicidade individual como uma busca possível e alcançável. Felicidade, aliás, que faz parte do credo constitucional americano, distinguindo a modernidade estadunidense de todas as outras pelo seu otimismo e busca de conforto amparado pela tecnologia, como percebeu Tocqueville.

Ter a coragem de discutir o sofrimento levou-me ao que os antropólogos chamam de "American way of life". Uma representação coletiva na qual se acreditava que tudo poderia ser resolvido com bom senso e a honestidade seria - imaginem - o melhor negócio! Nela, o comum seria ser feliz. Sofrer, um acidente. Vale observar como o sofrimento se relaciona à perda de autonomia individual nas sociedades individualistas; e a solidão que individualiza representa o sofrer no caso das sociedades de compadrio ou relacionais, como a brasileira. Num caso, descobre-se a dependência do objeto amoroso perdido noutro, o isolamento revelador de solidão e abandono.

O problema do cronista americano não é o perene e comovente "por que sofremos?" - questão que leva aos templos e a uma transcendência comparativa quase sempre pueril de achar que existe mesmo alguém que jamais sofreu quando, basta chegar perto do sujeito mais feliz, para logo descobri-lo como um irmão em ansiedade e amargura.

Por outro lado, o texto de Brooks não é evolucionista, mas estruturalista. Ele não quer saber das origens nem cogita uma era utópica e salvadora, sem sofrimento. O que ele faz é discutir os desdobramentos do inevitável e constitutivo ato de sofrer.

Não há, diz Brooks, a menor possibilidade de esperar somente a felicidade, porque em toda recordação nenhum de nós fala somente da felicidade. As perdas e o sofrimento se misturam às memórias felizes. "As pessoas buscam a felicidade - diz -, mas sentem que são feitas por meio do sofrimento."

Para quem pensa que o jornal está apenas em busca do escândalo, eis um cronista maior mostrando como o rotineiro periódico ajuda a encontrar informação e sabedoria. O sofrimento tem, sem dúvida, um lado destrutivo a ser evitado, mas ele é um formidável instrumento de empatia e de marginalidade positiva.

Tirando-nos da inconsciência das boas rotinas, quando não tínhamos tempo ou motivo para "pensar na vida" como falamos no Brasil, o sofrimento nos põe cara a cara com a honestidade, a coragem, a pusilanimidade e a aceitação. A aceitação de que tudo cabe dentro de nós como um passo decisivo para reagir contra uma doença ou uma perda não apenas dolorosa, mas irreparável.

O sofrimento não permite evasões. Ele limita brutalmente as nossas ilusões de autonomia e de liberdade. Ele também é exclusivo e desequilibrado, pois não há quem não considere sofrer mais do que julgava cabível ou justo. Ademais, não há cura. Há um englobamento e um duro canibalismo - aceitação é o seu nome.

Numa conferida sobre a poesia de Camões, proferida no Colégio Vassar no dia 21 de abril de 1909, Joaquim Nabuco relaciona amor e saudade. Essa, diz, seria a palavra mais bela de nossa língua e, como um antecipador de David Brooks, remarca que para traduzir saudade em inglês, seria preciso falar em lembrança, luto, desejo e amor; essas moedas do sofrimento. Nos Estados Unidos dos individualismos e de uma inabalável crença na tecnologia e no progresso, insinua-se o cronista para advertir que a felicidade proposta pelo "American way of life" é possível, mas que uma existência sem sofrimento é impossível.

Entre nós brasileiros - relacionais e certos de que felicidade não é a regra dos nossos destinos - é a saudade "polida pelas lágrimas", como assinala Nabuco, que permite a reconciliação com o sofrimento. É ela que pacientemente realiza o trabalho de transformar a solidão da dor, do sofrimento, da mágoa, do ressentimento, e da desesperança em saudade!

Túmulo abençoado, leito amoroso e oficina da vida, a saudade é a palavra mágica que reconcilia o interior fantasioso e agitado de cada um de nós, com a realidade imprevista e dura do mundo.

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