Reconstruindo William Faulkner

A posição de William Faulkner como um dos maiores escritores do século passado não é contestada. Mas, décadas atrás, suas obras foram indevidamente ajustadas a um paladar mais mediano, eliminando detalhes com os quais o escritor dissecou a decadência da região sul dos Estados Unidos. Apaixonado pela obra do autor, o pesquisador Noel Polk iniciou, há três décadas, o gigantesco trabalho de restabelecer os textos originais dos 20 romances de Faulkner, além de participar de uma edição fac-similar em 44 volumes de manuscritos de pensador.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2010 | 00h00

"Habitualmente, o trabalho de Faulkner apresenta aos leitores um nível de sofisticação e dificuldade, especialmente na linguagem e sua estrutura, algo a que nenhum escritor americano aspirou", comenta Polk, que participa hoje de um debate no Rio e amanhã em São Paulo, na Livraria Cultura do shopping Bourbon, a partir das 19h30. Ele vai falar também sobre o romance Sartoris (Cosac Naify), publicado em 1929, primeiro título do escritor situado no condado fictício de Yoknapatawpha, no Mississippi.

Segundo o pesquisador, Faulkner tentou dizer algo que nenhum escritor tinha feito antes. "Apesar de reproduzir a fala e a linguagem de sua terra natal, no norte do Mississippi, ele colocou aquela linguagem e os personagens com suas preocupações diretamente na corrente principal do modernismo literário", conta. "Ele usa narradores múltiplos, cada um com um tipo de condução para obter uma determinada história contada do jeito que o narrador acredita que deveria ser dito, para transmitir o significado que uma determinada história deve ter."

Faulkner, que recebeu o Prêmio Nobel em 1950, passou a ser influência constante para uma série confessa de escritores, especialmente latino-americanos como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Juan Rulfo. O que mais os atraía foi resumido pelo espanhol Javier Marías, que dedicou um livro a Faulkner: "O texto tenso e de fôlego, as frases como torrentes cheias de mistério e ambiguidade e a mistura de estilos, os intermináveis parágrafos ou borbotões, quando respiram bem e estão bem acabados, são a expressão máxima da prova narrativa."

"Felizmente, Faulkner manteve quase todos os seus manuscritos e textos datilografados, mesmo aqueles que enviou aos editores e tipógrafos", observa Polk, professor emérito de Língua e Literatura Inglesa da Mississippi State University. "Meu procedimento ao restabelecer os textos foi comparar esses documentos datilografados com os livros publicados, para determinar quais as mudanças Faulkner tinha feito e quais foram as que os editores tinham realizado, para então restaurar o original do escritor."

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