Reconstruindo New Orleans

Em Land of Opportunity, Luisa Dantas mostra a luta para reerguer a cidade após o Katrina

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

Há cinco anos. Cena pós-furacão: maior economia do planeta, os EUA abrigam zonas de pobreza típicas de Terceiro Mundo          

 

 

 

 

 

Land of Opportunitiy (Terra da Oportunidade) é uma divisa do mito americano. Evoca o lugar onde todos podem progredir. Não deixa de ser verdade. Também não deixa de ser mentira. Nem todos enriquecem e a nação imensa contém enormes contradições sociais dentro de si. Num sentido vagamente irônico, essa divisa serve de título ao documentário de Luisa Dantas sobre a reconstrução da cidade de New Orleans, devastada em 2005 pelo furacão Katrina.

Nascida em Nova York, filha de pais brasileiros, Luisa mantém um pé em cada país. Está, portanto, em excelente condição para compreender o que Spike Lee já constatara em seu seminal When the Leeves Broke: a única superpotência do mundo, a maior economia do planeta, o sonho de consumo de migrantes de todas as partes, abriga, em seu território, zonas de pobreza dignas de um país do Terceiro Mundo.

Para documentar o rescaldo da catástrofe, Luisa mudou-se para New Orleans em 2006 e acompanhou as pessoas durante quatro anos e meio, "com a ideia de mostrar sob o ponto de vista de personagens de origens diferentes, os dramáticos altos e baixos de um processo de reconstrução urbana em grande escala", diz. Com esse projeto na cabeça, sua câmera na mão captou nada menos de 1.500 horas de material, que lhe deram muito trabalho para serem montadas nos 95 minutos do filme. "Para cada história ótima, cinco tão boas quanto ficaram de fora." Mas muito desse material será divulgado ao longo do ano pelo site http://landofopportunitymovie.com. "Foi tudo, desde o começo, pensado como projeto multiplataforma." Na plataforma filme, Land of Opportunity será exibido amanhã, dois dias antes do quinto aniversário do Katrina, na França e na Alemanha pelo Canal Arte.

Brasileiros. Não há ainda previsão de estreia no Brasil ou nos EUA, o que ocorrerá de forma inevitável, pois o filme interessa aos dois países. Para os americanos, por motivos óbvios, e, para o Brasil, além da questão básica da universalidade da solidariedade humana, porque, em seu percurso por New Orleans, Luisa encontrou vários patrícios. Por acaso. "Estava entrevistando mexicanos quando escutei um grupo falando português. Foi uma surpresa descobrir que muitos brasileiros faziam parte da mão de obra maciça que reconstruía a cidade."

A cineasta considera que seu filme complementa muito bem o novo documentário que Spike Lee fez sobre o Katrina e que se chama If God Is Willing and da Creek Don"t Rise. Ela cedeu a Spike algumas imagens. "São de uma reunião crucial entre o conselho municipal e moradores de casas que o governo queria demolir." Luisa entende que Lee propõe uma visão macro, de conjunto, ao passo que ela apresenta uma experiência mais íntima, com os personagens. A associação com Spike Lee deu frutos: "Por causa do material que nós cedemos, ele se interessou pelo projeto e vai produzir o nosso conteúdo para o site."

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