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Reconciliação

“Viver é perdoar muitas vezes, conversar, abraçar de novo, ter raiva mais uma vez e seguir”

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 03h00

Josefina de Vasconcellos nasceu em 1904, na região de Surrey, Inglaterra. Era filha de um diplomata brasileiro e de uma inglesa. Teve contato com grandes professores de escultura em estudos por Paris e Florença. No pós-Segunda Guerra, pensou muito no tema da reunião de pessoas separadas pelo trágico conflito. A ideia amadureceu e virou uma obra em bronze, em 1977, com o nome de Reunião. Em 1995, celebrando os 90 anos da escultora e os 50 anos do fim da guerra, a estátua foi rebatizada como Reconciliação e colocada nas ruínas da catedral de Coventry. O bombardeio da cidade histórica tinha sido um dos muitos crimes contra o patrimônio. 

A obra mostra um homem e uma mulher ajoelhados e abraçados. Josefina tinha lido um relato antigo de uma mulher que atravessou a Europa a pé para reencontrar o marido. Assim, na catedral semidestruída de Saint Michel, encontramos o momento tocante que o casal se abraça, já incapazes de permanecerem em pé, vencidos pelo cansaço e pela emoção do momento. A ideia foi um sucesso e surgiram novas peças idênticas em Hiroshima, em Berlim e em Belfast. Áreas problemáticas e com experiência de violência e que, agora, ressignificam o tema reconciliação. A arte tem um imenso poder de simbolização. Josefina faleceu com mais de cem anos e pensei nela, emocionado, ao conhecer o casal representado em Coventry. 

Existir é o ato de reconciliar. A união europeia foi feita após séculos de enfrentamento. França e Alemanha enfrentaram quase um milênio de batalhas. Ainda antes de surgirem as entidades nacionais com capitais em Berlim e Paris, os povos dos dois lados do Reno se mataram. O imperador Otão IV, nascido no coração da atual Alemanha, atacou o rei Filipe II da França na Batalha de Bouvines (27/07/1214). Apesar de os germanos estarem aliados aos ingleses, a vitória francesa foi um dia que mudou a história do país. Os atritos nunca cessaram. A zona fronteiriça dos dois inimigos, a Alsácia-Lorena, mudou de mãos muitas vezes. O rei Luís XIV tomou a região no século 17. A Guerra Franco-Prussiana obrigou a França a ceder as províncias ao novo Reich alemão (1871). A derrota de 1918 trouxe a área para controle francês. Em 1940, Hitler reincorporou a zona à tutela germânica. Em 1945, eis que os franceses fazem tremular de novo a bandeira tricolor sobre os prédios de Estrasburgo. Depois de milhões de mortos e humilhações recíprocas, França e Alemanha se tornam a base da integração da Europa. Um duro aprendizado chamado reconciliação. 

O casal da escultora Josefina de Vasconcellos traz o momento bonito e final. Quem sabe tivessem acumulado mágoas. Um poderia acusar o outro de não ter enviado notícias. Ela deve ter passado por mil perigos para reencontrar o marido. E, então, um mar de dores cessa quando se reencontram e percebem que, juntos, conseguem mais do que separados. Uma superação da mágoa, da história e até de si: eis o que chamamos reconciliação. Reconciliar é um ato de perdão recíproco e de superação. Não é fácil. Povos experientes e com densa história podem levar séculos, como franceses e alemães. 

Outro exemplo? O Eurotúnel, sob o canal da Mancha, aproximou Paris e Londres. De alguma forma, ele anunciou ao mundo, ao ser inaugurado em 1994, que a guerra dos Cem Anos (1337-1453) tinha sido, de fato encerrada. Não era a vitória dos Plantagenetas ou de Joana D’Arc, era o triunfo da paz e da superação das desconfianças maiores. Era uma reconciliação. O Brexit pode reanimar velhas cinzas de estranhamento. O túnel continua lá como símbolo de um enorme empreendimento que funciona, como a estátua de Josefina. 

Gostamos de momentos teatrais. O casal da imagem simboliza isso. Infelizmente, a reconciliação deve ser celebrada de novo quase todos os dias. Depois do abraço emocionado e regado a lágrimas sinceras, deve existir uma conversa com as respectivas cobranças. Isso vale para casais e para a União Europeia. O ato de reconciliar é sempre um processo que implica escolhas permanentes. O abraço é um passo simbólico, talvez o mais fácil e bonito. Viver é perdoar muitas vezes, conversar outras tantas, abraçar de novo, ter raiva mais uma vez e seguir. Os contos de fadas terminam com “e viveram felizes para sempre”. Por isso são contos de fadas, não são de humanos. Nós não somos elfos ou duendes. Somos seres que não vivemos felizes por muito mais de algumas horas e, por isso, nosso para sempre é até amanhã. O sapo retoma seu lugar e o príncipe some. A princesa fica ranzinza. O casal descobre que o amor, para ser perfeito, deve imitar Romeu e Julieta e durar poucos dias. Amor de anos implica abraçar mais uma vez, perdoar, entender, retomar e aceitar que, tal como nós, os que amamos são princebruxas ou sapríncipes. 

Para isso, existe arte. Pesquise a imagem “reconciliation+Josefina” e analise o lindo casal. Coloque no seu celular para lembrar todo dia que a condição de existir em grupo é essa. Simbolicamente, os dois estão de joelhos porque ambos se reconhecem faltosos e humanos. Ambos abraçados e dizendo um ao outro: “que bom que você não é perfeita ou perfeito e, assim, podemos nos amar”. Reconciliar é um ato supremo de esperança e funciona, até amanhã, ao menos. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR  DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’,  ENTRE OUTROS

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