Recife vê mostra de arte ibero-americana

Um vasto panorama da produção artística recente de 27 países ibero-americanos ou que pertencem à região do Caribe, incluindo aí as comunidades hispânicas dos Estados Unidos, poderá ser visto a partir de amanhã no Recife. Para abrigar essa mostra, que levou três anos para ser concretizada, foi necessário usar um novo espaço, o Centro de Convenções do Recife, que tem 5 mil metros e será inaugurado nesta terça-feira. Ao todo são quase 230 obras, de 90 artistas de 27 nacionalidades.Como não poderia deixar de ser num evento de tamanha dimensão, estão representadas as mais diferentes formas de expressão e linguagem. Além do mais, é preciso considerar que a seleção foi feita por um time de dez curadores, com suas particularidades e preferências. Por razões óbvias, foi impossível convidar um curador por País, mas cada nacionalidade terá um texto especial no catálogo, escrito por um crítico local. O resultado é um calhamaço de quase 700 páginas que promete tornar-se um importante livro de referência para os pesquisadores de arte contemporânea. Do Recife, a exposição segue para vários países do continente (como Argentina, Cuba e México), encerrando a itinerância em 2003 na cidade espanhola de Valência, cuja Generalitat abraçou o projeto.Porém, em meio a esse amplo leque de poéticas, é possível identificar algumas linhas mestras, que permitem refletir sobre a produção artística latino-americana da década de 90 que, segundo o curador-geral do evento, Kevin Power, é um dos focos de renovação da produção internacional. "Estamos conscientes de que a situação é muito distinta quando se compara El Salvador com o Brasil, por exemplo. No entanto, o que pretendemos cobrir é exatamente as diferenças", afirmou em entrevista por telefone o curador independente americano, radicado na Espanha.Segundo ele, uma das características mais marcantes do período analisado é a confirmação da tendência iniciada com a pós-modernidade de enfocar questões de caráter identitário, como o feminismo, o racismo e as diferenças sexuais, levando à cena o que se costuma chamar, preconceituosamente, de "o outro" nos grandes centros. Esses trabalhos também refletem as mudanças promovidas pelo processo de globalização que, segundo Power, teve impactos negativos e positivos. "Se as grandes economias converteram a América Latina num grande mercado, a ser explorado em seu próprio benefício, esse processo fez com que a informação passasse a correr com muito maior fluidez, ampliando a cena internacional." Power concorda, no entanto, que muitas vezes essa rapidez na troca de informações pode muitas vezes levar a uma crescente homogeinização e perda de identidade.Para organizar esse enorme acervo de informações visuais os curadores decidiram não se ater aos critérios geográficos, mas organizar a mostra em torno de três núcleos temáticos. No primeiro deles estão os trabalhos ligados a questões de identidade, memória e história, como Ana Fernandez, do Equador, representada com uma grande pintura na qual acumula fragmentos da história de seu País, com referências tão díspares que vão da natureza à desvalorização monetária e ao hábito de ensinar as crianças na escola a desenhar o presidente...Num segundo bloco estão os trabalhos que falam mais diretamente sobre os problemas sociais da região. E no terceiro segmento estão as obras relacionadas ao que Power chama de nova subjetividade, do retorno a uma poética muito particular e de abertura a novos meios e materiais. Uma boa parte dos brasileiros - uma das maiores representações ao lado do México - encontra-se nesse capítulo.Há também no fim da mostra um espaço especial para as obras em suporte eletrônico, capítulo que reserva uma curiosidade à parte. É interessante constatar que a videoarte tem uma representação maior em termos porcentuais nos países menores, com menos tradição de arte contemporânea, do que nos mais "integrados". É como se essa atitude servisse para defender uma maior atualidade, afirmando novas atitudes, promovendo uma ruptura maior entre as jovens gerações e pintura tradicional realizada para o mercado interno de países como Honduras, Panamá e Equador.Brasileiros - No caso do Brasil, que contou com a curadoria de Aracy Amaral, a seleção é bastante diversificada, com um time de artistas de várias gerações. São oito representantes no total: José Damasceno, José Patrício, Carmela Gross, Vik Muniz, Nuno Ramos, Rochelle Costi, Ana Tavares e Rosângela Rennó. A fotografia, como se nota, tem um uma forte presença. Mas o que Aracy Amaral parece pretender destacar é a grande diversidade da produção nacional, que vai de uma intervenção mais direta sobre a questão da violência, que tanto marca nosso País, à criatividade de Damasceno ou Muniz.Em um texto lúcido, que tem um quê de desabafo diante de uma situação marcada pela inexistência de um pensamento consistente sobre arte no País, pela ausência de ética e pelo uso da arte como forma de perseguir o poder, ela traça um painel do Brasil que vai muito além dos artistas escolhidos para representar o País na mostra. O texto revela uma situação ambivalmente. Ao mesmo tempo em que o Brasil é o país da América Latina que tem o maior número de artistas de singular interesse, "é sempre um grande enigma a forma como esses artistas estão em geral imunizados frente à situação real da sociedade em que vivem. Raros são os artistas brasileiros de qualidade, na verdade, que expressam diretamente em seus trabalhos algo sobre o contexto em que vivem", escreve.

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