Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Receita parcial de equilíbrio

Viver é aprender. Ninguém tem uma receita infalível, porém vamos descobrindo sobre coisas que funcionam conosco ou que fracassam. Sempre há buracos que a experiência não preenche.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2018 | 01h00

Escrevo ao estilo Baltasar Gracián, o jesuíta espanhol que elaborava indicações na forma de aforismos (A Arte da Prudência, 1647). A lista seguinte é só minha. Nasce da principal fonte de toda sabedoria, o erro. Rejeite, reelabore e recrie do seu jeito. O bom cozinheiro possui uma receita em mente e tem o talento do improviso. Toda fórmula de vida é intransferível. 

1) Nunca, mas nunca mesmo, pergunte se sua amiga está grávida. Não importa que ela pareça estar no final da gestação de trigêmeos de hipopótamos! Contenha-se! Nada comente, espere ela dizer. Se não existir pronunciamento sobre o tema, pode ser que a questão seja outra. 

2) Quando alguém lhe contar sobre algo, salário ou uma aquisição, espere para ver se a notícia vem acompanhada de alegria ou tristeza. Seus valores podem estar além ou aquém dos do narrador. Você pode tentar consolar alguém que está narrando uma vitória ou elogiar um revés.

3) Evite corrigir alguém com testemunhas, especialmente se você estiver certo. Elogie em público, corrija no privado. Antes de constatar o equívoco, avalie muitas vezes se é necessário fazê-lo. Depois pense mais um pouco e evite. Se for indispensável, faça-o embebendo a seta em mel. Ajuda a diminuir a estocada lembrar que você também erra. Se a pessoa disse que deseja ser corrigida, que é humilde, que a verdade está acima da vaidade, tenha muito cuidado: essas são as piores. Nunca as contradiga! Se for seu chefe, superior, marido ou sua mulher a tentativa de correção vira crime de lesa-majestade. Você pode ser perdoado por errar, raras vezes será esquecido por corrigir. Sua figura vai lembrar para sempre a fraqueza de quem foi retificado. Seja sincero consigo sempre, com conhecidos de quando em vez e com quem você casou ou seu chefe escolha o dia da década em que fará isso e, se puder, evite. Eu conheci uma pessoa que aceitava bem ser corrigida. Tenho 55 anos. Foi apenas uma. Talvez eu venha a conhecer outra, mas minha genética parece não favorecer a longevidade. 

4) O cotidiano, inequivocamente, faz com que baixemos a guarda e passemos a ficar à vontade em situações em que outrora estivemos alertas. Esse é o momento do desastre. Com a mulher ou o homem que você só viu naquela noite vale qualquer roupa. Com aquelas e aqueles com quem você divide espaço regularmente, cumpre mais cuidado. “Vou dormir assim mesmo porque somos íntimos”: começou o processo para deixar de ser. Quando ele ou ela disser: “Pode ficar assim, amor, eu gosto de você de qualquer jeito”, saiba que isso é sempre uma mentira. Ninguém gosta de qualquer jeito. Fique à vontade com relações casuais. Com afetos estáveis e repetidos, a cenografia é imperativa. Isso vale para trabalho, amizades e tudo mais. Fique à vontade consigo mesmo ou com estranhos. Ter cuidados com pessoas íntimas é uma forma elevada de gentileza.

5) Família, digo em palestras, é como herpes, volta reiteradamente. Coisas ditas de forma dura estarão ali como um bode na sala por toda a eternidade. Não tem como ter ex-mãe ou ex-irmão. A ofensa feita diante do peru natalino retorna com o panetone pascal. Assim, muito cuidado com o que é dito e feito com parentes. As injúrias do mesmo sangue são as mais fundas. Família precisa de cuidados de bonsai: luz diária, regas criteriosas e podas cirúrgicas. 

6) A raiva faz parte dos processos humanos. Dizer qualquer coisa dura e se arrepender, sentir-se ofendido por uma palavra grosseira e questionar a pessoa são facetas com as quais precisamos aprender a lidar. Um esquecimento de aniversário, uma rispidez injusta ou um desdém inexplicável denotam aspectos que devemos avaliar no contexto de toda a relação. Perdoar aos outros e a si é algo importante dentro de várias fronteiras? Qual o grande limite? Para mim é a violência física. Quem bateu baterá de novo. No Sul chamávamos alguns cachorros no campo de “cão ovelheiro”, aquele que matou e comeu uma ovelha. Uma vez que ele experimentou o prazer e o poder do sangue, não voltará à ração insípida. O ataque físico encerra o relativismo. Quem agride agredirá de novo. Qual o seu maior desejo e o seu grande medo? 

7) Se alguém do seu mundo afetivo tem um vício, a fórmula mais equilibrada é a de socorrer o afogado. Se você ficar muito longe, a vítima afunda sozinha. Se você abraçar com força e união absoluta, há um risco elevado de submergir junto. Você precisa estar suficientemente perto para tocar e suficientemente longe para manter seu equilíbrio. Uma das coisas mais dolorosas da vida é perceber que há pessoas além da nossa capacidade de ajudar. Afastar-se de alguém que amamos é um soco no estômago. Já passei por isso, como quase todo mundo com certa experiência. Ajude muito e entenda que há momentos em que o desejo de alguns corpos é ir para o fundo. E não há nada que possamos fazer.

Escutar-se é fundamental, bem como escutar os outros. Saia do espaço mágico da existência, aquele que imagina que as coisas vão se ajeitar sem ação direta e concreta. Inclua-se! Aprenda com seus erros e multiplique os pedidos de desculpas e os agradecimentos. Dê menos importância a si e nunca eleja gurus. Leia o que eu escrevi e constate que tudo pode ser uma bobagem e você, realmente, deve ter razão. Ignore tudo, refaça seus códigos, reinvente-se e crie molduras suas e não as dadas por um cronista de jornal. Tudo que escrevi pode ser mentira, menos o item um. Nunca pergunte a uma mulher se ela está grávida. Todo o resto é negociável. Bom domingo para todos nós. 

Tudo o que sabemos sobre:
Leandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.