Receita para cantar São Paulo

Quando se fala em músicas tipicamente paulistanas, duas vêm à frente da lista: Ronda, de Paulo Vanzolini, lançada em 1953, e Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, que, curiosamente, fez sucesso primeiro no Rio: foi a música mais cantada nos bailes carnavalescos cariocas em 1964.Os compositores foram amigos, trabalharam juntos em rádio e televisão e sempre souberam muito bem ? como no samba de Noel ? que haviam conseguido traduzir, nessas canções (e noutras, mas nunca tão bem quanto nessas), a alma da cidade. Espíritos boêmios, foram companheiros de mesa de bar. Parceiros de música, nunca foram. Talvez por causa do peso das marcas registradas.Mas quando a Editora Abril lançou, no início dos anos 60, uma história da música brasileira, em fascículos, biografias com discos encartados, o volume 45 foi dividido por eles: num lado, Adoniran ? naquele tempo os discos tinham música dos dois lados ?, no outro, Vanzolini.Neste fim de ano, os dois ganham homenagens. Na quinta-feira, o músico e jornalista Ayrton Mugnaini Jr. lançou a biografia Adoniran: Dá Licença de Contar (volume da coleção Todos os Cantos, da Editora 34, 256 págs., R$ 29,00). O lançamento coincide com os 20 anos da morte do compositor, em novembro de 1982. E a BR Distribuidora dará de brinde a seus clientes um pacote com quatro CDs e 52 músicas de Vanzolini, interpretadas por 22 artistas, de Chico Buarque a Virgínia Rosa e ao Bando de Macambira. No ano que vem, os discos estarão à venda, com selo da gravadora carioca Biscoito Fino.A biografia de Adoniran é aberta com depoimentos de seus admiradores ? Stanislaw Ponte Preta, Geraldo Filme, Moreira da Silva, Mário Lago. O primeiro depoimento é de Vanzolini: ?O Adoniran era muito meu amigo. Quando trabalhei com ele na TV Record, saíamos sempre juntos para tomar cachaça. Ele propôs várias vezes fazer parceria comigo, mas não daria certo, porque ele queria que eu fizesse a melodia.?Prossegue, certeiro: ?Considero o Adoniran um caricaturista genial, com um grande poder de síntese. Ele tinha um samba que dizia: ?Inês saiu, dizendo que ia comprar pavio pro lampião?. Você pode escrever sete volumes sobre a periferia paulista, mas dificilmente vai ser tão preciso quanto essa imagem.?O livro de Mugnaini Jr. tenta separar o que é mito do que é verdade na vida de João Rubinato, nascido em Valinhos, no dia 6 de agosto de 1910, filho de imigrantes italianos que foi entregador de marmitas, varredor de fábrica, tecelão, pintor, encanador, serralheiro, garçom, metalúrgico ? quando a família fixou residência em São Paulo, em 1932. Nesse mesmo ano, começou a compor e João Rubinato criou sua persona mais famosa, Adoniran Barbosa (mas, ao mesmo tempo, fazia-se chamar, também, de Barbosinha).Começou no rádio em 1934, como cantor, e teve, no ano seguinte, a primeira composição gravada: a marchinha Dona Boa, feita em parceria com J. Aimberê, e, defendida pelo grande Raul Torres, vencedora do concurso de músicas de carnaval da prefeitura paulistana.Gravou pela primeira vez em 1936 ? dois discos de 78 rotações, que passaram desapercebidos, como outro, lançado no ano seguinte (depois disso, Adoniran ficaria sem gravar por 15 anos).Decisiva para a vida do compositor e ator foi o encontro com o humorista Oswaldo Molles, em 1942. Molles criou boa parte dos personagens que Adoniran viveu no rádio e na televisão ? Zé Conversa, Charutinho, Mata-Ratos, Moisés Rabinovich, Dr. Sinésio Trombone, Dom Segundo Sombra, Jean Rubinet, Barbosinha Mal-Educado da Silva, Mr. Richard Morris, Giuseppe Pernafina, Mané Mole, Chico Belo, Dominguinho, Firmino.Fez filmes cômicos, como o musical Pif Paf, de Ademar Gonzaga, sérios, como O Cangaceiro, de Lima Barreto, pornochanchadas, como A Super-Fêmea, de Aníbal Massaini Neto, dramas, como Eles não Usam Black-tie, de Leon Hirszman; novelas, como Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro, ou Ovelha Negra, de Walter Negrão e Chico de Assis.O livro de Ayrton Mugnaini Jr. acompanha a trajetória de muitas facetas em tom bem-humorado, reproduzindo diálogos, recriando situações; o trabalho é rico em fotos, reproduções de capas de partituras e discos, artigos escritos para jornais e revistas, manuscritos e mais ? até mesmo um roteiro dos bairros que serviram de cenário para as canções antológicas.Traz, ainda, um texto de Antonio Candido para a contracapa do segundo elepê de Adoniran, lançado em 1975: ?Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as cantinas do Bexiga, Adoniran não deixará acabar, porque graças a ele ficará, misturada vivamente com a nova, mas, como o quarto do poeta, também ?intacta, boiando no ar?.?O mesmo Antonio Candido escreveu o texto de apresentação da caixa com os quatro discos ? contendo quase toda a obra musical ? de Paulo Vanzolini. A idéia de reunir as canções foi de Paulo, que batizou o projeto de Acerto de Contas.Isso porque, segundo ele, quase todas as suas músicas foram gravadas de forma errada. ?O Paulo é desentoado, canta muito mal, compõe com sistema lógico muito próprio, que prioriza a fluência dos versos, não a da melodia?, explica o músico e produtor Ítalo Peron. ?De certa forma, os intérpretes foram ?corrigindo? ? ou interpretando de forma diferente ? o sentido original das canções, criando ?parcerias?. Paulo resolveu acertar as coisas.?Nascido em São Paulo, em 25 de abril de 1924, Paulo Emilio Vanzolini, doutorado em zoologia em Harvard, nos Estados Unidos, nunca foi ? como reforça Ítalo Peron ? um compositor profissional, ou artista profissional; embora tenha trabalhado em rádio e televisão, não deixou a atividade na área biomédica em segundo plano. No levantamento feito para o Acerto de Contas, reuniu ? do que se lembrava e lembravam-se os amigos ? algo em torno de 65 músicas compostas, algumas inéditas. Descartou parte delas. Chegou às 52 que considera essenciais.Começou o trabalho, ajudado pela mulher, a cantora Ana Bernardo, há seis anos; em seguida, entrou em cena Ítalo Peron, para registrar as partituras e produzir as gravações; adiante, surgiu o produtor Homero Ferreira, que fez a ponte com a gravadora Biscoito Fino e a empresa patrocinadora.Paulo Vanzolini escolheu os intérpretes (descartou, por questões particulares, o parceiro Toquinho e o cantor Noite Ilustrada, que fez sucesso com Volta por Cima, além de personalidades que se ofereceram). Quis no acompanhamento os violões, bandolins, cavaquinhos, sopros, pandeiros paulistanos, o som da cidade, tal como o percebe ? Isaías, Israel, Luizinho, Zé Barbeiro, Stanley, Milton Mori, Cezinha Guarani ? e assim por diante.Convocou Márcia, Paulinho Nogueira, Maria Marta, Inezita Barroso, Eduardo Gudin, os Trovadores Urbanos, Ventura Ramirez ? e mais Chico e Christina Buarque (sua intérprete predileta), Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Martinho da Vila ? para citar alguns. Há até nomes desconhecidos, como o do médico Francisco Aguiar, cantor amador que estréia em disco e cuja voz faz a música de Paulo Vanzolini soar como ele gosta que soe. Que autoridade maior se habilitaria?

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