Recebido por cachorros

HOUSTON

Roberto da Matta, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Acabo de ser saudado por um até logo simpático do oficial de fronteira no moderníssimo Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston, Texas, Estados Unidos, e, depois de andar até a esteira das malas, sou farejado por cachorros.

Eles são limpos, calmos e individualistas como todo cão americano. Estão seguros por funcionários do Home Land Security impecavelmente vestidos. Em toda parte, eles cheiram as nossas malas com os olhos tristes dos bichos amestrados. Sua visão apagou o enorme cansaço de um voo sem nenhuma novidade, exceto o seu rotineiro desconforto.

Correndo, saio do terminal internacional para o doméstico, mas eis que me defronto com algo ainda mais amedrontador. Com uma máquina de raio X, destinada a verificar se o meu corpo, tão humanamente gasto e cansado, é ou não uma arma anti-humana. Já começo a tirar os sapatos em meio a uma fila enorme de gente desconfiada e silenciosa como bois de matadouro, quando vejo essa cabine de vidro com portas que rolam sobre si mesmas, pondo a nu aquilo que estava encoberto por minhas meias, camisa, calça e cueca. Sou ordenado a entrar no tal biombo. Sem sapatos, com as calças querendo cair (pois fui obrigado a tirar o cinto), sem certeira e relógio e com o meu parco dinheiro nas mãos que estico acima de minha cabeça, entro na máquina que, num abraço de alguns segundos, vai me desnudar para além da conta dos olhos humanos. Vejo que cheguei aos Estados Unidos e, imediatamente, me pergunto se ainda vale a pena viajar...

* * *

Volto aos Estados Unidos e à sempre simpática New Orleans para, dentro da pantagruélica programação da Associação Americana de Antropologia, tomar parte num encontro, destinado a discutir o impacto da obra do professor David Maybury-Lewis, o antropólogo de Harvard que foi o primeiro estudiosos dos Xavantes, e que teve um elo profundo com o Brasil, que morreu em dezembro de 2007, na antropologia nacional dos anos 60. Fui o seu primeiro orientando brasileiro e quem primeiro fez a ponte Harvard-Museu Nacional quando ele e o igualmente saudoso Roberto Cardoso de Oliveira fundaram, com recursos da Fundação Ford, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional no final do anos 60. Coisa tão frágil naquele época de truculências políticas, que suas iniciais - PPGAS - levava a imaginar um pequeno teco-teco sobrevoando com valentia os turbulentos céus brasileiros quando o nosso país estava dilacerado pelo autoritarismo dos governos militares.

Esta sessão congregou um punhado de alunos antigos e jovens. Interessante notar o que raramente fazemos no Brasil: a homenagem cujo ponto de partida são as ideias do professor que os discípulos levam diante, esticando-as e criticando-as no sentido de mostrar como ele poderia ter ido mais longe com elas. Mas sem deixar de citar a obra a qual, pela ética acadêmica, é um dever e uma questão de honra. No Brasil, o sujeito usa descaradamente a mesma ideia, deixando de citar sua fonte de inspiração, de modo que o trabalho do seu professor torna-se uma herança maldita e o seu autor um hóspede não convidado, já que é mencionado a contragosto e não com o orgulho que, afinal de contas, deve ser o ponto central do nosso reconhecimento pela pessoa que os inspirou e ensinou.

Essa homenagem se associou a outras e eu cito a que foi feita ao meu querido amigo Conrado Kottak, que deu contribuições importantes na antropologia da globalização, no estudo da cultura de Madagascar, na pesquisa da televisão no Brasil (um livro a ser traduzido em português); e numa hoje memoriável pesquisa da vida social de Arembepe na Bahia; e no ensino da Antropologia Cultural, já que ele é o autor do melhor texto dessa área.

Neste encontro, seus ex-alunos o homenagearam mostrando como suas ideias inspiraram novos trabalhos e como sua vida foi central para que eles ali estivessem dando de volta aquilo que é irremissível em toda relação com qualquer figura paterna ou materna.

* * *

Na minha fala, recordei o impacto de Maybury-Lewis, de Roberto Cardoso focando menos o seu lado técnico (de grandes fundadores de uma instituição de pesquisa fundamental), mas chamando atenção para a sua dimensão humana. A do encontro de dois líderes; a da capacidade de se deixarem marcar um pelo outro; a da disposição de compartilhar com os alunos os seus projetos intelectuais e de, juntos, concretizarem um trabalho voltado para o estudo e a pesquisa, sem colocar a instituição a serviço da velha e gasta politiquinha brasileira. Se não fosse por isso, este programa do Museu Nacional não seria hoje um dos mais importantes e criativos de todo o mundo.

Como foi prazeroso reconhecer e testemunhar como as nossas vidas se fazem por meio de outras vidas e essas, por meio das nossas. Quantos não são tocados por nós no curso de nossa trajetória; e que privilégio enorme foi poder testemunhar vivamente que, sem aquela pessoa - sem esses maravilhosos professores e amigos -, eu não estaria aqui contando esta história. O mundo, apesar de tudo, é bom.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.