Rebeldia abafada na dor da América

A distância entre o que se é e o que se pensa ser está em Foi Apenas Um Sonho

Carol Bensimon, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Para cada Jack Kerouac a botar o pé na estrada nos anos 50, havia milhares de sujeitos seguindo à risca o livro de regras do sonho americano. O boom econômico colocava eletrodomésticos nas vitrines, rock-n"-roll nas vitrolas, e terraplanava espaço para mais um subúrbio. O país estava unido pela louca vontade de consumir. Essa era a América da maioria - e a de Richard Yates, certa vez chamado pela revista Esquire "um dos mais desconhecidos dos grandes autores americanos".

Ao longo de sua carreira (o primeiro livro é de 1961, e o último publicado em vida, de 1986), ele recolheu elogios de nomes do panteão da literatura, tais como Dorothy Parker, Kurt Vonnegut e Tennessee Williams. Ainda assim, não é nada fácil ouvir falar de Yates. O cenário mudou um pouco em 2008, quando Sam Mendes adaptou a obra-prima do escritor para o cinema, com Kate Winslet e Leonardo di Caprio como protagonistas. Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road) está longe de ser um filme inesquecível, mas parece o tempo todo nos indicar que, por trás dele, há uma grande obra literária esperando ser descoberta.

Frank e April Wheeler vivem em um subúrbio de Connecticut. O ano é 1955. Ele odeia seu emprego; ela, a vida de mãe e dona de casa. Ambos, contudo, estão convencidos de que são diferentes, de que questionam o modelo social vigente e de que suas ambições são maiores e menos uniformes do que as dos amigos e vizinhos. Presos em uma vida ordinária, sonham com uma improvável mudança para Paris, que jamais acontecerá. No meio desse turbilhão de desapontamentos e insatisfações, há espaço para infidelidades, discussões sobre aborto e memoráveis figuras secundárias.

Foi Apenas Um Sonho é um dos romances mais impactantes da literatura americana. Richard Yates traça cenas com uma precisão quase obsessiva, sem que no entanto elas pareçam excessivas. À medida que a história avança, é como se Yates fosse apagando as luzes de todas as possíveis saídas. A nós, leitores, cabe acompanhar com apreensão o declínio dos Wheeler, sem no entanto nos compadecermos em demasia. Isso porque acaba por ficar evidente que a diferença entre o que Frank e April realmente são e o que eles pensam que são é, na verdade, o desencadeador de seus problemas. Uma grande obra sobre uma rebeldia abafada, não apenas pela sociedade, mas pelos próprios candidatos a rebeldes.

CAROL BENSIMON, ESCRITORA, É AUTORA DE PÓ DE PAREDE (NÃO EDITORA) E SINUCA EMBAIXO D"ÁGUA (COMPANHIA DAS LETRAS)

FOI APENAS UM SONHO

Autor: Richard Yates

Tradução: José Roberto O"Shea

Editora: Alfaguara

(312 págs., R$ 41)

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