Rebeldes quase sem causa do século 21

HQs e filmes de Kick-Ass e Scott Pilgrim chegam este ano ao País

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2010 | 00h00

 
O canadense Scott Pilgrim e o americano Dave Lizewski são garotos sem nenhum atrativo especial. Não possuem inteligência acima da média, não sofreram mutações que lhes rendessem superpoderes nem têm razões nobres para entrar em lutas. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, estão para o cinema adaptado de quadrinhos hoje como Wolverine e Homem-Aranha estiveram ao longo da última década.

Os dois personagens protagonizam, respectivamente, Scott Pilgrim Contra o Mundo e Kick-Ass: Quebrando Tudo, graphic novels e filmes que vêm sendo apontados pela imprensa internacional como os exemplos mais bem-sucedidos do gênero neste começo do século 21. "(Kick-Ass é) tão pós-moderno que faz todos aqueles que vieram antes parecerem relíquias de uma era passada", definiu o jornal inglês Guardian, um dos maiores entusiastas dos dois lançamentos. "De gargalhar, inteligente e subversivamente emocional, (Scott Pilgrim) tem o fio narrativo mais cinético que você verá no papel", descreveu a Paste Magazine, ao incluir a HQ entre as 20 melhores da década.

O que leva as duas histórias a receber tantos superlativos? Alguns fatores podem ser levados em conta, como o fato de colocarem losers totais como heróis, uma evolução do "orgulho nerd" que filmes como Superbad (2007) levaram às telas nesta década. Também são histórias nas quais a tecnologia tem papel fundamental tanto dentro como fora da trama. Ambas se desdobram em mídias - viraram fenômeno na internet, com discussões sobre trailers e as trilhas sonoras antes de mesmo de chegarem aos cinemas, além de terem inspirado versões em game.

O público brasileiro poderá conferir as histórias ainda neste ano. Os dois primeiros títulos (de um total de seis) da versão em HQ de Scott Pilgrim foram lançadas por aqui no mês passado, em um único volume, pelo selo Quadrinhos na Cia.; o filme, com Michael Cera (ator de Juno) no papel principal, tem estreia mundial no segundo semestre. Kick-Ass chega aos cinemas nacionais na sexta-feira da semana que vem. Mais ou menos pela mesma época, deve sair por aqui a graphic novel, pela Panini.

A caráter. Idealizada pelo escocês Mark Millar, em uma parceria com o ilustrador americano John Romita Jr., Kick-Ass conta a história de Dave Lizewski, adolescente fã de quadrinhos que, encafifado com o fato de ninguém nunca ter tentado virar super-herói na "vida real", enfia-se numa roupa de mergulho e sai pelas ruas, sem treinamento nem nada, à caça de bandidos.

Lizewski (vivido no filme por Aaron Johnson) vai parar no hospital duas vezes, mas uma das brigas é filmada por um estranho e cai no YouTube, o que, em tempos de internet, basta para que Kick-Ass vire hit internacional. Em meio a isso, o neo-herói esbarra em três outros personagens a caráter cujas intenções ele demora a decifrar: Big Daddy (Nicholas Cage), Hit Girl (Choe Moretz, que tinha 11 anos na época das filmagens) e Red Mist (Christopher Mintz-Plasse, de Superbad). A direção do longa ficou a cargo de Mattew Vaughan, que também participou da criação do roteiro e bancou boa parte da produção (leia ao lado).

Com forte influência de games e mangás, Scott Pilgrim é escrita e ilustrada pelo canadense Bryan Lee O"Malley, e teve o primeiro de seus seis volumes lançad0 em 2004. Nele, o leitor é apresentado a Scott, rapaz de 23 anos que não tem emprego, toca guitarra na banda de rock amadora Sex Bob-Omb e namora uma colegial de 17 anos - pelo menos até conhecer Ramona Flowers, entregadora da Amazon.com graças a quem se envolverá na missão de derrotar sete integrantes de uma tal Liga dos Ex-Namorados do Mal.

Simultâneas. Tanto Kick-Ass quando Scott Pilgrim mal tinham ganhado forma como HQ quando suas versões em filme começaram a ser produzidas, o que de cara já as diferencia de outras adaptações de quadrinhos - o longa-metragem de Quarteto Fantástico (2005), só para ficar em um exemplo, estreou quatro décadas depois de os personagens surgirem no papel. "Assim que começamos a criar Kick-Ass, soubemos do interesse para adaptações", diz Romita Jr. de Nova York, por telefone ao Estado, "mas ficamos céticos, porque isso acontece em Hollywood o tempo todo. Eles dizem que querem e somem."

Apesar de não encontrar um grande estúdio que bancasse a proposta superviolenta do filme, o diretor Mattew Vaughan insistiu. E começou a trabalhar no roteiro enquanto Millar e Romita Jr. ainda criavam a graphic novel. "Foi um processo simultâneo, o que não acontece com frequência", lembra Romita Jr. "Tanto que, na primeira metade do filme, tudo lembra muito o meu trabalho de arte na HQ. Mas, como não fui rápido o suficiente, o filme foi concluído antes, de modo que a segunda parte ficou com visual bem diferente."

Bryan Lee O"Malley também sofreu os efeitos das filmagens precoces de Scott Pilgrim. Tinha lançado só o primeiro volume da série quando o diretor Edgar Wright iniciou a adaptação para os estúdios da Universal. "Foi complicado continuar a escrever depois que o roteiro foi feito, e o elenco, escolhido. Tive que tomar algum tempo para voltar a ficar familiarizado com minha própria versão dos personagens", conta O"Malley, em entrevista por e-mail ao Estado.

É claro que, com tantas similaridades entre as duas produções, não demoraram a surgir outras relações. Quando Kick-Ass estreou no Reino Unido, em abril deste ano, foi precedido por um trailer de Scott Pilgrim. O personagem que luta contra os ex-namorados do mal de Ramona, por sua vez, é mencionado no filme de Mattew Vaughan. Até as personagens femininas mais fortes de cada história têm semelhanças. A jovem atriz Chloe Moretz deu vida à Hit Girl ( a verdadeira heroína de Kick-Ass) usando uma chamativa peruca rosa - uma das tonalidades também adotada nos cabelos de Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead) em Scott Pilgrim.

 

 

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